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Santa Bebiana: A festa de inverno que marca a identidade local

Foto: João Pedro Valentim, dezembro 2022, Paul
Entre Caria e o Paul, 37 quilómetros separam as tradições da Santa Bebiana.

Correm os primeiros dias frios de dezembro quando se faz sentir a azáfama em torno da Santa Bebiana, uma festa pagã que ocorre nas freguesias do Paul e de Caria. Com uma simples pesquisa pela internet, rapidamente se assume que esta festividade é inspirada na Santa Bibiana (ou Viviana) de Roma, celebrada a 2 de dezembro, e padroeira dos que sofrem de epilepsia e de dores fortes como dores de cabeça e enxaquecas. Para além da data comum e da ligeira homofonia que se faz ouvir entre “bibiana” e “bebiana”, pouco mais se encontra que conecte as duas “santidades”.

Não se sabe muito bem porquê, mas a verdade é que o povo a assumiu como a padroeira dos que bebem e apreciam o vinho, com destaque às mulheres, as bebianas. Mas, para percebermos melhor a localização desta celebração nestes locais e não noutros, devemos regressar um pouco atrás no tempo, à época em que se realizava a transumância. Esta prática caraterizava-se pelo movimento dos rebanhos em direção à Serra (da Estrela) no verão, em busca de temperaturas mais frescas, e ao seu regresso no início do inverno, em busca de temperaturas mais amenas. Os pastores acabavam por se sediar nas localidades em volta da região montanhosa e, chegando em altura de abrir os pipos e de provar o vinho, celebravam com os da terra. Quer em Caria, quer no Paul, a Santa Bebiana não é apenas mais uma festa popular, mas sim uma das mais fortes caraterísticas de identidade local.

 

A história

Em Caria, esta festa existe há 50 ou 60 anos e houve várias tentativas para a interromper, inclusive por forças policiais devido ao regime político ditatorial que ocorreu em Portugal. Mas “com muito pulso, a população tem sempre conseguido dar a volta à situação” refere Hélder Lucas que não é cariense de gema, mas que toma Caria como casa, ex-locutor da Rádio Caria e entusiasta da Santa Bebiana. Esta festa teve alguns anos de interregno entre 2000 e 2004 ou 2005, diz-nos Hélder, “porque às vezes deixam-se cair os usos e costumes” e “não havia vontade de fazer as coisas”. Mas quem organiza verdadeiramente esta festa é a “Irmandade”, que sempre foi um grupo de amigos que juntava e fazia a Santa, explica Filipe Alves, presidente dessa associação.

As árvores cobertas a trabalhos manuais feitos em lã que emolduram o mural de homenagem à Santa Bebiana dão as boas-vindas a quem chega a Caria e rapidamente fazem encontrar o caminho ao largo da festa (Largo do Jacinto).

Música tradicional nas ruas do Paul. Foto: João Pedro Valentim, dezembro 2022, Paul

O posto dos correios, onde agora funciona a Junta de Freguesia, abre pontualmente às 14 horas e a Dona Noémia, a funcionária, dá-nos as boas-vindas para a conversa com Mafalda Carvalho, secretária da Junta e membro da associação que organiza a festa, e que conta com uma ligação já familiar à Santa Bebiana, pois o seu avô foi um dos responsáveis por trazer e manter as tradições associadas a ela. Entre a papelada e as secretárias típicas de um posto dos CTT, Mafalda explica-nos que o dia 2 de dezembro é o dia em que se celebra sempre esta Santa, com a oferta de bebida e comida para os devotos e que “não é uma festa apenas para nos embebedarmos, mas sim de espírito de equipa e de união entre todos”. Em 2022, com uma ajudinha do calendário, prolongou-se por quatro dias (1, 2, 3 e 4 de dezembro). No meio da folia, do frio combatido pela bebida e pelo madeiro, aceso de propósito para estes dias, e de muitos “Viva à Santa!” comemorou-se, como diz no programa da própria festa, o “chamamento”, o “casamento”, o “copo de água” e a “lua de mel” entre Santa Bebiana e São Martinho.

