Uma casa tecida por muitas

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Ação artística do festival WOOL reúne participantes numa criação que transforma saberes tradicionais e afetivos em instalação coletiva no centro da cidade.

Na Covilhã, linhas e agulhas estão a unir dezenas de pessoas em torno de um objetivo comum: construir ‘A Nossa Casa’. Esta é uma ação artística que integra a 13ª edição do festival de arte contemporânea WOOL. A iniciativa, que acontece pela primeira vez, convida a população a criar uma manta de grandes dimensões, que irá cobrir uma casa no centro histórico da cidade.

Inspirada no projeto francês Citémones, a ação desafia participantes de todas as idades a produzirem pequenos quadrados ou retângulos de crochê ou tricô que serão unidos para revestir a casa escolhida pelo festival. A inauguração de ‘A Nossa Casa’ está marcada para o dia 18 de junho, em um momento especial integrado às celebrações dos 15 anos de atuação do WOOL.

Os materiais e instruções são disponibilizados pelo WOOL em kits individuais que podem ser recolhidos pelos voluntários em vários estabelecimentos da cidade. A Farmácia Covilhã, Farmácia Pedroso, Farmácia São João e a A Tentadora são os pontos de coleta dos materiais.

Os kits também são enviados para diferentes regiões do país, como Fundão, Belmonte, Montijo, Lisboa e Costa da Caparica. Após a produção dos retalhos, os participantes ou instituições enviam as peças para a organização do festival, na Covilhã, com o apoio de farmácias locais responsáveis pela distribuição dos materiais e pela recolha dos trabalhos concluídos.

Kits individuais ‘A Nossa Casa’

O Centro de Ativ’Idades (CIA) da Covilhã é um dos parceiros da iniciativa e, durante o mês de junho, os utentes do CIA e outros participantes podem realizar a confecção em conjunto nesta instituição. Mais do que uma criação artística, o projeto também se torna um espaço de encontro, partilha e memória para os idosos do centro que frequentam as sessões. 

Para Amália Correia, de 79 anos, que acompanha o festival desde as primeiras edições, o gesto de tricotar está profundamente ligado às suas origens: “É ancestral! Lembra-me da minha mãe, das minhas irmãs, da vida no campo”. No tricô encontra também tranquilidade: “Faz muito bem à mente. Ontem, ia muito nervosa para o centro de saúde, então pus-me a trabalhar e acalmei”.

O impacto positivo do trabalho manual para o bem-estar também é sentido por outras participantes. Cândida Santos, de 71 anos, encontrou no crochê uma forma de lidar com o luto após a perda do marido. Fazer crochê ajuda-a a lidar com a solidão, sobretudo por viver sozinha. Já Angélica Santos, de 82 anos, associa a prática a momentos bons da sua vida, como quando tinha saúde e a mãe era viva: “Lembro-me de muita coisa e às vezes até choro”.

Cândida Santos fazendo um quadrado de crochê

Segundo Dina Correia, funcionária do Centro de Ativ’Idades, este tipo de ação tem um impacto direto no combate ao isolamento: “A nossa missão é que os idosos sofram menos de solidão”. Para além do convívio, a responsável destaca também os benefícios cognitivos e motores do crochê, que exige raciocínio e estimula a mobilidade das mãos. “Para muitos, é como ganhar vida. Estão a trabalhar num projeto que vai ficar para os netos verem, uma forma de mostrar que continuam ativos e capazes”, acrescenta Dina Correia.

 

 

Para a arquiteta e idealizadora do projeto, Lara Seixo Rodrigues, ‘A Nossa Casa’ nasce da vontade de aproximar pessoas através de práticas ligadas à identidade da Covilhã, historicamente associada às fábricas têxteis e à lã. “Estamos todos a trabalhar juntos, a conviver, a partilhar histórias, a conhecer-nos e é esta aproximação que depois faz as comunidades mais fortes, mais inclusivas, mais coesas”, afirma a arquiteta.

Aprendidos muitas vezes em contexto familiar, o crochê e o tricô surgem no projeto como forma de herança e continuidade. Beatriz Ruas, de 80 anos, recorda-se de aprender com a avó, “aos pés dela”, e vê na iniciativa uma oportunidade de convívio. “Gosto de vir para cá, convivo com estas senhoras. É uma coisa boa”, conta a idosa.

Assim como as técnicas foram transmitidas entre gerações, ‘A Nossa Casa’ procura agora ressignificá-las num contexto coletivo e contemporâneo. E esse aspecto afetivo também se estende às relações familiares da própria idealizadora do projeto. Lurdes Seixo, de 76 anos, participa motivada por um vínculo especial: é mãe de Lara Seixo. “O maior significado é estar a ajudar a minha filha”, afirma a idosa, acrescentando o orgulho em ver a iniciativa contribuir para a cidade.

Lurdes Seixo e Amália Correia

A iniciativa propõe ainda uma reflexão mais ampla sobre o conceito de casa, não apenas enquanto espaço físico, mas também como rua, cidade e planeta. Num contexto marcado pela crescente dificuldade no acesso à habitação, o projeto procura abrir espaço para novas perspectivas e para a criação de consciência social.

Após a finalização da manta, os nomes de todos os participantes serão associados à instalação, reforçando o caráter coletivo da obra. As próximas sessões decorrem às quartas-feiras, entre as 14h e as 17h30, no Centro de Ativ’Idades, no Sporting Shopping Center (piso -2).

No final, mais do que uma manta a cobrir um edifício, “A Nossa Casa” revela-se como um processo em construção — feito de encontros, histórias e afetos que se entrelaçam, ponto a ponto.

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