Experiência com a psicose retratada na primeira pessoa

A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade da Beira Interior (UBI) recebeu uma conversa aberta sobre “Saúde Mental: Viver com Psicose”. O evento contou com o testemunho em primeira pessoa de Raquel Carvalho, formada em Psicologia.

Raquel Carvalho é autora do livro “Psicose e a Arte de Viver”, no qual aborda a sua experiência com a psicose. Na palestra, que decorreu no passado dia 22 de abril, contou a sua experiência pessoal com a doença.

A psicose caracteriza-se por ser um estado mental em que a pessoa perde o contacto com a realidade. A escritora mencionou a sensação, sem fundamento, de ser assediada sexualmente no trabalho e também de estar a ser observada por quem falava na televisão. Nesse momento, optou por ser internada para tratamento, por conselho do marido e do irmão.

Durante o internamento, ficou três dias acordada sem se lembrar de nada, testemunhou Raquel Carvalho. Ao longo do tratamento, sentiu que se estava a fechar em relação ao mundo real e, depois, levou anos para voltar a confiar na psiquiatria. Numa segunda crise, relatou que ouvia vozes. Tentou impor limites, mas não funcionou. Apontava no diário o que a voz dizia e escrevia sobre isso para evitar falar com a voz. A crise causou problemas na vida pessoal e afastou a autora do mundo real. Ao mesmo tempo, começou a perceber que a crise lhe tinha dito o que era preciso ser feito.

Na recuperação, considerou crucial que os profissionais de saúde reconheçam as várias facetas da pessoa que passa pela situação da psicose, não terem medo do paciente e promoverem a sua autonomia. No processo de cura, a escritora passou a praticar exercício físico, como caminhar e correr. As caminhadas ajudaram-na a lidar emocionalmente com o problema e as corridas auxiliaram no combate à ansiedade. Raquel Carvalho utilizou também o ioga e a meditação para se conectar com a espiritualidade, considerando que incentivam a pensar que somos parte de algo maior.

A boa alimentação foi uma bela companhia neste processo. A criação de bons hábitos alimentares é uma das formas de melhorarmos também a nível psicológico, para além do físico, disse a autora.

A experiência de Raquel Carvalho com a doença levou-a a ter como propósito a sensibilização das pessoas para o tema. Desde então, viaja pelo país a apresentar o livro “Psicose e a Arte de Viver”, falando abertamente sobre as questões envolvidas.

Ana Torres e Paula Carvalho, docentes da UBI, coordenaram a conversa no âmbito da Unidade Curricular “Introdução à Psicopatologia II” do 1º Ciclo em Psicologia da UBI. As organizadoras contaram com o apoio do “Projeto Altamente Saudáveis” na realização do evento. A conversa teve a participação dos estudantes, que colocaram perguntas e partilharam pensamentos. A escritora deixa uma mensagem de superação, valorizando a ajuda e o tratamento devido da psicose.

 

 

“O mundo real é tão valioso para mim que já não quero perdê-lo”, foi uma das ideias fortes que Raquel Carvalho deixou na UBI.

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