Ana Gomes quer-nos “humanos em relação a outros humanos”

“Nós não estamos apenas a regredir em matéria de direitos humanos, estamos efetivamente a vê-los violados” disse Ana Gomes na palestra ocorrida na passada sexta-feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade da Beira Interior (UBI) intitulada “Na Europa e no Mundo – estamos a regredir na defesa dos Direitos Humanos?”

Perante uma sala completamente cheia, a jurista e antiga deputada partilhou as suas preocupações relativamente ao agravamento da violação de direitos humanos, à necessidade de regulação do Estado, à desregulação tecnológica e à proteção da democracia.

Alguns dos temas abordados na palestra navegam entre a lembrança do 11 de setembro, a crescente violação dos direitos humanos, os perigos da Inteligência Artificial (IA) e da robotização, a emergência do “novo fascismo” e as suas características, a desregulação do estado e, por fim, um apelo aos mais jovens para agir.

A ex-deputada reitera a ideia que a democracia é algo que requer cuidado e que “precisa ser regada e cultivada”, porque existe um vínculo claro entre a destruição dos direitos humanos e o recuo da democracia.

“Não só estamos a assistir a uma violação sistemática de direitos humanos como estamos a deixar destruir a democracia, porque de facto os direitos humanos não são respeitados por autocracias. Direitos humanos implicam viver em democracia e nós estamos a ver que estamos a deixar destruir as democracias” disse Ana Gomes, reforçando a necessidade de preservar continuamente os sistemas democráticos. 

Ao longo da palestra Ana Gomes referiu as constantes violações dos direitos humanos adjetivando-as como grosseiras, horrorosas e crescentes. Para ilustrar esta ideia recorreu a exemplos como as crises em Gaza, no Líbano e no Irão.

“A história repete-se” diz Ana Gomes face à emergência do “novo fascismo”, e explica as suas diferentes características como também as suas semelhanças em relação ao fascismo que conhecemos. Ambos consistem na desumanização de uma parte da humanidade, contudo, Ana Gomes refere que a diferença assenta na promessa de um futuro radioso por parte do fascismo do séc. XX, ao contrário do “novo fascismo” que prevê e aceita o fim da humanidade.

As políticas neoliberais nas últimas décadas são mencionadas, tal como, a ideia de que introduziram a obsessão pela desregulação. Ana Gomes destacou a responsabilidade dos Estados na garantia dos direitos dos cidadãos e referiu a situação de desorientação e incapacidade dos governos atuais.

A conferencista criticou a desregulação tecnológica e os riscos que estão associados a esta, apontando que o avanço tecnológico e a IA resultam na instabilidade de emprego para as massas e ainda explicando que esta é uma consequência dos erros de gestão feitos pelos governos, e que resultam em consequências devastadoras para a segurança dos cidadãos. 

Uma frase muito recorrente na palestra foi “A Europa tem que se defender”. Ana Gomes diz que a Europa precisa de demonstrar coragem e defender os valores que representa para os seus cidadãos e para o mundo, demarcando-se das políticas de Trump.

Ana Gomes viu a palestra na universidade como uma oportunidade para pedir aos jovens que sejam mais ativos politicamente, tomem ações e usem as suas vozes para a mudança.

A palestra foi promovida pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UBI, no âmbito da receção aos novos estudantes de Mestrado e Doutoramento para o ano letivo 2026/2027.

 

 

 

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