Houve tempo para debater a Comunicação na UBI

Faculdade de Artes e Letras acolheu o 14º Congresso da SOPCOM, o maior evento nacional em Ciências da Comunicação.

O XIV Congresso da SOPCOM foi “um excelente evento, com um tema muito sintonizado com as questões do nosso tempo”. Para Bruno Araújo, professor, investigador e pró-reitor em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (Brasil), o mote “Comunicação e Tempo” permitiu “pensar as várias dimensões da contemporaneidade e os efeitos da aceleração do tempo e dos processos comunicacionais nos mais diversos domínios da vida, social e político”. Bruno Araújo foi um dos cerca de 260 participantes que, entre os dias 9 e 11 de fevereiro, marcaram presença na Universidade da Beira Interior (UBI).

Organizado pelo LabCom, em parceria com a Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (SOPCOM), o congresso regressou à UBI mais de duas décadas depois da última edição realizada na instituição. Ao longo de três dias foram apresentadas cerca de 260 comunicações, distribuídas por quatro painéis plenários e 54 sessões temáticas, num total de mais de 300 trabalhos submetidos por investigadores de Portugal, Espanha, Brasil e China.

Para Bruno Araújo, a escolha do tema revelou-se particularmente pertinente num contexto marcado pela ascensão de populismos e novos fascismos, pelas transformações nos modos de produção e circulação da informação e da desinformação e pelos impactos desses fenómenos na democracia e no jornalismo. “Acho que a SOPCOM é um espaço de excelência, de congregação do conhecimento que vem sendo produzido nas Ciências da Comunicação em Portugal, com uma grande conexão com o que se passa também em termos de produção de conhecimento noutros países lusófonos”, afirmou, sublinhando que, enquanto investigador brasileiro, encontra no congresso “um espaço de interlocução muito produtivo para compreender os fenómenos do mundo contemporâneo”. Na sua perspetiva, a associação “mantém a sua excelência” e apresentou “uma massa crítica bastante sólida para compreender esses processos”.

“O jornalismo precisa de tempo”

O tempo, enquanto recurso escasso, foi uma das ideias centrais que atravessaram os debates. A presidente da comissão organizadora, Gisela Gonçalves, docente da Faculdade de Artes e Letras da UBI e investigadora do LabCom, defende que, num ecossistema mediático dominado pelo imediatismo, o jornalismo enfrenta dificuldades acrescidas para cumprir a sua função. “O aceleramento, as novas tecnologias, a rapidez informativa onde estamos integrados dificulta o tempo para refletir, o tempo para investigar, o tempo para verificar se as informações são corretas. E isto dos dois lados: do lado de quem produz, porque o jornalista não tem tempo de verificar todas as fontes, por exemplo, e o tempo que falta ao próprio cidadão para perceber se a informação é correta ou é falsa”, salientou.

A responsável acrescenta que a precariedade nas redações, marcada pela redução de recursos humanos e financeiros, tem impacto direto na qualidade da informação. “Estamos a viver tempos muito complexos ao nível do jornalismo, com menos recursos técnicos e humanos. Isso, obviamente, vai ter repercussões na qualidade do jornalismo”, afirmou, defendendo a necessidade de pressionar o poder político para criar mecanismos de apoio ao setor, incluindo financiamento público. Gisela Gonçalves lamenta que o anterior plano governamental de apoio aos media não tenha tido aplicação prática e sublinha a importância de sustentar especialmente o jornalismo regional.

Também o presidente da comissão científica do congresso, José Ricardo Carvalheiro, alertou para o facto de o jornalismo estar cada vez mais refém de uma agenda diária acelerada que impede o aprofundamento dos temas. O docente considera que a fragilização de instrumentos coletivos, como os conselhos de redação, e a crescente atomização da profissão dificultam a construção de uma identidade e ética comuns. “Quando ficamos atomizados e separados, cada um a tentar corresponder diariamente às suas obrigações, não só não há tempo para refletir, como não há tempo para criar algo em comum que possa ser transformador”, observou.

Debate internacional e envolvimento académico

O programa incluiu conferências internacionais, sessões plenárias, mesas-redondas com associações parceiras e representantes de revistas científicas, lançamento de livros e a assembleia geral da Sopcom. A conferência inaugural esteve a cargo de Anne Kaun, professora da Södertörn University, que refletiu sobre as novas temporalidades introduzidas pela Inteligência Artificial e a transição do físico para o digital. Ainda no primeiro dia, Henrik Bødker, da Universidade de Aarhus, abordou a relação entre jornalismo, tempo e digital, bem como os desafios da cobertura das alterações climáticas.

No segundo dia, João Figueira, da Universidade de Coimbra, e Maria Luísa Humanes, da Universidad Rey Juan Carlos, debateram o tempo na investigação e na informação, enquanto uma mesa-redonda com representantes de associações científicas ibero-americanas discutiu a tensão entre produtivismo académico e abordagem crítica do conhecimento.

O congresso mobilizou cerca de 60 voluntários, entre estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, organizados em sete equipas responsáveis pelo acolhimento e acompanhamento dos participantes e pela cobertura das atividades.

Na sessão de encerramento foi anunciado que o XV Congresso da Sopcom terá lugar na Universidade Lusófona, no Porto, nos dias 18, 19 e 20 de janeiro de 2028, sob o tema “Comunicação e psicopoder na era digital: algoritmos, cidadania e impactos sociais”. A associação será presidida nos próximos quatro anos por Carlos Camponez, docente da Universidade de Coimbra, eleito em assembleia geral realizada durante o encontro.

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