Fora de jogo: o que o jornalismo desportivo deixa de contar

O papel do jornalismo desportivo: até que ponto os media reforçam a centralidade do futebol e ignoram histórias relevantes noutras modalidades.

Numa noite gelada na Covilhã, a voz de Miguel Malaca enche as frequências da Rádio Cova da Beira. Miguel trabalha aqui há mais de trinta anos, a relatar futebol e futsal para quem o segue pela rádio. Nestas noites, há adeptos a acompanhar o relato enquanto cozinham, outros a viajar na A23, alguns nas bancadas do Estádio Municipal José dos Santos Pinto com o telemóvel encostado ao ouvido.

“Há pessoas que estão a ver o jogo no estádio e estão a ouvir o relato na rádio”, conta Miguel, com a segurança de quem conhece o seu trabalho. “Isto é sinal de que reconhecem que temos qualidade.”

A poucos quilómetros dali, na Serra da Estrela, o gelo brilha sob as montanhas pintadas branco no inverno. A Federação de Desportos de Inverno de Portugal usa aquele espaço para treinar atletas que representam Portugal em competições internacionais de diversos desportos, como hóquei, patinagem ou ski. A serra é o único lugar em Portugal onde é possível treinar regularmente estes desportos. Mas nas capas dos jornais desportivos nacionais, estes atletas são praticamente invisíveis. O espaço mediático continua dominado por Benfica, Porto, Sporting e mercado de transferências, ou seja, futebol, o desporto rei.

 

Figura 1 – Estádio Municipal José dos Santos Pinto

Entre uma redação online em Lisboa, um estúdio de rádio na Covilhã e uma pista de gelo na serra, quatro testemunhos ajudam a perceber como o futebol domina os jornais desportivos e as histórias que ficam por contar noutras modalidades.

Portugal, país de bola e de capas

Ler um jornal desportivo é, à partida, esperar ver uma capa onde o tema é futebol. É expectável que, a uma segunda-feira, o tema seja Porto, Benfica, Sporting ou até a Seleção Nacional, quando a problemática em questão nem é tão relevante assim. Basta ir a um quiosque, ou até online, e está à vista de todos. Os três principais jornais desportivos (Record, A Bola e O Jogo), três capas semelhantes. Futebol, sempre futebol. Um jogador, treinador ou dirigente desportivo e um verbo forte, como “arrasou”, “rebentou” ou um trocadilho subtil, um subtítulo sobre mercado ou arbitragem duvidosa.

 

O artigo da “Revista Comunicando” mostra que, numa amostra de 20 dias “especiais” em 2021, as outras modalidades representaram entre 14% e 22% dos destaques da capa, consoante o jornal.

Jornal Futebol (%) Outras Modalidades (%)
A Bola 78 22
O Jogo 80 20
Record 86 14

 

Isto não é estranho para ninguém. Mas vê-lo com os próprios olhos, analisá-lo, dá que pensar. Passar página atrás de página e ver que a maior parte diz respeito aos mesmos três clubes faz pensar o que se perde noutros temas.

 

 

 

Figura 2 – exemplos de 3 capas de jornais desportivos

Eduardo Henriques, 21 anos, estudante de Jornalismo em Lisboa, olha para isto com cuidado. “Em Portugal, o futebol é o desporto que move as multidões, que enche estádios, que faz as pessoas percorrer quilómetros”, reconhece. “Isso não se vê com o andebol, não se vê com o basquetebol.”

Figura 3 – Eduardo Henriques

 

Mas Eduardo percebe que a história não termina na procura do público. “Os media têm o papel de dizer às pessoas o que pensar e sobre o que pensar”, explica. “É mais rentável uma capa sobre o Rui Costa do que sobre o presidente de um clube pequeno. Os jornais precisam de sobreviver, e por isso dão as notícias que as pessoas querem ver.”

Miguel Malaca, veterano no jornalismo desportivo, simplifica a questão: “Pode ser as três coisas: audiências, publicidade e linha editorial. O futebol é a grande fatia. As audiências estão lá, a publicidade está lá.”

