O áudio como ferramenta no combate à violência de género

A inovação sonora foi apresentada como ferramenta de intervenção social no combate à violência de género, na passada segunda-feira, num encontro dedicado aos media e ao género, na Faculdade de Artes e Letras.

A iniciativa Audiam, uma audioteca de apoio à mulher que reúne conteúdos sonoros para informar e sensibilizar sobre a violência de género, resulta de uma parceria entre a Universidade da Beira Interior (UBI) e a Universidade Federal do Maranhão, no Brasil, e aposta no áudio como forma de acesso mais simples e inclusiva, promovendo recursos de apoio e prevenção no combate à violência contra as mulheres. 

 Durante a sessão foram apresentados os resultados de uma investigação sobre a noticiabilidade da violência de género na Beira Interior entre 2024 e 2025. Segundo a investigadora Haphisa Mugnaini, os dados revelam uma forte discrepância entre os casos reais de violência e aqueles que chegam ao espaço mediático. “Há uma diferença muito grande entre os casos existentes de violência doméstica na região e os casos que são realmente publicados pelos media”, explicou. Sublinhando que um dos principais problemas é que uma grande parte dos casos não chega a ser noticiada pelos media. De acordo com a investigadora, num universo de cerca de mil ocorrências registadas na região durante o período analisado, apenas 21 casos foram noticiados, o que reforça a ideia da invisibilidade mediática.

“Se não vemos, é como se não existisse”, afirmou. 

Para a equipa do projeto, esta ausência de representação tem impacto direto na perceção pública do problema, sobretudo em regiões do interior, onde a cobertura jornalística tende a ser mais reduzida. Nesse sentido, o projeto Audiam aposta na inovação sonora como resposta. A coordenadora da equipa portuguesa, Catarina Sales, explica que o objetivo vai além da investigação académica. “O objetivo é chegar à comunidade, às sobreviventes e à sociedade em geral, contribuindo para informar e reeducar”, referiu. 

Através de podcasts, audiotecas e outros formatos sonoros, o projeto pretende aproximar a informação das pessoas, tornando-a mais acessível. Entre os conteúdos previstos estão programas informativos, recursos de apoio às vítimas e um audiomapa com indicação de serviços e locais de acolhimento na região. Haphisa Mugnaini destaca o potencial do áudio como ferramenta de intervenção, sublinhando que permite chegar ao público de forma mais simples.

“O áudio chega muito mais facilmente às pessoas. Não é preciso parar para prestar atenção: pode-se ouvir no autocarro, a caminhar. Além disso, torna a informação mais clara e acessível, sobretudo para quem tem mais dificuldades em aceder a outros meios”, explicou.  

O encontro contou ainda com um debate entre a professora Carla Cerqueira, da Universidade Lusófona, e a professora Sónia Sá, da UBI. A discussão centrou-se na forma como a violência de género continua a ser alimentada por discursos machistas, tanto nos media como nas redes sociais, e no impacto crescente de influenciadores digitais na normalização do ódio contra as mulheres, entre as gerações mais jovens. As intervenientes alertaram ainda para as limitações das estruturas de apoio às vítimas, apontando a falta de recursos, falhas nas respostas institucionais e fragilidades das políticas públicas nesta área. 

 

Fonte: FEMglocal e Rádio Híbrida

O evento incluiu ainda o visionamento do documentário “Feminismos: a Liberdade de Ser” que acompanha os movimentos feministas em Portugal a partir de diferentes gerações, e a apresentação do podcast “Mulheres à Beira”, um dos produtos do projeto que aborda a violência de género a partir da realidade da Beira Interior, cruzando a investigação académica com produção sonora.  

A iniciativa terminou com a ideia de que combater a violência de género passa também por torná-la visível, sendo crucial reconhecer o problema para o conseguir enfrentar.

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