“A RTP, quando bem dirigida, é movida por interesse público”

Da infância tranquila e feliz no Minho à vida dura na Guerra Colonial, da turbulência do pós 25 de abril aos bastidores da RTP, esta é a história de um homem que atravessou meio século da vida pública portuguesa sem nunca perder uma convicção: a televisão pública existe para servir, não para agradar.

Natural de Baraga, José Vieira Machado recorda uma infância feliz e tranquila no Minho. Após concluir os estudos em Ciências Políticas e Sociais na Universidade de Lisboa, a sua vida toma um rumo inesperado e vai cumprir o serviço militar na Guiné. Durante dois anos, enfrentou a dureza daquele que considera o pior cenário da Guerra Colonial, regressando a Portugal para trabalhar junto de figuras como Adriano Moreira, com quem colaborou durante três décadas.

Vieira Machado viria a tornar-se uma figura central na televisão pública portuguesa. Exerceu o cargo de Secretário-Geral da RTP durante 22 anos. É um defensor do serviço público. Acredita que a missão da RTP é informar, divertir e ser confiável.

Hoje olha para o seu percurso com um sentimento de realização e prazer.

É do Norte, certo?

Sim, senhora. De Braga.

E então, quando saiu do liceu e veio para Lisboa, quais eram os seus sonhos?

Olha, quando eu fiz… o meu sonho era acabar o curso e arranjar emprego.

Como é que foi essa sua infância?

Olha, a minha infância foi na aldeia. Era de uma classe média e, portanto, a infância foi boa.

Era feliz?

Era.

E ainda tem momentos que o acompanham hoje em dia?

Sim, ainda tenho momentos que me acompanham hoje em dia, da infância feliz, com certeza.

E depois, mais tarde, foi chamado para a guerra, não foi?

Fui.

Lembra-se do dia em que o chamaram?

Chamaram-me por engano porque eu tinha direito a adiamento, mas enganaram-se e chamaram-me mais cedo. Depois propuseram que eu fizesse a recruta e suspendesse até chegar a minha altura. Eu disse: “Não vou perder o ano e, portanto, já que cá estou, vou até ao fim”. E fiz a tropa toda seguida.

Quando foi para a guerra, o que é que o prendia cá em Portugal?

A mulher e os filhos. Já tinha uma filha.

E então teve que ir sozinho? A mulher não o acompanhou.

Não, não. Então era para a Guiné-Bissau. A Guiné era de longe o pior sítio da guerra que nós tínhamos, não é?

Como é que passava os dias na Guiné?

Passava os dias a olhar para o ar, a andar cá fora com as tropas, a planear operações. Era assim.

Mesmo assim, tinha espaço para ter tempo livre?

Tinha, tinha. O que tinha mais era tempo livre.

E o que é que fazia para se distrair?

Olhe, jogava às cartas, jogava dominó, fazia essas coisas.

E dava-se bem com os seus colegas?

Dava muito bem.

Ainda mantém contacto com alguns ou já não?

Não, já não. Sabe que eu tive a sorte de ter um comandante de batalhão, um coronel, que, não percebendo nada de tropa, de guerra, era um senhor. Era um indivíduo muito conhecido, que era o Coronel Henrique Calado, que era campeão do mundo de hipismo. E, não percebendo nada de guerra, como pessoa era um senhor de um trato formidável. Nisto tive muita sorte.

Há alguma coisa da Guiné que ainda o marque hoje?

A Guiné, na maré alta, perde um quinto do território porque é dominada pelo Rio Cacheu, pelo Rio Mansôa, que na maré alta alargam a sua margem em cerca de 100 metros. E, portanto, tomam conta de uma parte do território. A população da Guiné era uma população muito afável, se bem que naquele tempo, como a guerra era muito acesa, os contactos com a população não eram muitos, não é? Mas pronto, lá passei dois anos.

Como é que foi voltar para Portugal?

Eu quando fui para a Guiné já trabalhava e, portanto, voltei para o meu trabalho.

Mas houve momentos em que foi estranho voltar ou foi natural?

Não, não. Sabe que eu tive várias sortes na vida. Trabalhava com um indivíduo fora de série, que era o Professor Adriano Moreira. Eu trabalhei 30 anos com o Professor Adriano Moreira. Trabalhei, colaborava com ele e tal. E, portanto, foi muito fácil a integração porque ele era uma pessoa fora de série. Nisto também tive sorte.

Foi Secretário-Geral da RTP durante muitos anos.