 

Figura 4 – Miguel Malaca

O ritmo da redação

Francisco Matos tem 22 anos e estuda no Mestrado de Jornalismo da Universidade da Beira Interior (UBI). No início do ano letivo 2024/2025, começou a estagiar no Zerozero, um site de desporto com grande procura em Portugal. O que encontrou foi muito diferente do que esperava.

“Vindo da faculdade, onde tinha uma semana inteira para fazer uma reportagem de investigação, entrei numa redação onde tinha de fazer oito notícias por dia”, relata Francisco. “Se há um jogador que se lesiona, a notícia tem de estar pronta em 30 minutos.”

Figura 5 – Francisco Matos

Nas primeiras duas semanas, Francisco assume que pensou em desistir. O contraste era grande: na universidade, onde havia tempo para ir aos locais, entrevistar, recolher dados com cuidado, para uma redação onde cada notícia podia durar menos de meia hora.

“Na faculdade tínhamos uma semana para preparar uma peça”, lembra. “Ias aos locais, entrevistas pessoas, recolhias dados, transcrevias, escrevias. No Zerozero, para as peças de atualidade, temos 20 a 30 minutos.”

As reportagens têm mais tempo, mas não muito: dois ou três dias desde a proposta até à publicação final. A estrutura é rígida. Segundo Francisco, nas segundas-feiras, os jornalistas sugerem temas. À tarde, os editores reúnem-se para avaliar. No final do dia, comunicam o que segue em frente. Na terça-feira fazem-se contactos, na quinta-feira as entrevistas (quase sempre), transcrevem-se os áudios, escreve-se. O resultado tem de estar pronto na quinta ou sexta-feira. Além disso, há fotos e estética a tratar.

“Saímos da faculdade sem ritmo”, conclui Francisco, “e sem treino em lidar com a pressão do momento e da atualidade.”

O que Francisco descreve não é apenas uma questão de adaptação pessoal. É um problema estrutural: há uma lacuna evidente entre o que se ensina na universidade e o que se exige numa redação profissional. A faculdade prepara para rigor, para profundidade, para análise. Numa redação digital exige-se velocidade, reatividade, métricas.

A distribuição de tarefas também revelou algo importante. “Durante a semana, eu praticamente só fiz notícias de futebol. Só aos fins de semana fazia também sobre outras modalidades”, diz Francisco. Não era falta de interesse da redação; era a estrutura organizacional. As métricas de audiência explicam tudo: a maior parte dos cliques vem do futebol.

Este detalhe é crucial. Numa redação, as atribuições de tarefas não surgem por acaso. Surgem porque há dados: sobre o que as pessoas clicam, o que veem, o tempo que gastam. O futebol gera cliques multiplicados comparados com qualquer outra coisa.

Quando Francisco sugeriu uma reportagem sobre os roupeiros do Sporting da Covilhã uma boa história, humana, ligada à vida desportiva do clube, a resposta foi não. “É uma boa história para um meio local”, disseram-lhe. “Mas para uma grande redação os critérios são outros. A localização importa muito, e a maior parte das audiências seria da Beira Interior, não chegaria a muita gente fora da região.”

Francisco ouve isto e entende a lógica. Uma história forte não chega se tiver audiência pequena. Neste modelo, as histórias regionais, as de modalidades menos populares, têm alcance pequeno.

“Concluo que de peças de imprensa saímos da faculdade com falta de ritmo e sem lidar com a pressão do momento”, sintetiza Francisco. Mas há mais que isto. Há algo sobre o que vale a pena ser noticiado e o que não vale.

O pensamento crítico na universidade

Eduardo Henriques estuda Jornalismo em Lisboa porque sempre gostou muito de futebol. Quando era pequeno, jogou futebol, mas percebeu cedo que o sonho não se iria concretizar. Seguir jornalismo desportivo surgiu como forma de se manter ligado ao que o apaixonava.

Mas durante o curso, confrontou-se com uma realidade: o futebol está em quase tudo o que aprendeu. É referência em aulas, em debates sobre o futuro da profissão, nas conversas com colegas sobre o mercado de trabalho. Não como tema de estudo, mas como algo inquestionável.

Eduardo é direto e assume que não considera que exista espaço académico para questionar esta centralidade e importância do futebol. “Parece-me que é uma questão da forma como nós pensamos em Portugal. E daquilo que as pessoas querem ver e daquilo que vende.”

