São muitos os alunos das Regiões Autónomas que fazem as malas e embarcam à busca de uma nova vida. Na Covilhã, carregam consigo uma saudade tão grande como as milhas marítimas que separam a ilha do continente, enquanto descobrem um sentido de responsabilidade e independência.
O sentimento torna-se “agridoce” quando se aterra no continente e se depara com uma realidade totalmente diferente. Um novo ar, uma nova cidade e novas dificuldades. Para Naomi Rodrigues, estudante de Ciências da Comunicação e vice-presidente do Núcleo de Estudantes das Regiões Autónomas da Universidade da Beira Interior (NERAUBI) a adaptação traz esse sentimento, principalmente, pela diferença do clima e da natureza: “Sempre que falo com pessoas das ilhas, dizem que lhes faz um bocado de confusão não ver o mar. Só vemos a Serra”.
O que outrora era recorrente e passava despercebido, agora faz-se notar pela ausência e sobressai a saudade.
“Do que sinto mais saudades é principalmente das pessoas, da minha casa, da minha família, a minha cadela. São coisas que não se podem substituir”, conta a dirigente do NERAUBI.
A solidão nos dias em que a cidade neve fica mais vazia torna-se um pesadelo para estes alunos. A sexta-feira, que para muitos simboliza reencontro e conforto, veste-se de preto para os estudantes das ilhas que têm de ver os outros partir enquanto eles permanecem longe de casa, Naomi Rodrigues explica a situação: “O fim de semana para nós é ficar na Covilhã. A sexta-feira é o pior dia. Quando todos vão embora e eu fico em casa completamente sozinha”. É nestes momentos que a saudade aperta com mais intensidade e a comida da mãe funciona como remédio.
Continente como principal destino
Para além da Naomi, são muitos aqueles que preferem deixar a ilha e chamar “casa” a uma nova cidade. Segundo os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), no ano letivo 2020/2021, dos 8600 alunos da ilha da Madeira que foram colocados no ensino superior, 58,2% foram inscritos numa universidade do continente, sendo que 12,8% estudaram na Região Centro.
Mais de 5 000 estudantes da Região Autónoma da Madeira estavam a estudar em Portugal continental.

Nos Açores, a história permanece a mesma, os dados publicados pela Secretaria Regional da Educação e Cultura do Governo dos Açores, mostram que em 2018 se inscreveram 864 alunos no ensino superior, sendo que 42% continuaram na ilha e 496 alunos foram colocados no continente, tornando-se no ano com um menor número de colocados na Universidade dos Açores entre 2011 e 2018.
O preço de regressar a casa
Através do Concurso Nacional de Acesso, 3,5% das vagas de cada curso são reservadas aos alunos dos Açores e da Madeira, o que aumenta o sonho de muitos poderem vir estudar para o continente. Na primeira fase do concurso, o continente costuma viabilizar a colocação de cerca de 500 a 600 alunos insulares em IES (Informação Empresarial Simplificada) do continente.
Esta decisão, por vezes, é mais complicada do que parece a níveis monetários, no entanto, os alunos provenientes das ilhas têm direito ao Subsídio Social de Mobilidade, que permite aos universitários residentes pagar um valor máximo pelas viagens de avião. O custo máximo do bilhete dos estudantes dos Açores é 89 euros, já entre a Madeira e o continente o valor desce para 59 euros.
No entanto, esta ajuda, por vezes, torna-se insuficiente para os que querem regressar a casa.
“O normal do meu bilhete [para a Madeira] é 59, mas em temporadas altas como dezembro ou a Páscoa, cheguei a pagar 100 euros só ida.”
Além do dinheiro que é investido, o processo até chegar à casa natal é complicado. “Um dia para ir para casa é super cansativo. Temos de apanhar o autocarro para o aeroporto e comprar comida por lá. Quem chega à ilha tem de apanhar uber, porque não tem quem o vai buscar”, explica Naomi Rodrigues.
Reativação do NERAUBI
Após um ano sem funcionamento, o núcleo é reativo no dia 27 de maio com a tomada de posse. Martim Evangelho, estudante de mestrado em Bioengenharia, foi eleito presidente da direção do NERAUBI.

A integração dos alunos continua a ser a missão fundamental deste núcleo. O objetivo é que todos os estudantes oriundos das ilhas sejam acolhidos de forma a sentirem-se em casa e não pensarem tanto na saudade e no que deixaram para trás.
“Os estudantes deslocados não têm, na UBI, um estatuto que diga que o aluno é da região autónoma”, afirma o dirigente do NERAUBI. O núcleo, nesta dificuldade, funciona como um intermediário entre os alunos e os professores: “por exemplo, para um aluno que tenha uma frequência num dia que vai viajar, o NERA consegue fazer uma intermediação com o provedor e acaba por facilitar a marcação da frequência”.
O NERAUBI torna-se um ponto seguro para os estudantes dos arquipélagos e tenta trazer a essência da ilha para a Covilhã, através de dias simbólicos como o Dia da Madeira e o Dia dos Açores ou por “algo mais recreativo: a poncha da Madeira [bebida típica da ilha], vamos tentar trazer à nossa cidade neve”, aproximando os que tem saudades de casa à nova realidade.
“É importante manter tradições das ilhas na Covilhã.”






































