A Universidade da Beira Interior assinalou, na quarta-feira, 30 de abril, o seu 40.º aniversário com uma sessão solene em que estiveram em destaque o percurso de afirmação da instituição, os principais desafios estruturais e a necessidade de reforço do financiamento público.
Na intervenção que abriu a cerimónia, a reitora, Ana Paula Duarte, traçou um retrato da evolução da academia ao longo de quatro décadas, recordando o crescimento da comunidade académica e a consolidação da sua atividade formativa e científica. “A oferta formativa diversificada e a investigação produzida afirmam a universidade como o verdadeiro motor desta região”, afirmou.
Apesar de destacar o impacto da instituição no território, Ana Paula Duarte defendeu uma relação de maior articulação entre a academia e os restantes agentes regionais. “Não nos coloquemos nesse papel de ‘o que seria da região sem a UBI’; façamos antes um exercício diferente: o que pode ser a região se trabalharmos em conjunto?”, questionou, apontando como metas o reforço da cooperação com o tecido empresarial e social, a internacionalização e uma maior mobilização política em torno da universidade.
Entre as necessidades identificadas, a responsável colocou em primeiro plano o alojamento estudantil. “O número de estudantes da UBI e a sua origem geográfica tornam evidente a necessidade de reforçar a oferta de alojamento a custos controlados”, sublinhou, defendendo a construção de novas residências universitárias. A reitora apontou ainda como prioritário o investimento em infraestruturas de ensino e investigação, nomeadamente através da criação de novos espaços, entre os quais um edifício dedicado às artes, e o reforço da UBIMedical, com “a criação de um novo edifício que responda à dimensão atual do projeto e à sua relevância estratégica”.
O subfinanciamento da instituição foi outro dos temas centrais da intervenção. “Vivemos com o subfinanciamento crónico, com consequências significativas para o funcionamento da instituição”, afirmou Ana Paula Duarte, numa referência às limitações orçamentais que, segundo a reitora, continuam a condicionar a modernização da universidade.
“O subfinanciamento da UBI é muito claro”
A cerimónia contou com a presença do ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, que reconheceu de forma direta a existência de desigualdades no modelo de financiamento da UBI. “O subfinanciamento da UBI é muito claro, é só olhar para os dados”, declarou, atribuindo essa realidade a um processo acumulado ao longo dos anos em que “as instituições que cresceram, cresceram com os seus próprios recursos”, devido à ausência de uma aplicação consistente da lei de financiamento do ensino superior.

Fernando Alexandre aproveitou a ocasião para referir que está em curso um mecanismo de convergência destinado a atenuar as diferenças entre instituições, mas admitiu a lentidão do processo. “A convergência está a acontecer, mas tem sido muito lenta”, disse. O governante acrescentou ainda que a própria fórmula atualmente utilizada apresenta insuficiências: “Andámos uns meses a tentar entender a fórmula e depois percebemos que ela não estava muito bem.”
Apesar de defender que o Governo está empenhado em corrigir assimetrias até 2027, o ministro considerou que os efeitos do problema não poderão ser anulados de imediato. “Défices que se acumularam durante muitos anos não se corrigem de um ano para o outro”, frisou, defendendo simultaneamente a importância de contratos-programa e de projetos estratégicos desenhados pelas próprias instituições.
Presidente da Associação Académica preocupado com alojamento estudantil

Também o presidente da Associação Académica da Universidade da Beira Interior, João Nunes, centrou a sua intervenção nas condições de apoio aos estudantes, em particular no alojamento. O dirigente estudantil reconheceu os investimentos recentes, mas considerou-os insuficientes perante a evolução da academia. Segundo referiu, a UBI mantém há cerca de duas décadas “praticamente o mesmo número de camas, cerca de 800”, apesar de o número de estudantes ter duplicado.
João Nunes deixou ainda interrogações sobre a capacidade futura de resposta nesta matéria após o fim dos apoios extraordinários atualmente disponíveis e defendeu melhorias nas cantinas universitárias, considerando que estas constituem “um serviço essencial” para a comunidade académica.
Na sessão interveio também o presidente do Conselho Geral da UBI, João Casteleiro Alves, que abordou a dimensão formativa do ensino superior para além da componente técnica. Alertando para “uma erosão silenciosa de valores” na sociedade contemporânea, o responsável sustentou que “mais do que preparar profissionais, temos a responsabilidade de formar pessoas capazes de pensar, de decidir e de agir em consciência”.
Mário Raposo homenageado
A cerimónia dos 40 anos da UBI incluiu ainda a outorga do título de Professor Emérito a Mário Raposo. A distinção foi aprovada por unanimidade pela Comissão Científica do Senado, na sequência de uma proposta apresentada pelo Conselho Científico da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Na fundamentação da decisão estiveram o percurso académico e científico de Mário Raposo, a projeção alcançada enquanto docente e investigador em contexto nacional e internacional, bem como o contributo dado para o desenvolvimento da produção científica.
Mário Lino Barata Raposo, professor catedrático aposentado da área da Gestão, centrou a sua atividade de docência e investigação em domínios como o marketing, o empreendedorismo e a estratégia. Ao longo da carreira esteve ligado ao Departamento de Gestão e Economia da FCSH e integrou o NECE — Núcleo de Estudos em Ciências Empresariais, estrutura de investigação de cuja criação fez parte.
Paralelamente ao percurso académico, assumiu diversos cargos de direção na universidade. Foi reitor da UBI entre 2021 e 2025, depois de ter exercido funções de vice-reitor em dois períodos — entre 1998 e 2009 e entre 2013 e 2021 — e de pró-reitor entre 1994 e 1998.
UBI inaugura sistema fotovoltaico

A celebração dos 40 anos da UBI incluiu igualmente a entrada em operação de uma nova central de produção de energia solar fotovoltaica na Faculdade de Ciências da Saúde, inaugurada também na quarta-feira.
O sistema é composto por 1.323 painéis solares e apresenta uma potência instalada superior a 600 quilowatts, estimando-se uma produção anual próxima dos 950 mil quilowatts-hora. De acordo com os dados divulgados, a infraestrutura deverá permitir uma diminuição de cerca de 268 toneladas de dióxido de carbono por ano. Implantada na zona do parque de estacionamento, ocupa uma área de aproximadamente 2.700 metros quadrados e integra ainda um conjunto de baterias com capacidade de 460 quilowatts-hora, destinado ao armazenamento de energia e à gestão mais eficiente dos consumos.
O investimento ultrapassa os 2,3 milhões de euros, com financiamento assegurado através do Plano de Recuperação e Resiliência, e insere-se na estratégia de redução da fatura energética da faculdade, aproximando o edifício de um modelo de consumo de energia quase nulo.
Está igualmente prevista a ligação desta estrutura a uma futura Comunidade de Energia Renovável, num passo que se enquadra nas medidas de sustentabilidade ambiental e de descarbonização que a instituição pretende desenvolver no campus.

