Pecebe-se uma mistura de compreensão pragmática e uma certa resignação. Eduardo não acredita que seja obrigatório trabalhar só com futebol para ter sucesso. Aponta exemplos: José Morgado especializou-se em ténis; há jornalistas na Sport TV focados em basquetebol e NBA. Mas sabe que estes são exceções.

“Tem de se dar visibilidade a outras modalidades. Porque há histórias interessantes, há conquistas interessantes, há atletas que se esforçam”, diz Eduardo. Conhece os argumentos éticos. Sabe que seria melhor se houvesse espaço para outras coisas. Mas acrescenta: “É inevitável que se acabe por falar mais de futebol, porque o jornalismo tem de sobreviver.”

As observações de Eduardo vêm da sua experiência num curso específico, num contexto particular. Não é um retrato estatístico do ensino de jornalismo em Portugal. Mas mostram algo importante: como um estudante que gosta de desporto, que quer ser jornalista responsável e ético, sente que a academia não lhe oferece espaço para questionar as estruturas que depois encontrará na profissão.

É como se a universidade, tradicionalmente um lugar de pensamento crítico, neste aspeto simplesmente aceitasse as regras do mercado.

Na rádio e na serra

Miguel Malaca é uma voz diferente. Trabalha no Record há mais de 30 anos, e trabalha na rádio local desde 1983. A sua perspetiva é única: viu evoluir o jornalismo desportivo português desde os anos 80 até hoje. Trabalha num contexto profundamente regional, onde a dinâmica é outra.

“Sempre foi assim”, responde. “O futebol é a mola real do desporto em Portugal. É uma questão cultural. São os três grandes.”

Miguel não apresenta a centralidade do futebol como algo inevitável. Para ele, a explicação passa por vários fatores: audiências, publicidade e também a linha editorial. Reconhece que o futebol continua a receber a maior parte das verbas, embora outras modalidades também precisem de apoio.

Há algo diferente no trabalho de Miguel. Na Rádio Cova da Beira, o público não é só de futebol. É toda a vida desportiva da região: o Sporting da Covilhã em futebol, sim, mas também a Associação Desportiva do Fundão em futsal, o atletismo local, o basquetebol. A rádio local obriga a pensar diferente.

“Eu tento divulgar ao máximo outras modalidades”, diz Miguel. “Mas também não tem sido fácil.”

Os seus relatos dos jogos continuam importantes.”Independentemente da televisão, que transmite quase tudo agora, acho que a rádio é rádio”, explica. E há evidência pessoal para isto: “Tenho pessoas que estão a ver o jogo e estão a ouvir o relato na rádio. Isto é sinal de que reconhecem que o nosso trabalho tem qualidade.”

Este detalhe revela algo: a rádio local oferece algo que a televisão e o site não oferecem: presença constante, voz familiar, uma relação com o público. Não é só transmitir; é acompanhar. E isto faz diferença.

O seu conselho para os jovens jornalistas é simples: “Não se sintam só ligados ao futebol. Olhem para as modalidades, porque temos grandes exemplos na nossa região, a nível do país. Nós existimos, a rádio existe, é para divulgar, vale a pena. Se praticam outra modalidade, há criação de novos clubes, porque é que não divulgamos?”

Milene Proença fez a sua tese de mestrado sobre desportos de inverno. Escolheu o tema porque percebeu que estes desportos eram “muito pouco noticiados em Portugal”. Também estudante no Mestrado de Jornalismo da UBI, como Francisco, estagiou no Zerozero e agora trabalha na Rádio Clube da Covilhã.

Figura 6 – Milene Proença

Na sua análise dos três principais jornais desportivos nacionais encontrou: “Muito poucas notícias, e das que existem, a maior parte diz respeito às maiores competições, como os Jogos Olímpicos.”

Isto levanta uma pergunta: se desportos de inverno só aparecem quando há Jogos Olímpicos, então o jornalismo não está a informar a população, está a informar sobre espetáculos raros.

O contexto estrutural explica isto. Portugal tem poucos atletas federados em desportos de inverno, e a maioria treina no estrangeiro porque em Portugal só é possível treinar estes desportos na Serra da Estrela. Não há audiência porque não há presença visível. E se não há audiência, não há notícias. Se não há notícias, a audiência não cresce.

