Entre o judo e a saudade, “uma vitória pode ter vários significados”

O judo ensinou Mafalda Silva a usar a força do adversário a seu favor, mas na Covilhã, o seu maior oponente é o silêncio de uma casa longe da família. A estudante-atleta, de 21 anos, vive entre as aulas e a prática da modalidade. Esta é a história de quem aprendeu que, para vencer no continente, é preciso carregar a ilha no peito.

Mafalda Silva é natural da Ilha de São Miguel, nos Açores, e, para a atleta, o maior desafio não é a presença do adversário no tapete, mas sim a distância da família e a gestão de uma rotina, em que o descanso é um luxo. Mudou-se para a Covilhã em 2022 para estudar e permanece lá até aos dias de hoje.

Para além de judoca no Clube Judo da Ribeira Grande, é também estudante do mestrado em Ensino de Educação Física na Universidade da Beira Interior, árbitra regional e, ainda, possui o curso de treinadora de grau 1. Já foi campeã de muitas provas: o Nacional de Juvenis de 2018 e de Juniores de 2023 e a Super Copa de Espanha, no XXII Memorial Santiago Ojeda em 2023. E foi bronze no Nacional de Juniores dos anos 2020, 2021, 2022 e 2024 e no Campeonato Nacional Universitário de 2025. 

A transição para a faculdade não foi apenas uma mudança académica, mas também um choque logístico. Conciliar as aulas com os treinos diários exige um planeamento minucioso que envolve nutrição, descanso e horários rígidos. No inverno serrano, quando a neve cobre os montes e o frio aperta nos ossos, a memória do mar torna-se um refúgio mental, mas também um lembrete físico de que o seu porto seguro está a centenas de milhas de distância. Estar longe da família obriga a um crescimento acelerado — para quem vem de uma ilha, a Covilhã pode ser um lugar solitário, especialmente nos momentos de dor. O judo, sendo um desporto de contacto total, deixa marcas físicas e psicológicas. É como a distância.

 

Como é que o judo entrou na tua vida? Foi amor à primeira vista ou um processo lento?

O judo apareceu na minha vida de uma forma até que rápida, através do meu pai. O meu pai, quando era mais novo, praticava karaté e quis que eu também praticasse. Então, quando eu era mais nova, ele foi-me ensinando uns golpes. Quando fiz 8 anos, foi comigo ao pavilhão para me inscrever no karaté. Estava lá a senhora responsável pelo pavilhão e ela disse que o karaté era um desporto muito bruto e que eu era uma menina muito nova e que eles também tinham o judo. Era uma oferta, assim, melhor para mim e nós lá aceitamos. No dia seguinte, lá fomos. Fui experimentar e, olha, lá fiquei desde os meus 8 anos até agora.

 

Quais consideras os marcos mais importantes da tua carreira desportiva até agora?

Serão todos aqueles que foram feitos em 2023, por ter sido campeã nacional e um ano de muitas competições e estágios. E, ainda, ter conseguido participar no Mundial de Juniores. Foi um ano muito bom!

 

Para ti, o que significa uma vitória?

Uma vitória pode ter vários significados: pode ser uma vitória numa prova ou uma vitória simplesmente contra uma atleta que nunca tínhamos vencido. Por exemplo, existem vários tipos de vitórias e cada uma significa superação total, que o trabalho foi bem feito e que devemos continuar a trabalhar para conseguir mais vitórias de todos os tipos. Acho que é um momento mesmo muito importante e que dá força ao atleta para continuar o seu trabalho.

 

Como foi o processo de sair de casa para conciliar a faculdade com os treinos? Qual foi o maior desafio logístico?

Foi mesmo muito difícil. No primeiro ano ainda pratiquei jiu-jitsu e ginásio, só que o jiu-jitsu, bem, eu não pratico jiu-jitsu, eu pratico judo, então não gostei e acabei por sair. Com o restante tempo, tem sido só ginásio e alguns treinos em casa. Acabei por ir a muitos estágios da Federação para conseguir fazer judo. E, quando eu vinha a casa, aproveitava para treinar muito mais para compensar, mas claramente que não é o suficiente, nem é o ideal, mas toda essa gestão foi muito difícil.

 

Como é um dia típico na tua vida? Consegues descrever o caos entre as aulas, os treinos, a tua nutrição e o teu descanso?

Hoje em dia, o meu dia é muito mais tranquilo do que nos anos anteriores. Vou às aulas, faço um treino por dia e está o dia acabado. Há alguns anos, quando estava a competir mais e a treinar mais, era acordar, treinar, tomar banho, comer, ir às aulas, sair das aulas e treinar outra vez, tomar mais um banho e jantar. E depois isso era rotineiro.

 

Sentes que, ao longo da tua vida académica, o estatuto de estudante-atleta é compreendido pelos professores e colegas?

Por acaso, nisso tive muita sorte. Tive professores que estavam sempre lá — a apoiar e a compreender. E os meus colegas de trabalho! Já aconteceu eu algumas vezes não conseguir ajudar tanto num trabalho de grupo ou não estar presente numa apresentação e terem de apresentar sem mim e eu apresentar posteriormente sozinha e está tudo bem. Os professores, de igual forma, quando eu não podia ir a uma avaliação, compreendiam e diziam: “Vamos mudar para uma data que seja mais acessível, que consigas estar presente”. Sempre tive muita sorte. As pessoas que me rodeiam conseguem compreender e facilitar um bocado todo esse processo.

