E quando me refiro a “estar só”, não quero que se associe a solidão, mas sim a solitude! Acho que quem constantemente se autobombardeia de estímulos, como é o caso dos mísseis TikTok, esquece-se de que estar “sozinho” e não preencher vazios com dumb scroll é uma opção…
O tédio não tem necessariamente de ser depressivo, pode ser o remédio que nos desprende da anestesia da tecnologia. E assusta-me mais quem não sabe estar sozinho, do que uma pessoa que desfruta da luxúria que é ter um espaço livre na rotina para degustar o dolce far niente. Nos dias que correm, este é talvez o travão mais acessível e desvalorizado por todos nós.
Não sou só eu quem apoia esta ideia, nem é de agora! O académico, Andreas Elpidorou, por exemplo, publicou um artigo científico em 2017, onde defende e argumenta que o tédio deve ser compreendido como um regulador do estado psicológico, com capacidade de promover o bem-estar, o crescimento pessoal e até a construção de uma vida com significado. Também a neurocientista Susan Greenfield defende que, em estados de tédio, o cérebro é obrigado a procurar algo novo. Um exercício que resulta num pensamento mais profundo e inovador. O tédio surge, assim, como um catalisador da criatividade e até como resposta à sobre-estimulação a que estamos constantemente sujeitos.
Isto torna-se ainda mais evidente, não só nos aborrecidos adultos, mas também nas suas consequentes crianças. É cansativo, de tão frequente, observar em restaurantes e outros espaços públicos, crianças com “chuchas” da Apple ou Samsung. Cada vez mais expostas a ecrãs e a estímulos constantes, perdem o espaço vazio que antes alimentava a imaginação. Mas todos nós temos uma criança interior que precisa desse espaço. E quando ele desaparece, desaparece também a liberdade de criar, refletir e respirar. Lembro-me de, em momentos de tédio, a minha mãe recorrer a soluções mais analógicas. Em vez do telemóvel, dava-me uma caneta e um papel (muitas vezes o verso de uma fatura que estava esquecida no fundo da mala) e deixava-me inventar. Eu desenhava, escrevia, rabiscava. Recordo esses tempos com gosto, pois ainda não tinha introduzido o termo “ansiedade” no meu vocabulário.
Aquilo que na altura parecia apenas uma forma simples de passar o tempo torna-se agora uma prática saudável e libertadora. Hoje, substituímos esses momentos por ecrãs. Bloqueamos as mentes mais férteis e criativas, perdemos a capacidade de: observar; de digerir o que nos rodeia, com calma; e de simplesmente estar. Nunca esteve tão claro e fundamentado o que mais nos prejudica, como o que melhor nos cura. Ainda assim, insistimos em nos contaminarmos com o vírus da ignorância.
Não estará na hora reintroduzir o tédio na nossa rotina? Como um posto de abastecimento de combustível! Não sei…
