Quando a inclusão esbarra nos degraus da universidade

Acessibilidade no ambiente acadêmico avança em ações, mas ainda há estruturas que limitam pessoas com deficiência.

“É como se me tivessem a tirar a liberdade. Tem que estar sempre à espera de alguém”. Essa é a realidade de Rita Cruz, estudante de Psicologia da Universidade da Beira Interior e paraplégica desde os 3 anos. Ao falar de liberdade, não se refere ao fato de não poder andar, mas sim, a liberdade que a Covilhã lhe tira todos os dias. Vinda de Castelo Branco, quando chegou à cidade se deparou com um lugar em que as pessoas acolhem, mas em que as estruturas excluem.

A realidade vivida por Rita reflete um problema estrutural. Para a professora de arquitetura e vice-presidente da Faculdade de Engenharia da UBI, Patrícia Pedrosa, a Covilhã não foi pensada e projetada para ser inclusiva. Com morros, passeios estreitos e ruas de pedra, a cidade ainda está longe de garantir acessibilidade universal.

 

Esse desafio também se estende à própria universidade. Inserida em um contexto industrial, a Universidade da Beira Interior ocupa, em grande parte, antigas fábricas. Três dos quatro polos foram adaptados desses espaços, o que traz limitações à acessibilidade.

 

Ainda assim, a preservação dessas estruturas históricas não devem ser um obstáculo à inclusão. Para Patrícia Pedrosa, tradição e acessibilidade precisam caminhar juntas. “É uma obrigação não utilizarmos a tradição como desculpa para não desenhar, pensar, propor soluções para o presente e futuro”. Além disso, a arquiteta afirma que manter a manutenção dessas estruturas é necessário. “A cidade é um organismo vivo e, portanto, como qualquer não é só realizar a intervenção, é depois garantir que ela tenha vida longa”.

A acessibilidade é uma questão que vai além do cumprimento de normas técnicas. É também uma questão de formação humana. Para Patrícia Pedrosa, mais do que seguir obrigações legais, os futuros arquitetos precisam desenvolver a capacidade de compreender o outro no uso dos espaços. “Não fica acessível por se pôr simplesmente um elevador, não fica acessível por se pôr uma rampa. É um conjunto de direitos espaciais que se cumpre com várias estratégias de projeto que garantem a acessibilidade”.

A preocupação tem ganhado espaço dentro do ambiente académico. Como forma de provocar reflexão aos alunos e professores, surgiram as sessões de sensibilização Na Tua Pele, que é uma iniciativa do programa Altamente Saudáveis da UBI. A atividade é alinhada com o plano de inclusão Valor T, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A proposta é simples: colocar os participantes diante das limitações enfrentadas por pessoas com deficiência. Durante as sessões, realizadas nos quatro polos da universidade, os participantes experimentam cadeiras de rodas, vendas e auscultadores, simulando dificuldades de mobilidade, visão e audição.

Foto: Camille Mocelin
Foto: Camille Mocelin

Para Amélia Augusto, vice-reitora para a Qualidade, Responsabilidade Social e Ação Social da UBI e responsável pelo projeto, a iniciativa vai além da experiência momentânea. “A UBI prepara os nossos estudantes não apenas para serem bons profissionais, mas também
para serem cidadãos conscientes, que promovam a cidadania, defendam os direitos humanos e compreendam o outro para além da deficiência.”

Mais do que as barreiras físicas, o projeto também chama atenção para obstáculos menos visíveis: o preconceito e a falta de atenção às necessidades do outro.

A experiência também provocou reflexão entre os participantes. Para a estudante de Medicina Clara Azevedo, aquilo que parece simples no dia a dia pode representar um obstáculo constante: “Se calhar, coisas que são garantidas para nós e que no nosso dia a dia não pensamos nelas, são uma falha constante no dia a dia delas [pessoas com deficiência]”.

Foto: Camille Mocelin

A sensibilização também alcançou os docentes. Para a professora de Gestão e Economia Cláudia Dias, a experiência reforça o papel da universidade na formação cidadã. “Acho que é um bocadinho também a nossa missão, enquanto professores, tentar sensibilizar as pessoas.” A vivência trouxe ainda reflexões sobre inclusão na comunicação. “A linguagem gestual pode ser uma solução. Até aqui na universidade já houve sessões, mas se calhar devíamos estar mais atentos a este tipo de formação”, reflete a professora.

Se por um lado há avanços na conscientização, por outro, os desafios estruturais continuam presentes, inclusive para quem ensina. Fernando Santos, que é professor de Engenharia Industrial e usa cadeira de rodas, reconhece o apoio da comunidade académica. “Ainda nunca tive uma situação em que tivesse uma dificuldade e não aparecessem duas ou três pessoas para ajudar.” No entanto, as barreiras físicas persistem.
O acesso ao restaurante destinado aos professores, por exemplo, continua limitado devido à presença de escadas e à ausência de elevador.

A autonomia também passa por recursos fora do ambiente académico. Tanto Rita Cruz quanto Fernando Santos utilizam automóveis adaptados, um elemento essencial para a mobilidade de pessoas com deficiência motora. O professor de engenharia teve acesso ao apoio através da Segurança Social, que financiou a adaptação do veículo. No entanto, ainda depende de ajuda de terceiros para tarefas simples do dia a dia, como entrar em seu automóvel e guardar a cadeira de rodas. Já a aluna de Psicologia conseguiu investir em equipamentos adicionais, como um sistema automático que permite guardar e transportar a cadeira de rodas na parte superior do carro.

 

O auxílio em tarefas do dia a dia também exige respeito e sensibilidade. A perda de um ou mais sentidos pode tornar difícil confiar plenamente na percepção de outra pessoa. O professor Fernando Santos afirma não ter qualquer problema em ser auxiliado por desconhecidos, recorrendo a quem estiver por perto sempre que necessário. Já Rita Cruz adota uma postura diferente, preferindo ser ajudada por amigos ou pessoas conhecidas, com quem já estabeleceu uma relação de confiança, optando, em muitas situações, por realizar as atividades de forma autônoma.

À primeira vista, essa postura pode ser interpretada como distanciamento. No entanto, a vice-reitora Amélia Augusto chama atenção para a importância de compreender o contexto por trás dessas reações, destacando também o papel das ações de sensibilização nesse
processo. “As vezes achamos que as pessoas com deficiência reagem com alguma desconfiança e distância, mas tem a ver com fatores de proteção que muitas das vezes eles vão tendo ao longo da vida”.

No fim, a acessibilidade não se mede apenas em rampas, elevadores ou adaptações técnicas, mas na forma como a sociedade escolhe olhar para o outro. Entre avanços e limitações, permanece um princípio essencial: incluir não é apenas permitir o acesso, é garantir que cada pessoa possa viver com autonomia, dignidade e, acima de tudo, liberdade.

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