 

Estar longe da família é muito difícil e obriga-te a crescer mais depressa. Para alguém que veio de uma ilha, quem são as tuas “âncoras” na Covilhã?

Sim, sair da ilha é muito difícil, mas torna-se mais fácil quando se vai acompanhada. Quando eu saí e vim para a Covilhã, vim com a minha melhor amiga e, apesar de estarmos em cursos diferentes, conseguimos ser as âncoras uma da outra. Todas as outras âncoras serão as amizades que vamos fazendo ao longo dos anos com pessoas, principalmente, do curso, porque passam contigo os dias, os momentos mais fáceis, os momentos mais difíceis e de mais ansiedade. Também temos as âncoras invisíveis que são, por exemplo, as videochamadas para casa e as saudades de casa, do clube, dos amigos da ilha. Tudo isto dá força para continuar e conseguir, apesar de não estarem ali fisicamente, sei que estão, portanto, há muitas âncoras e todas essas ajudam.

 

Sabe-se que o judo é um desporto de contacto e entrega total. Quando estás lesionada ou psicologicamente exausta, de que forma o facto de estares longe da tua família torna a recuperação mais lenta ou mais solitária?

O facto de estar longe da família torna o processo todo muito mais lento. Tenho o apoio, vá, nas videochamadas diárias, mas não tenho aquele contacto físico, aquele mimo de que nós precisamos quando as coisas não estão a correr tão bem. Tudo se faz e tudo se consegue, só que custa um bocado mais, a verdade é essa.

 

Como lidas com o facto de, muitas vezes, as competições ou treinos coincidirem com datas importantes, como o aniversário de alguém?

Já aconteceu muitas vezes de faltar a aniversários importantes, por exemplo, do meu pai, ou mesmo de várias amigas. E é difícil, mas festejamos noutro dia, porque essas pessoas sabem o quão importante é o judo na minha vida e percebem toda a situação. Nada que uma chamada não resolva e uma festa noutro dia também!

 

Quando consegues, finalmente, ir a casa, sentes que esse tempo é um “refúgio” ou apenas serve para recarregar baterias para o próximo desafio?

Quando eu consigo ir a casa entre o tempo de aulas, é um descanso total para o estudo e a vida académica, mas é uma recarga total de treinos para compensar o tempo que estou fora e em que não consigo treinar tanto. Voltar ao clube sabe tão bem! Sempre que tenho oportunidade, eu treino. 

 

Se fechasses os olhos agora, qual é a prova que te surge na memória como o teu “ponto mais alto” — aquela em que sentiste que tudo valeu a pena — e qual foi aquela derrota amarga que, por ser longe de casa e da família, te custou mais a digerir?

Então, se eu fechar os olhos agora, o meu momento mais alto seria o Nacional de Juniores de 2022: a prova correu-me muito bem, consegui o primeiro lugar e não estava mesmo nada à espera, estava no 2º ano da licenciatura, não treinava tanto quanto queria, mas correu bem! Tinha lá as pessoas do meu clube e também dos outros clubes dos Açores, foi mesmo bom, foi bonito! E, por outro lado, uma prova amarga seria um dos Nacionais de Cadetes, estava em boa forma, estava tudo a correr bem, mas no primeiro combate a cabeça foi parar à lua e perdi o primeiro combate. Não avancei mais na prova e acabei o Nacional sem classificação, quando tinha tudo para chegar ao pódio. Foi muito triste.

 

E para quem ligas nesses momentos?

Para o meu pai e para a minha mãe.

 

E se pudesses dizer algo à tua família sobre o apoio que te dão à distância, o que seria?

Eu acho que a palavra que melhor resume seria obrigada. É uma palavra abrangente, mas que serve para tudo. Obrigada pelo apoio. Obrigada por me relembrarem que tenho que ir treinar, que faz parte, que é preciso ir, pelo carinho quando volto a casa. Obrigada por tudo!

 

Na tua opinião, achas que, como estudante deslocada e, ainda, atleta, consegues superar as saudades de casa ou é algo que é suportado durante o dia a dia?

Qualquer estudante deslocado, seja atleta ou não, sente sempre muitas saudades de casa, da família, do clube, da ilha, da cidade, de onde for que seja a sua casa. Acho que qualquer pessoa sente saudade e há dias que essa saudade fica mais presente e custa mais e há dias que custa menos e não está tão presente, mas acho que passa assim um bocado por todos e que cada um arranja as suas maneiras para lidar com ela.

 

E tu, como lidas com a saudade?

É com aquelas videochamadas para matar um bocadinho a saudade. Claro que não é a mesma coisa, mas, nestas circunstâncias, é a melhor forma de lidar com esse sentimento.

 

Com a chegada do final de 2025, quais são as tuas metas para o próximo ano, enquanto atleta de judo?

O mestrado continua, mas o futuro no judo é uma incógnita. Quem sabe o que o futuro me aguarda? Vamos ver.

 

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