Aqui, juntam-se as duas comemorações e fazem-se casar os dois santos: São Martinho, vindo de Inguias, e Santa Bebiana, de Caria, ambos apreciadores e apologistas de que se “vá à adega” e “se prove o vinho”, como se costuma dizer na expressão popular portuguesa. Na procissão, um dos momentos altos da noite, os dois santos, personificados por dois manequins, separam-se percorrendo as ruas da vila e voltam a encontrar-se no Largo do Jacinto para a celebração do casamento. Durante este percurso distribui-se vinho para aquecer as almas dos corajosos que, independentemente do frio, saem à rua para celebrar.

Naqueles quatro dias, muito havia para fazer, entre visitar as barraquinhas de produtos artesanais, participar nas caminhadas pela vila, no rally tascas, assistir ao colóquio “Santa Bebiana Património Imaterial” ou ao teatro, não se podem perder a procissão e a animação noturna, com baile, DJ e fogo de artifício. Segundo Filipe Alves, o regresso pós pandemia “foi espetacular” e o balanço é positivo porque apesar de a contagem ser difícil “porque nesses dias já se vê a duplicar” crê que tenham contado com mil e muitas pessoas de todas as idades. “As pessoas tinham uma grande vontade de voltar, de sentir o que é vir para a rua festejar qualquer coisa. Este regresso foi precisamente isso, as pessoas aprenderam a valorizar coisas que eram banais antigamente” completa Hélder Lucas.

Santa Bebiana e São Martinho. Foto: Samuel Reis, dezembro 2022, Caria

No Paul, Capital da Jeropiga, a Santa Bebiana celebra-se sempre no primeiro fim de semana de dezembro, independentemente do dia em que calhe o dia 2. O cheiro a fumo vindo dos bidons que ardem pelas ruas não passa despercebido a quem visita a festa. Aqui, mal se vê o chão, e na rádio ouve-se falar em milhares de pessoas pelas ruas do centro da vila. “Santa Bebiana, Senhora de muita graça, não tem capela, mas tem o Largo da Praça”, que se viu repleta de gente, animação, música, folia e, mais uma vez, muitos “Viva à Santa Bebiana!”.

Quanto à sua história, terá o mesmo fundamento e poderá atribuir-se culpa, mais uma vez, à transumância levada a cabo pelos pastores vindos da Serra. Mas não é só isso. O doce da jeropiga deixa qualquer um com sede por saber mais e assim marcámos encontro com dois membros da Casa do Povo do Paul, responsável pela organização. No café da “Ti Glória”, em pleno Largo da Praça, o primeiro café da terra, ditam as fotografias e as reportagens emolduradas na parede, o espaço entretém-nos. A Dona Prazeres, filha da “Ti” Glória, já falecida, prontamente faz o convite ao lugar à lareira enquanto serve o chá e todos os que por ali passam dão a saudação, mesmo às caras menos conhecidas. Leonor Narciso, presidente da comissão administrativa da Casa do Povo, começa por explicar que esta é uma associação de longa data, que começou por ser de cariz social, representativa do Paul e das freguesias em redor, mas que hoje, e a partir de 1977, é uma associação sociocultural feita de corpo e alma, porque “sentem que devem ajudar as pessoas e as tradições quando elas necessitam”.

A Casa do Povo decidiu reavivar esta tradição da Santa Bebiana em 2004. Ela existia nas memórias dos membros desta associação enquanto jovens e há muitos anos que não se fazia, “ela parou porque o senhor que a fazia faleceu, porque isto era praticamente uma festa de homens, onde não havia forma de as mulheres se integrarem, a não ser alguma mais ousada ou aquelas que participavam através da cozinha, para proporcionarem a grande ceia que eles faziam”, esclarece Leonor.

Sem documentos escritos, à exceção de um “bilhete de identidade” que provava a pertença à organização, a pesquisa fez-se junto dos familiares dos que organizaram a festa nos últimos anos (anos 70). Recorrendo a esses testemunhos e à memória, Leonor conta: “a festa deles era uma procissão de homens, uns archotes, uma pipa de vinho montada numa padiola, a personificação ainda atual da Santa Bebiana.  À frente, ia o intitulado “padre” que pregava o sermão no mercado. No fim, juntavam-se no forno comunitário para a ceia, normalmente chanfana. “Confraternizavam… e a procissão… a imagem que tenho é de tudo muito preto, muito fumo dos archotes embebidos em azeite, ou em petróleo. Os pastores saíam à rua com os chocalhos à cintura, juntavam-se às pessoas da povoação e percorriam as ruas. Iam de loja em loja e provavam o vinho. Isto está ligado ao vinho e não só, também à pastorícia e ao calendário litúrgico com uma “Santa Viviana”, mas é mais pela mística de adorar um deus” diz, entre risos.

