
A biblioteca Central da Beira Interior acolhe, entre os dias 7 e 30 de setembro, a exposição de fotografia “Mãe Rita Preta: a doutora de Jurema Sagrada”. Com entrada livre, a mostra apresenta o percurso e a dimensão simbólica de uma figura associada à Jurema Sagrada, prática religiosa de matriz africana, e procura colocar
em diálogo diferentes formas de conhecimento.
A exposição é apresentada como uma homenagem, em memória de Mãe Rita Preta de Oxalá, que morreu em abril deste ano, aos 100 anos. Segundo o responsável pela mostra, Hélder Nóbrega, a exposição tinha sido proposta e aceite pela UBI meses antes da sua morte, tendo a homenageada chegado a ter conhecimento de que o projeto seria realizado.
Associada à tradição da Jurema Sagrada, Mãe Rita Preta é descrita na entrevista como uma juremeira, designação atribuída a pessoas que trabalham com conhecimentos ancestrais relacionados com ervas e plantas medicinais. Esses conhecimentos são utilizados em diferentes contextos, incluindo práticas medicinais, alimentares e religiosas.
A sua trajetória esteve também ligada à educação. De acordo com Hélder Nóbrega, Mãe Rita Preta desenvolveu um trabalho de alfabetização junto das populações da Paraíba, região onde viveu, procurando ampliar o acesso à aprendizagem e à leitura. O seu reconhecimento ultrapassou o contexto regional, estando associado à religião de matriz africana e à Jurema Sagrada no estado brasileiro da Paraíba.
Uma exposição sobre conhecimento e pluralidade
Para além da homenagem, a exposição pretende questionar a ideia de que o conhecimento se produz exclusivamente no espaço académico. Na entrevista, o responsável pela mostra destaca a importância de apresentar outras formas de conhecimento e de reconhecer saberes transmitidos através da oralidade e da
experiência.

A atribuição do título de doutora honoris causa pela Universidade Federal da Paraíba, referida na entrevista, surge como reconhecimento de um conhecimento adquirido através da experiência e transmitido entre gerações. “Há saberes que são
passados pela oralidade”, afirma Hélder Nóbrega, defendendo que a experiência e a prática também podem constituir formas de conhecimento
A dimensão da exposição estende-se ainda às questões de género e raça. O curador considera que a presença de uma mulher negra ligada à Jurema Sagrada permite abordar a diversidade religiosa e cultural e, simultaneamente, refletir sobre preconceitos historicamente associados às comunidades e aos saberes de matriz africana. A proposta, explica, “não pretende estabelecer um confronto entre religiões, mas evidenciar a existência de diferentes visões do mundo. A pluralidade é apresentada
como elemento fundamental para o reconhecimento de diferentes experiências e formas de conhecimento”.
Fotografia e cinema na exposição
A componente audiovisual da exposição é assegurada por um filme da cineasta Andryelle Araújo. O documentário acompanha o trabalho dos fotógrafos e centra-se no processo de criação das imagens que integram a mostra. “O vídeo é feito pela cineasta Andryelle Araújo”, explica Nóbrega. O filme acompanha os fotógrafos e procura mostrar “como é que eles fazem as fotos preto e branco” da personagem principal. O objetivo, esclarece, é revelar os bastidores da criação da exposição e não reconstituir a vida de Mãe Rita Preta.

Hélder Nóbrega encontra-se atualmente na UBI no âmbito de um estágio doutoral.
Artista, investigador e cineasta, desenvolve investigação na área do cinema, tendo
como principal referência teórica a investigadora da UBI Manuela Penafria, sua
coorientadora no Brasil.


















