Entre emoções, tradição e futuro: a Bênção das Pastas volta a encher a Covilhã de vida

A cidade da Covilhã voltou a vestir-se de negro académico para celebrar mais uma edição da Bênção das Pastas da Universidade da Beira Interior, um dos momentos mais simbólicos da vida universitária.

Entre lágrimas, abraços e fitas ao vento, cerca de 1100 finalistas marcaram o encerramento de uma etapa académica que ficará para sempre na memória dos estudantes, das famílias e da própria cidade.

Para a AAUBI, esta continua a ser uma das maiores celebrações da região. Duarte Bento e Tiago Ramos destacam o impacto que o evento tem não apenas na comunidade académica, mas também na economia local. “É um dos maiores eventos que existe na cidade e em toda a região durante o ano”, afirmam, sublinhando que hotéis, restaurantes e comércio registam nesta altura um aumento significativo de movimento graças à chegada das famílias e visitantes.

Também Gonçalo Tavares, outro representante da associação académica, considera que a cerimónia mantém intacto o seu valor simbólico. “Continua a ser um momento carregado de emoção e conquista”, refere, explicando que a bênção representa “o encerramento de um percurso académico exigente e inesquecível”. Além da dimensão académica, a tradição reforça a ligação histórica entre a universidade e a cidade. Durante vários dias, a Covilhã transforma-se num ponto de encontro de estudantes, antigos alunos e famílias, criando um ambiente de celebração que se espalha pelas ruas, cafés e restaurantes.

Entre os muitos familiares presentes encontrava-se Patrícia Pereira, mãe de uma finalista, que acompanhou todo o percurso académico da filha mesmo à distância. “Muitas videochamadas, muitos SMS e chamadas de telemóvel tornaram a distância curta”, recorda. Para ela, assistir à Bênção das Pastas foi “um momento único”, marcado pela emoção de ver “a felicidade estampada na cara dos finalistas”.  Apesar das dificuldades que acompanham o ensino superior, Patrícia acredita que todos os desafios fazem parte do crescimento pessoal dos estudantes. “Queremos o melhor para os nossos filhos”, afirma, deixando ainda uma mensagem de orgulho e esperança no futuro da filha.

Do lado dos estudantes, a emoção mistura-se com nostalgia e alguma ansiedade em relação ao futuro. Rafaela Santos, finalista de Design Multimédia, descreve a Bênção das Pastas como “o culminar de vários anos de trabalho, esforço e crescimento pessoal”. A estudante admite que o percurso académico foi “intenso e caótico”, marcado por projetos exigentes e noites longas de trabalho ao lado dos amigos, memórias que considera das mais importantes destes anos universitários. “É uma mistura de felicidade, nostalgia e ansiedade”, confessa Rafaela, que pretende continuar os estudos através de um mestrado. Para a finalista, viver as tradições académicas na Covilhã foi uma experiência “muito especial e marcante”, sobretudo pela importância dos amigos e da família ao longo do percurso.

Num ano em que milhares de estudantes se despedem da vida académica na Universidade da Beira Interior, a Bênção das Pastas volta a provar que continua a ser muito mais do que uma tradição. É um símbolo de conquista, união e esperança no futuro, tanto para quem parte, como para a cidade que os acolheu durante estes anos.

 

E depois?

Os festejos vão abafando a preocupação com o caminho a seguir. Os olhos que se enchem de lágrimas durante as despedidas são os mesmos que já olham para o futuro. Assim que as capas pretas forem guardadas no armário, os finalistas deparam-se com a transição para uma nova realidade.

De acordo com dados do Eurostat relativos a 2023, a taxa de emprego dos jovens recém-licenciados em Portugal fixou-se nos 82%. Na prática, isto significa que quase 18% desses jovens recentemente formados, cerca de 240 mil com as qualificações mais elevadas do país, estavam excluídos do mercado de trabalho. Apesar disso, milhares de jovens continuam fora do mercado de trabalho, entre situações de desemprego e inatividade. No fim do percurso académico, os planos dividem-se.

Entre os cerca de 1100 estudantes (dados da AAUBI), todos acabam por escolher destinos diferentes. No caso de Catarina Duque, estudante do 3º ano de Design Industrial, quer permanecer numa casa que já conhece, a UBI. Pretende realizar o mestrado e só depois fazer estágio profissional. Para muitos finalistas, adiar a entrada no mercado de trabalho, apostando em mais qualificações acaba por representar uma forma de ganhar mais preparação antes de entrar nesse mundo.

Mas para alguns, esse caminho académico passa por deixar a Beira Interior. Seja pela ausência de mestrados específicos nas áreas desejadas, pela vontade de rumar a zonas mais populosas em busca de outras oportunidades, ou até pela vontade de fugir às subidas da “cidade neve”. No caso de alguns finalistas, a entrada no mercado de trabalho surge como uma necessidade imediata, seja para garantir independência financeira ou para juntar recursos que permitam, mais tarde, continuar os estudos através de um mestrado.

Para outros, a licenciatura representa já o fim do percurso académico, optando por permanecer no mundo laboral. Apesar disso, nem todos esperam encontrar imediatamente oportunidades na área em que se formaram. Alguns estudantes admitem a possibilidade de trabalhar noutras áreas enquanto procuram experiência profissional ou melhores oportunidades relacionadas com o curso. No meio das certezas e rotas traçadas, resta o grupo daqueles que ainda não sabem que rumo tomar.

Entre os familiares presentes na cerimónia, o sentimento dominante continua a ser o orgulho e a esperança de um futuro risonho para os “seus finalistas”.

Entre despedidas e celebrações, a Bênção das Pastas assinala não apenas o fim de um ciclo académico, mas o início de um processo de transição para a vida profissional e pessoal.

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