Na semana da Receção ao Caloiro, a Covilhã voltou a testemunhar a efervescência da comunidade académica. No dia 7 de outubro, as latas arrastaram-se pelas calçadas, o traje desceu às ruas, os cânticos subiram a encosta e centenas de caloiros, entre o cansaço e o entusiasmo, começaram a perceber que esta cidade também passou a ser sua. Três semanas depois, as latas já foram recolhidas e quem desfilou como caloiro já se senta nos anfiteatros como colega. É agora, longe de toda essa agitação, que vale a pena pensar.
Quem viveu a Latada por dentro sabe que ela não termina quando a semana acaba. Sei-o eu, que fui caloiro, que participei na praxe, que estive do outro lado a acolher quem chegava e que, mais tarde, como presidente da Associação Académica da Universidade da Beira Interior, vi de perto o que estes dias significam para quem chega à UBI sem conhecer ninguém. É por isso que este artigo não é um ataque a quem hoje dá vida à integração, mas um convite a debater uma questão de fundo: estará o modelo atual de integração preparado para os desafios futuros?
Comecemos pelo que funciona. A Latada é o ponto alto de uma semana inteira pensada para que os novos estudantes se sintam acolhidos. Grande parte desse acolhimento é obra dos próprios estudantes, que, ano após ano, dão continuidade a uma tradição passada de geração em geração com uma dedicação que é digna de reconhecimento. Esse esforço merece estruturas à sua altura.
E é aqui que surge a necessidade de refletir. As comissões de praxe, que organizam boa parte da integração, não têm enquadramento jurídico nem responsabilidade formal. Funcionam pela legitimidade da tradição, pela autoridade que os estudantes lhes reconhecem e pela boa vontade de quem nelas participa. Durante muito tempo, isso bastou. Hoje, este modelo enfrenta dois problemas.
O primeiro é a adesão. A praxe é facultativa: participa quem quer. Mas nem todos os que ficam de fora o fazem por desinteresse pela vida académica. Há também quem se afaste por não se rever em algumas das dinâmicas que a praxe envolve. E quem fica de fora deixa de dar corpo a momentos que deviam pertencer a todos, como o batismo ou a Latada. Convém perguntar, com serenidade: como conseguirá a praxe resistir ao decréscimo dos seus participantes?
O segundo é a responsabilização. Quando ocorre um imprevisto ou um acontecimento de maior gravidade, a quem cabe responder? Na prática, a responsabilidade tende a recair sobre indivíduos, muitas vezes jovens, sem nenhuma estrutura que os proteja. A informalidade, que parece uma liberdade, pode revelar-se um fardo para quem organiza e uma fragilidade para quem participa.
A proteção não é inimiga da tradição. Uma tradição que sabe responder pelos seus atos é mais forte, mais credível e mais difícil de atacar por quem a quer ver desaparecer. Protege o caloiro que chega e protege igualmente o colega mais velho que o recebe. A responsabilização não retira nada à mística das dinâmicas de integração. Retira-lhe apenas a vulnerabilidade.
Deixo, por isso, um possível caminho, e não uma proposta fechada. As instituições de ensino superior têm já estruturas de representação estudantil sólidas e legítimas: as Associações Académicas e, sob a sua alçada, os Núcleos de Estudantes. Os Núcleos são eleitos, prestam contas aos seus pares e conhecem de perto os colegas dos seus cursos. Seja por si próprios, seja através da Associação que integram, respondem perante um quadro legal e estatutário definido. As Associações, por sua vez, dão-lhes enquadramento e são as interlocutoras reconhecidas dos estudantes junto das instituições e das cidades. Um caminho natural seria, então, confiar-lhes a integração.
Sublinho: a integração, não a praxe. Não se trataria de transferir para as Associações as atividades das comissões de praxe, até porque, pela sua natureza, elas não as poderiam assumir tal como hoje existem. Tratar-se-ia de substituir a praxe por dinâmicas de integração legítimas à luz do enquadramento legal aplicável. Em vez de serem praxados pelas comissões do seu curso, os caloiros seriam acompanhados pelos colegas do seu curso, organizados nos Núcleos, de igual para igual. Desapareceria a relação hierárquica que está na base da praxe, e com ela as dinâmicas em que muitos não se reveem. Ficaria tudo o que dá sentido a estes dias: conhecer a cidade, os serviços da universidade e os transportes, a conhecer o desporto universitário, as associações culturais e tudo o que a cidade tem para oferecer fora das aulas. E continuariam a viver as festas, as noites nos bares, as coreografias do batismo e a construção dos carros para a Latada.
Seria, por isso, um modelo mais inclusivo, e é essa inclusão que responde ao problema da adesão. Se aquilo que hoje afasta parte dos caloiros deixar de existir, mais estudantes terão motivos para participar. Seria também um modelo com continuidade. Os mandatos associativos duram um ano, mas por trás de cada direção há uma estrutura com história, memória e capacidade para manter as iniciativas de ano para ano.
A experiência dos estudantes mais velhos continuaria a ser preciosa. Qualquer colega que já viveu estes dias sabe o que significa chegar a uma cidade nova e está em condições de ajudar quem chega a vivê-los também. Mudariam duas coisas. A primeira é o enquadramento, que passaria a permitir responder, prestar contas e proteger. A segunda é a relação entre quem acolhe e quem chega, que deixaria de ser hierárquica para passar a ser entre colegas.
Não ignoro as objeções. Há quem veja na praxe uma identidade a que não quer renunciar, e essa posição merece respeito. Há também quem pergunte porque haveriam as Associações de assumir esta responsabilidade. A resposta está no próprio modelo. Ao retirar a hierarquia e as dinâmicas de maior risco, reduz-se também a probabilidade de situações graves. Além disso, as Associações já organizam todos os anos grandes eventos, a começar pela própria Receção ao Caloiro, dentro do enquadramento legal que isso exige. A responsabilidade não seria nova. Passaria apenas a ser assumida por quem está preparado para ela, em vez de recair sobre indivíduos sem proteção.
Sei que estas questões tocam em matérias sensíveis e que não se resolvem de um ano para o outro. Uma mudança desta natureza exige tempo, maturação e continuidade de direção para direção. Não é uma decisão para amanhã. É uma conversa que, precisamente por ser de longo prazo, vale a pena começar quanto antes, para que cada geração de dirigentes a possa receber e fazer avançar, se assim o entender.
Deixo as perguntas a quem quiser pegar nelas.
Que modelo de integração queremos para daqui a dez anos? Quem deve responder pelas atividades que acolhem os novos estudantes? Como preservamos o que a tradição tem de melhor sem aquilo que hoje afasta parte dos colegas? E que papel queremos para quem hoje dá vida à integração?
Às instituições caberá apoiar e acompanhar. A decisão, essa, deve partir dos estudantes. Foram eles que criaram e deram força a estas dinâmicas, e é a eles que cabe decidir o seu futuro.
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