Devoto acende tocha à Santa. Foto: João Pedro Valentim, dezembro 2022, Paul

Jorge Pedro, membro da direção da Casa do Povo e “capitão” da equipa organizadora, esclarece que ninguém sabe bem quando esta festa começou, porque deixou de ser feita por muitos e muitos anos, mas crê-se, dizem alguns historiadores, que poderá ser a segunda festa mais antiga da região recuperada, a seguir à feira de São Tiago, na Covilhã. Na altura, não se celebrava uma santa, mas sim a prova do vinho, não se falava em jeropiga apesar de sempre ter sido feita nesta região. Foi um hábito que foi crescendo porque o vinho produzido na vila não é de grande qualidade e era uma forma de rentabilizar o produto, fazendo um licor considerado mais feminino por ser doce, muito apreciado. A jeropiga aparece em abundância e, por isso, a Casa do Povo apelida o Paul como “Capital da Jeropiga”, tornando-a mais apetecível, e que desaparece a olhos vistos, principalmente durantes estes dias de festa. Para esta associação, o cunho da Santa Bebiana está em manter a tradição, a história, o ir de loja em loja e provar-se o vinho, ou o licor bebiano, ao que atualmente se faz um galardão ao melhor da festa, marcando uma identidade.

No Paul, a música tradicional faz-se ouvir dentro e fora das tasquinhas que enchem as ruas circundantes à praça, as pessoas percorrem-nas, conhecendo um bocadinho da história de cada uma. Entre artistas e atividades, artesanato e comes e bebes, a noite de sábado culmina no famoso “sermão”, dividido numa parte cómica, numa parte de sátira política e numa de sátira social.

Mural em homenagem à Santa Bebiana. Foto: Ana Agostinho, dezembro 2022, Caria

No último ano, a Santa Bebiana do Paul, ocorrida nos dias 2 e 3 de dezembro, surpreendeu toda a gente pela quantidade de participantes, concordam Leonor e Jorge Pedro. A sexta-feira, que costuma ser um dia mais familiar, em que a comissão normalmente tem oportunidade de circular pela festa começou logo por ser perfeitamente caótica. “É o que a festa tem de bom, a alegria, a parte humana e a comunicação, a partilha e a entreajuda” refere Leonor que explica também, tal como Jorge Pedro, que esta é uma festa de parcerias e que sem elas não seria possível de realizar.

 

A organização: novidades e desafios

A cada ano que passa, a Santa Bebiana atrai mais gente e dá a conhecer cada vez melhor ao seu público as caraterísticas da identidade local destes sítios à beira da Serra. A notoriedade que tem vindo a ganhar traz também novos desafios às organizações, algumas dificuldades e, claro, a necessidade de inovação. Quanto às dificuldades, as duas localidades parecem ter pontos semelhantes apesar das diferentes tradições. Em Caria, a principal dificuldade rege-se por falta de apoio dos órgãos executivos, segundo os organizadores. Na última edição, a CMB emprestou o comboio turístico para transportar os participantes da caminhada, uma das atividades diurnas. A Junta de Freguesia acabou por suportar os maiores custos e afirma que o apoio logístico poderá ser tão ou mais importante que o apoio financeiro, e que gostavam de poder contar com ele de hoje em diante, como aconteceu em anos anteriores. Apesar das limitações, a Irmandade tem conseguido levar a festa para a frente e, este ano, implementou novas atividades e “afazeres” começando por aumentar o número de dias de festa, implementar barraquinhas com produtos da terra e uma caminhada diurna que permitiu dar a conhecer melhor a localidade aos visitantes.

No Paul, a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal da Covilhã, trabalham em uníssono. Há apoio financeiro e logístico. A Junta de Freguesia ajuda, principalmente com as refeições, colocação de sinalética, luz, casas de banho, caixotes do lixo, limpezas de rua. Já a Câmara Municipal, costuma disponibilizar transportes e ajuda com a comunicação, a eletricidade e divulgação. Apesar dos apoios já serem em alguma dimensão, Leonor explica que “estes membros não ajudam mais porque não conseguem, mas claro, precisamos de mais, é uma festa que se está a alargar, temos de apostar, e de lutar por mais. Mas fazem o que podem.”