Mas há um paradoxo notável: a Covilhã é sede da Federação de Desportos de Inverno de Portugal. A Serra da Estrela é o único local do país com infraestruturas para desportos de gelo. Há projetos internacionais de investimento, como a Serra da Estrela Ice Arena, que ganhou prémios internacionais de sustentabilidade. Há gente competente, infraestruturas de qualidade, projetos com visibilidade internacional.

E ainda assim, estes desportos são quase invisíveis nos jornais desportivos nacionais.

Figura 7 – Serra da Estrela Ice Arena; Fonte: Rádio Clube da Covilhã

Durante o estágio no Zerozero, Milene viu-o ao vivo. “O Zerozero não faz notícias sobre estas modalidades”, observou. Um detalhe curioso: depois de Milene sair, criaram uma aba no site para hóquei no gelo, mas ainda não está terminada. “É um passo, mais um, no jornalismo desportivo a nível nacional sobre desportos de inverno.”

Agora, na Rádio Clube da Covilhã, as coisas são diferentes. “Todas as modalidades têm o mesmo tratamento: atletismo, futebol, futsal, basquetebol”, diz Milene. “Estamos próximos das pessoas, conseguimos ter contacto com quem nos ouve e vê.”

Esta proximidade muda tudo. “Numa redação de proximidade conseguimos contar histórias e fazer notícias que para um órgão nacional não são notícia”, explica. A diferença não é de qualidade jornalística, é de escala. Uma história sobre um atleta local de desportos de inverno importa para a região. Importa muito. Mas para o resto do país, não mete cliques.

Quando lhe pergunto como modalidades fora do futebol podem deixar de ser apenas notícia em momentos excecionais, Milene responde: “Acho que falta sobretudo o interesse das pessoas.”

Milene não diz que as pessoas não têm interesse. Diz que falta interesse. Como se fosse algo que poderia ser criado, incentivado, cultivado. Depois acrescenta: “E também as redações em Portugal são muito reduzidas, às vezes fica difícil chegar a todo o público e noticiar tudo.”

Aponta para a importância da persistência: “Tudo é um processo. Há muito trabalho a fazer nos desportos de inverno, e cada passo é importante.”

O que fica invisível

O jornalismo desportivo português reforça, todos os dias, a centralidade do futebol. Isto não é apenas reflexo das preferências do público. É reforço ativo: nas capas dos jornais, na distribuição de páginas, nas atribuições de tarefas.

O sistema funciona muito bem, economicamente. O futebol atrai leitores, anunciantes, receita. As redações conseguem sobreviver focando recursos no que vende. No curto prazo, é sustentável.

Mas há custos que não aparecem nas métricas de audiência.

Atletas de outras modalidades que se esforçam por representar Portugal e recebem duas linhas de cobertura quando ganham medalhas. Histórias locais ricas que nunca chegam além da região porque não têm alcance nacional. Comunidades desportivas que existem, que treinam, que competem, mas que são invisíveis nos media que mais influenciam quem se informa. Futuros jornalistas que chegam à profissão já sabendo que certos temas têm pouco valor.

Francisco viu isto com clareza: a estrutura da redação empurrou-o para futebol, não porque alguém tivesse decidido que era assim, mas porque os dados diziam isso.

Eduardo sente isto como uma questão académica: a universidade deveria preparar para questionar as estruturas que depois encontra na profissão, mas não o faz. Ou fá-lo insuficientemente.

Miguel vive isto como uma oportunidade: numa rádio regional, consegue fazer o que não consegue fazer num site nacional. Dá espaço a outras coisas.

Milene enfrenta isto como um desafio: trabalha com desportos que interessam pouco a nível nacional, mas que importam muito localmente. E encontra satisfação nisso.

Nas conversas com Francisco, Eduardo, Miguel e Milene, não há soluções prontas. Não há receita para inverter um sistema que é económico, que funciona. Mas há pistas: formação académica que prepare para a realidade; espaço para questionar; apoio a projetos; valorização da rádio regional como alternativa; persistência em contar histórias que o sistema não prioriza.

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