Cantar para Unir, porque a cantiga ainda é uma arma

Três coros, sem se conhecerem, juntam-se, num encontro de coros que decorreu no GIR (Grupo Instrução e Recreio do Rodrigo) no passado dia 12. Os coros Viés, da Covilhã, Achada, de Lisboa, e da Esquina, de Coimbra, uniram-se em torno de questões relacionadas com lutas sociais, recordando que a cantiga também pode ser uma arma.

“O nome do encontro, Cantar para Unir, foi um bocadinho roubado ao José Mário Branco”, diz Rosa Carreira, co-fundadora da Coolabora, de onde provém o coro covilhanense, “pela mesma ideia de juntar, partilhar, resistir através da canção, num tempo de retração para os ecrãs e do não viver em comunidade”.

Inserido num projeto da Coolabora, sede de intervenção social na Covilhã, intitulado “Cá se fazem, cá se cantam”, trata-se de um projeto com uma dupla vertente, bordado e canção. Maria Gomes, rosto maestrino bem conhecido da terra laneira e anfitriã, co-responsável do projeto na parte coral, conta o que gostaria de ver mudado no mundo, no seu caso, através da musicoterapia, pela reconstrução das letras a serem cantadas, sempre em “coo-laboração” com o grupo de coralistas.

Machismo, perseguição às mulheres, racismo, xenofobia, incêndios, fotovoltaicas, exploração mineira, são vários os temas abordados no projecto.

Pedro Rodrigues conduz o Coro da Achada, situado na Casa da Achada no Centro Mário Dionísio, em Lisboa. Entre outras atividades, a ideia do coro passa por “as pessoas estarem mais próximas das artes se as praticarem”. Com um grupo mais constante, que assegura a continuidade, há na verdade, muitas pessoas que compõem o coro. Do repertório constam canções originais como “Puxa por certas coisas, canções de liberdade, luta, emancipação, protesto, línguas, épocas”, afirma Pedro Rodrigues, que acrescenta: ”Viemos, porque havia estas amizades, porque sabíamos o que é que estava a acontecer aqui, mas também nos interessaram os motes lançados para o encontro, como recuperar a canção como ideia de intervenção na sociedade, como questão de unidade, num tempo em que as pessoas estão muito sozinhas”. Um coro que nasce em 2009, antes mesmo da abertura da Casa da Achada, onde está alojado, acrescenta ainda Rosa Carreira.

No coro da Casa da Esquina, a faixa etária alarga-se aos 6 anos, o que se reflete nos textos. Como muitos outros, nasceram nos tempos de confinamento, “num jardim a ler textos”, afirma um elemento do coro em atuação. Não cantam, mas praticam a leitura em voz, com momentos de grande envolvência do público.

A escolha do espaço GIR justifica-se pelas relações mantidas e pelas próprias características do espaço centenário. Cláudio Gonçalves, presidente da associação, recebe mesmo o testemunho de duas lisboetas contentes com o centenário.

Instrumental, com recurso a adufes, tambor africano, gongos, Atuações corais individuais e em grupo. “Ó filho, não vás à mina! “, que fala da transição verde imposta, numa terra que é casa de quem resiste e nela insiste em viver; “Ceifeira”, que remete para a ditadura chilena contra as mulheres na era Pinochet, e no caso de Portugal para as ceifeiras assalariadas rurais, são algumas das músicas que fazem parte do repertório.

 

 

Importa, contudo, “alguma modéstia, as canções não vão sozinhas mudar o mundo, elas participam da mudança, elas têm que estar ligadas ao que se passa, as canções estão lá à espera de serem cantadas”, partilha Pedro Rodrigues.

“Se calhar temos que fazer uma canção de elogios, mas para já temos feito, protesto, sim. O nosso próximo desafio”, diz Maria Gomes.

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