Centenas de pessoas esperam o sermão no Largo da Praça. Foto: João Pedro Valentim, dezembro 2022, Paul

Em 2022, a Santa Bebiana Paulense contou com a vertente solidária com colaborações da associação de ajuda animal Shelter 4 Life e da Coolabora Intervenção Social. Quanto aos principais desafios, Jorge Pedro faz enumerar a sinalética, a iluminação e a sonorização como aspetos a corrigir nas próximas edições.

Comum às duas freguesias é a dificuldade com o alojamento. No Paul, há uma pessoa responsável por alojar quem vem e pede-se a colaboração da população para abrir as suas portas e disponibilizar casas de férias ou casas que costumem não usar. De toda a maneira, foi necessário desviar as dormidas para as localidades em redor como Erada, Sobral e Tortosendo. Em Caria, espera-se vir a combater esta dificuldade no futuro com a abertura ou reabilitação de algum ponto de alojamento como uma hospedaria.

A classificação como Património Imaterial

Ao questionar aos entrevistados dos dois locais qual seria a festa original, ou a mais antiga, todos sem exceção nos respondem “não sei”, “não conheço, então não posso dar grande opinião”. A verdade é que a pergunta surge para tentarmos perceber se faria sentido juntá-las. Tanto em Caria quanto no Paul, os organizadores se disponibilizam a conhecer mais de um lado e de outro. Hélder e Filipe, que consideram que “cada um faz à sua maneira”, confessam também que poderia ser interessante criar-se, por exemplo, um roteiro da Santa Bebiana dando a conhecer as duas festas a quem visita a zona. Mais a sul, no Paul, Jorge Pedro considera que poderia funcionar colocar um pouco de uma noutra, como um espaço programático alusivo. É necessário atribuir mais valor à festa, concordam os entrevistados. Assim, surge a questão se esta Santa poderá ser considerada Património Imaterial.

Em Caria, a proposta já começou, querem torná-la património pois isso com certeza trará, para além das ajudas que já vimos necessárias, a proteção das tradições e costumes da terra. No Paul, as opiniões dividem-se. Na Casa do Povo, existem membros que concordam com a candidatura e outros que “não sabem muito bem”. Jorge Pedro e Leonor Narciso são da mesma opinião, “porque não? Enquanto houver povo e vontade, as coisas fazem-se e não precisamos da classificação, porque o que interessa é continuar a ter a noção da identidade do povo”.

Santa Bebiana chega ao Largo da Praça. Foto: João Pedro Valentim, dezembro 2022, Paul

Ambos explicam que é necessário trabalhar para isso e, caso vá para a frente, disponibilizam-se a ajudar, mas admitem que a classificação traria desafios, pois não seria apenas a Santa Bebiana, mas “um conjunto de atividades ligadas à temática da transumância (…) ou não se tira proveito de nada”. Se isso realmente surgir e continuar, “é uma mais-valia claro, uma marca que não se pode passar além, com valorização”, esclarece Leonor Narciso, que considera que esta festa não é património de uma aldeia só, mas de uma região e de um grupo de povos.

Para a presidente da Casa do Povo do Paul, a Santa Bebiana é feita com raiz no passado, como um processo evolutivo e é por aí que se querem manter pois têm “coisas boas, não precisam de inventar outras, são as nossas marcas, a nossa história, a nossa identidade”.

O que esperar da Santa Bebiana no futuro

Cada vez mais gente se organiza para estar na Santa Bebiana. Alguns marcam a vinda como marcam as férias de verão e do Natal. Empresas e grupos de amigos também organizam excursões. Por isso, fica o convite dos organizadores às próximas edições que prometem inovar e dinamizar. Em Caria, promete-se folia para vários dias, manter as novidades como as barraquinhas ou a caminhada, mas criar atividades. No Paul, espera-se manter a jovialidade da equipa organizadora que promete “saltar fora da caixa” e pondera regressar aos três dias de festa para novos projetos e ideias. Para mais, será necessário vir, ver e conhecer o que tão de bom estas festas têm para dar.

Quer num sítio quer noutro, os próximos anos prometem muita gente, muita diversão, muito vinho e jeropiga. Como dizem os “devotos”, “quer chova, quer neve, quem tem sede bebe”. “Viva à Santa Bebiana!”.

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