Professor por paixão: a última lição de António Fidalgo

Depois de mais de 30 anos a lecionar na Universidade da Beira Interior (UBI), António Fidalgo regressou ao auditório onde deu a primeira aula, na passada quarta-feira, 6 de maio. Desta vez, para uma última lição marcada por memórias pessoais e reflexões sobre o ensino superior. O antigo reitor revisitou o percurso académico e profissional na instituição que ajudou a construir, desde 1991. A “vocação” deu o mote à sessão, onde se reuniram várias gerações de alunos e colegas, em torno de um dos rostos mais marcantes da história da UBI.

A última aula de António Fidalgo começou como tantas outras ao longo de mais de três décadas de ensino: com uma chamada de atenção aos “alunos” sentados nas últimas filas. “Bom dia a todos. Vamos começar a aula. As pessoas que estão lá atrás, têm de vir para a frente”, brincou, perante um auditório cheio.

Ana Paula Duarte, atual reitora da UBI, abriu a sessão, referindo-se a António Fidalgo como “um professor no sentido mais pleno da palavra”. “Formador de gerações, mestre exigente e inspirador”, descreveu. Para a reitora, António Fidalgo “é responsável por muito do que se construiu e que se conseguiu na nossa universidade, teve um papel preponderante.”

Com o título “Universidade como vocação”, a última lição de António Fidalgo reuniu familiares, colegas, antigos reitores, figuras políticas, e sobretudo alunos. Os de hoje e aqueles que, noutros anos, passaram pelas mesmas cadeiras daquela sala, que não foi escolhida por acaso. “Foi aqui que eu dei a minha primeira aula nesta universidade”, recordou o Professor, descrevendo-a como “a mais bonita” da UBI.

Construir uma universidade

Ao recordar a chegada à Covilhã, em 1991, António Fidalgo sublinhou que a missão ia muito além da docência. “Não era apenas ensinar, era sobretudo dar o meu contributo à construção de uma nova universidade”, afirmou, lembrando os primeiros anos de uma instituição ainda em crescimento. E assim fez.

O Professor falou também na proximidade que mantinha com os alunos, dentro e fora da sala de aula, dizendo que ainda hoje se lembra do nome de muitos estudantes dos primeiros anos em que lecionou. “Quando os encontrava na cidade a horas de aulas, inquiria a razão da falta”, contou.

O Professor para além da sala de aula

A forma de ensinar de António Fidalgo implicava uma relação pessoal e próxima com os estudantes, marcada pela exigência, mas também pelo acompanhamento constante, referindo que os alunos não eram apenas “o número da pauta”. Aliás, acredita que o sucesso de uma aula depende, em grande parte, da ligação criada com os estudantes: “Um professor sente bem quando dá uma boa aula e quando foi um fiasco!”

Essa relação próxima é hoje recordada por muitos. João Morgado, aluno de António Fidalgo nos anos 90 e ouvinte atento na última lição, lembra “um professor diferente, com um grau de exigência elevado”, mas também “com uma componente muito humana”. “Foi um professor com quem convivi fora das salas de aula, hoje posso dizer que nos tornámos amigos”, afirmou, descrevendo a lição como um momento “nostálgico”, por revisitar histórias que acompanhou enquanto estudante.

Também João Correia, atualmente Professor de Ciências da Comunicação na UBI, foi um dos primeiros alunos de Fidalgo. Com entusiasmo, destacou que foi o professor que “mais diretamente” o influenciou. “Foi o meu professor de Semiótica e a pessoa que me contratou, na prática, para vir aqui para a universidade”, contou, considerando a entrada de António Fidalgo na UBI como “uma pedrada no charco”, porque “mudou tudo com a chegada dele”, desde a forma de estudar até à relação entre professores e alunos.

O papel humano da Universidade

Ao longo da manhã, António Fidalgo reforçou que “a primeira missão da Universidade é a formação humana, cultural, científica e técnica”, “exatamente por esta ordem”. A partir dessa ideia, defendeu que “a Universidade é, antes de tudo mais, formação” e que a investigação vem depois, como parte integrante do ensino, “e não o contrário”.

Nesse sentido, destacou que os estudantes “estão em primeiro lugar” e que a Universidade deve ser orientada para pessoas e não apenas para resultados científicos e académicos, salientando que a componente técnica “está ao serviço” da formação humana. Caso contrário, estariam “a formar especialistas que são umas bestas, não é?”, brincou, para concluir que o verdadeiro objetivo deve ser contribuir para que as pessoas sejam “mais cultas” e, sobretudo, com um perfil “mais humano”.

Para Eduardo Cavaco, vereador da Câmara Municipal da Covilhã e docente na Faculdade de Ciências da Saúde da UBI, essa preocupação esteve sempre presente no percurso de António Fidalgo. “Foi igual a ele próprio, é um professor inspirador e pensa na palavra ‘humanizar’ o ensino”, afirmou. Apesar da importância da produção científica, Cavaco considera que “acima de tudo temos de estabelecer e criar um forte diálogo com os alunos de hoje”.

Um percurso além-fronteiras

A aula ficou marcada por vários episódios biográficos, incluindo a experiência académica na Alemanha, os anos como docente na Universidade Católica Portuguesa e o período como visiting scholar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Descreveu essa oportunidade como o resultado de “decisão, destino, sorte” e também da própria vocação académica. “A vocação é sofrimento, mas também é sorte”, afirmou. Sobre a experiência nos Estados Unidos, destacou o contacto diário com uma universidade de elite e o ambiente académico, considerando esse período “um rico ano” e “uma experiência fantástica”.

