“A fé cresce em mim”: a vivência do Ramadão em intercâmbio

Longe da mesa farta, das orações nas mesquitas e da família reunida, o Ramadão de 2026 será diferente para Fatima Ezzahrae Fathi Oukhti, estudante de arquitetura, muçulmana de 25 anos. Esta é a primeira vez que ela passa o mês sagrado longe da família e totalmente sozinha. 

Natural de Nador, no norte de Marrocos, Fatima chegou a Portugal como intercambista em setembro de 2025. O destino foi Covilhã, para cursar um ano de arquitetura na Universidade da Beira Interior. Tanto para Fatima quanto para outros muçulmanos fora de seus países de origem, este período é marcado por saudade, adaptação e, por vezes, falta de compreensão.

 

O Iftar mais solitário dos últimos tempos

A família de Fatima, que atualmente vive na Espanha, mantém a tradição de celebrar o mês sagrado em conjunto. Ao ser questionada sobre qual cheiro a teletransporta ao Ramadão em família, a jovem responde sem hesitar: “Harira”. Esta é uma tradicional sopa marroquina que é especialmente consumida na quebra do jejum feito durante o dia. O ato de cozinhar e consumir alimentos típicos é uma lembrança afetiva para muitos muçulmanos. 

Em Covilhã, Fatima afirma que não encontra carne com certificação halal na cidade. No Islão, para que a carne seja considerada halal, termo que significa “lícito” ou “permitido”, o abate deve seguir regras específicas, incluindo a realização do procedimento por um muçulmano adulto.

Durante o intercâmbio, a marroquina relata que muitas vezes faz as refeições sozinha no quarto e consome alimentos congelados trazidos da casa dos pais. “Aqui, quando como, como muito pouco”, afirma.

 

Iftar na casa da família
Iftar em Covilhã

 

 

 

 

 

 

Segundo ela, este tem sido um Ramadão solitário.

 

O que é o Ramadão?

Guiado pelas fases lunares, o Ramadão é o nono mês do calendário islâmico e, por isso, não possui data fixa no calendário gregoriano. Durante 29 ou 30 dias, os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr do sol, abstendo-se de comida, bebida, fumo e relações sexuais. O jejum só é quebrado ao entardecer com uma grande refeição chamada “Iftar”.  

Mais do que uma privação física, o Ramadão também é um “jejum espiritual”. Os muçulmanos dedicam-se à oração, à leitura do Alcorão, à caridade e à reflexão, procurando evitar discussões e comportamentos considerados inadequados.

Em Portugal, onde predominam igrejas católicas e a tradição cristã, a vivência religiosa da população pouco se altera durante a Quaresma. Em 2026, o mês do Ramadão volta a coincidir com o tempo quaresmal no calendário cristão, um fenômeno que não acontecia há 163 anos. Esse alinhamento torna ainda mais evidente que a realidade dos muçulmanos é diferente: segundo o Instituto Halal de Portugal (IHP), existem cerca de 54 espaços de culto islâmico, dos quais apenas 19 são mesquitas propriamente ditas. Em comparação, o Vaticano divulgou em 2023 que existem 4.574 paróquias católicas no país, o que corresponde a uma média de 14 igrejas por concelho. 

Aliado a isso, o próprio intercâmbio envolve muitas adaptações que podem levar meses ou até mesmo anos, como o clima, os horários e o idioma. Nesse contexto, a religião pode servir como um elemento de estabilidade e referência cultural durante este processo.

 

É necessário recalcular a rota

Desde os 10 anos, Fátima era incentivada a jejuar. No Islão, a obrigatoriedade começa após a puberdade, embora crianças possam praticar gradualmente. Grávidas, pessoas doentes, diabéticos e mulheres em período menstrual estão dispensados. 

Para as mulheres, a oração pode ser feita nas mesquitas ou em casa. Na Covilhã, não há mesquitas, então Fatima recalcula a rota. Reza cinco vezes ao dia e ajusta as orações quando os horários universitários coincidem com os momentos de devoção. Quando a aula se prolonga até o pôr do sol, a estudante prefere quebrar o jejum com água e tâmaras e deixar a refeição principal para mais tarde.

O sono também é afetado. “Quase todos os dias tenho aula às 9h, então tenho que levantar cedo. Às 5h eu como e custo a dormir novamente, pois logo tenho que levantar para ir à universidade.”, conta.

 

Tradição e afeto 

Uma das recordações mais fortes da intercambista foi o Ramadão vivido aos 13 anos, durante o verão em Espanha. Apesar de o jejum se estender por um período maior, devido ao pôr do sol tardio nesta estação do ano, Fatima relembra com carinho: “Ficava na cozinha com a minha mãe preparando muitas coisas, principalmente no primeiro dia. Sempre comíamos com a família no jardim e logo depois saíamos.”

Agora no intercâmbio em Portugal, a estudante de arquitetura se recolhe mais cedo para dormir, afinal, tudo está fechado, não há companhias e logo deve acordar para preparar seu suhoor.

“Era muito bonito o Ramadão em Marrocos. Agora estou só”.

Tapete de oração (sajjada)
Alcorão de Fatima, com seu nome escrito em árabe na capa.

Como lidar com a distância? 

Apesar da distância, o contato com a família é frequente. As videochamadas não acabam com a solidão, mas amenizam a saudade. Sempre que pode, Fátima conversa com seus pais, irmã e seu noivo pelo telefone. “Com a minha mãe chego a falar duas ou três vezes por dia. Pergunto o que está fazendo, como faço tal comida, aviso que vou sair ou digo olha o que estou fazendo!…”, conta com um sorriso tímido. 

Diferente de outros estudantes que estão a milhares de quilômetros de suas famílias, Fatima ainda consegue ter o privilégio de poder visitá-los nas férias. Mas com o início do mês sagrado, ter que deixar o lar é algo difícil: “Queria passar mais 3 ou 4 dias com a família, porque não é a mesma coisa sem eles. No início, eu chorava sozinha”. Mas com inteligência emocional, Fátima também se tranquiliza. “Está tudo bem, vim para estudar. Está tudo bem!”.

 

A importância da compreensão

Apesar de ter amigos na universidade, nenhum deles é muçulmano. Fátima afirma nunca ter sofrido preconceito relacionado à sua religião ou origem, mas se sente solitária por não ter alguém que possa lhe acompanhar em seus costumes e práticas religiosas. Segundo ela, os colegas cristãos demonstram curiosidade e respeito. 

“Uma vez uma menina perguntou se eu estava a fazer o Ramadão e se teria problema em comer ao meu lado. Eu disse que estava tudo bem. Eu de verdade, fico contente com isso.”, relata.

 

Amadurecimento na fé

Apesar dos desafios encontrados na nova rotina, Fátima acredita que a experiência tem contribuído para o seu amadurecimento. “Agora estou sozinha, então jejuar, rezar no tempo certo e fazer a própria comida é responsabilidade minha. Todas as vezes que tenho que ler o Alcorão não tenho minha mãe para chamar, eu tenho que ler!”, conta.

Para ela, viver o Ramadão fora do país de origem reforçou sua autonomia e compromisso com o seu caminho espiritual.

“A fé cresce em mim”.

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