Grande parte da intervenção foi também dedicada à evolução da própria UBI. António Fidalgo recordou a criação da Faculdade de Artes e Letras e o contributo para o desenvolvimento das Ciências da Comunicação, quando ainda “era um curso completamente marginal na universidade, como com um irmão menor do curso de Sociologia”.

Inovar a Comunicação

Ao revisitar os principais projetos desenvolvidos na UBI, o docente destacou a fundação do LabCom (unidade de investigação de Comunicação e Artes) e a criação do Urbi et Orbi, em janeiro de 2000, tornando-se “um dos primeiros jornais online em Portugal e o primeiro órgão online na academia portuguesa”. “O Urbi continua ainda hoje e o seu arquivo é certamente o melhor repositório da história da UBI”, afirmou.

Após participar em processos de avaliação de cursos e instituições de ensino superior em Portugal, Fidalgo afirmou que essa experiência lhe permitiu compreender melhor a casa onde lecionava. “Não se pode amar sem conhecê-la”, disse, “já nessa altura, a UBI era o amor da minha vida!”. E, olhando para a esposa presente na primeira fila do auditório, acrescentou: “Da minha vida profissional!”, arrancando risos da plateia.

Essa relação com a instituição também esteve presente na candidatura a reitor, em 2013. “Ser reitor é um imperativo, não é um objetivo”, referiu, na altura em que se candidatou. “A UBI não é uma empresa, não é uma universidade entre outras. É a minha universidade!”.

Fonte: UBI

Um reitor que apostou na comunidade

António Fidalgo foi reitor da UBI desde esse ano até 2021. Ao recordar o mandato, destacou a aposta na vivência universitária e a importância dos espaços comuns para a “convivência de toda a comunidade académica”, que “não pode cingir-se às aulas”. Segundo explicou, encontrou uma universidade com “demasiadas salas e corredores vazios” e defendeu, desde o início, que as “pessoas têm de se conhecer”.

Entre as medidas tomadas nesse período, destacou a transformação da Biblioteca Central, que passou a funcionar 24 horas por dia, durante todo o ano. “Não imaginam o sucesso”, comentou, “tornou-se o coração pulsante da universidade”, muitas vezes cheia durante a madrugada, com alunos a estudar e a trabalhar em grupo.

A atual diretora da Biblioteca, Rosa Marina Afonso, descreve o Professor como uma figura ímpar e um dos pilares da universidade. “A Biblioteca é um espaço que o professor Fidalgo valorizou muito aqui”, afirmou, “e continuamos a tentar dar-lhe esta dinâmica e dimensão viva, é um espaço que convida a democracia e, sobretudo, a formação humana de que tanto precisamos”.

Ainda no mandato enquanto reitor, a internacionalização foi também uma prioridade para Fidalgo. “Chegámos aos 20% de alunos estrangeiros na universidade. Concretizava o que pensava e penso de uma ideia de Portugal como meca universitária do mundo lusófono”, referiu.

O Professor reforçou, ainda, “a luta contra o subfinanciamento crónico da UBI”, considerando que essa luta marcou, do princípio ao fim, a sua ação de reitor, uma vez que a universidade recebia, do Orçamento de Estado, metade por aluno do que recebiam algumas instituições portuguesas. António Fidalgo considerava a situação uma “injustiça arrepiante!”. “Caramba! Era demais! Pus-me a mal com governantes. Fui várias vezes ao Parlamento. Bom, não resultou nada. Mas pronto, chateei-os”, afirmou.

A vocação não se aposenta

Terminado o mandato de reitor, regressou às aulas de Filosofia, assumindo novamente a docência com “muito entusiasmo”. “Imagino que os alunos me olhassem como eu olhava, na idade deles, para os professores à beira da aposentação, um velhinho, um professor já velhote”, confessou, entre risos.

Entre os presentes esteve também Alexandre Franco de Sá, Professor de Filosofia da Universidade de Coimbra e antigo aluno de António Fidalgo na Universidade Católica Portuguesa. “Foi uma belíssima lição e sobretudo um testemunho sobre o sentido da Universidade, que eu partilho, e que posso confirmar que ele nos passou”, afirmou. “É dos professores mais importantes que eu tive na minha carreira e na minha vida.”

Quase a terminar, António Fidalgo questionou: “E acabei. Cheguei ao fim. E agora?”. Mas a resposta veio logo a seguir. Garantiu que continuará sempre ligado ao ensino superior. “A vocação não se aposenta. Ouço-a a chamar-me novamente. Desta vez, da Guiné-Bissau”, revelou, explicando que se encontra a ajudar a erguer o Instituto de Estudos Superiores de Cumura, onde vão começar os cursos de Enfermagem, Filosofia e Psicologia.

“Sofre-se a vocação, dizia eu no início. Pois bem, continuo a sofrê-la, sem dor, mas com muita paixão”, concluiu António Fidalgo, deixando no seu auditório a certeza de que aquela última lição esteve longe de ser uma despedida.

E em exclusivo ao Urbi et Orbi, que fundou há 26 anos, deixa ainda uma mensagem aos jovens estudantes: “Temos tempos de desafio pela frente. É preciso garra. Garra e paixão!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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