Fui, durante 22 anos.

Como é que foi parar à RTP?

Fui parar à RTP porque era diretor da fábrica do [Grupo] Entreposto de Setúbal. Depois deu-se o 25 de Abril. Eu morava na Amadora e da Amadora para Setúbal há ali uma zona, que é Coina. Que é a zona de onde são os fuzileiros. E então, todos os dias havia barragens em Coina e eu ficava ali uma, duas horas parado à espera de ser revistado e de revistarem o carro. De maneira que ir da Amadora para Setúbal e estar duas horas parado em Coina na ida e duas horas na vinda, significava que eu saía de casa às oito da manhã e chegava a casa à meia-noite. E, portanto, respondi a um anúncio de jornal e fui parar à RTP.

Como é que foi trabalhar para a estação pública menos de um ano depois do 25 de Abril?

Foi normal. Também tinha um presidente muito bom que era o Coronel Pedroso Marques. E ele era uma pessoa com muito nível. Um nível que, quando foi da entrevista, e como aquilo era uma época complicada, eu fiz questão de referir na entrevista que foi com uma série de psicólogos, a minha relação com o Adriano Moreira. Porque na altura era fascista, não é? E então eles deram um parecer que dizia que eu era tecnicamente capaz, mas politicamente inconveniente. E o Pedroso Marques, o tal presidente da televisão, deu um despacho a dizer assim: “Admite-se. Políticos eu tenho cá muito, preciso é de quem trabalhe”. Como vê, uma vida cheia de histórias.

Portanto, foi uma pessoa muito ativa na política da RTP?

Sim, fui uma pessoa muito ativa. Tão ativa que eu tive 22 conselhos de administração ao longo de 22 anos. E sempre que mudava o conselho de administração, dizia-se que eu ia ser corrido. E disse-se isto durante 22 vezes. Bom, e um dia tinha que ser, não é? Não há ninguém, nem agora, que tenha estado tanto tempo num cargo daqueles.

E um dia fui a Angola com um empresário espanhol para lhe apresentar o presidente de um banco. E o presidente do banco tinha sido vice-primeiro-ministro cá. E eu disse-lhe: “Olhe, o senhor doutor não me conhece de lado nenhum, o senhor presidente não me conhece de lado nenhum”. E ele disse: “Não conheço? Não conheço outra coisa! Sempre que havia Conselho de Ministros, o seu nome vinha à baila para ser corrido. Mas havia eu e outros que não deixávamos porque entendíamos que o senhor é que segurava a televisão”. De maneira que, foi mais uma história de vida.

Lembra-se de qual foi a decisão mais difícil que teve que tomar quando lá esteve?

Foi uma altura em que foram muitas decisões. A  mais fácil foi no dia em que lá cheguei, em que me apresentei na sede da empresa. Na altura, a empresa estava dispersa por 17 instalações em Lisboa. E nas instalações da sede serviam café a meio da manhã e a meio da tarde. E uma senhora apresentou-me uma reivindicação. Disse: “Ah, senhor doutor, isto não pode ser, temos que ter tratamento igual para todos os trabalhadores”. “Mas qual é o problema?” E ela disse: “Ah, é que aqui há café a meio da tarde e a meio da manhã e nos outros lados não”. Eu disse: “Ó senhora, isto é fácil de resolver. Acabou o café na sede”. E passou a haver tratamento igual.

E a mais difícil?

A mais difícil… eram todas fáceis e todas difíceis. Felizmente tinha uma relação muito boa com os líderes dos trabalhadores, que é uma coisa que eu ainda hoje recomendo para as pessoas: reconhecerem quem são os líderes dos trabalhadores e prestigiá-los. Eu tinha uma relação muito boa com os líderes dos trabalhadores e, portanto, fui contornando, com a colaboração deles, todas as situações difíceis. Nunca tive nenhuma situação intransponível. Talvez quando foi da única greve que não foi greve. E que não foi greve por quê? Porque na altura era presidente da televisão o Daniel Proença de Carvalho. E nós tínhamos que responder à proposta da contratação coletiva dos sindicatos para as minhas contas até ao dia 3 de dezembro, e pelas contas deles até ao dia 30 de novembro. E eu falei com o Proença e disse: “Ó senhor doutor, mas isto não vale a pena estar a fazer questão porque…”. “Ah não, mas vamos lá a isso que nós advogados somos especialistas a contar os prazos”. E disse: “Olha, o senhor tem razão, é 3 de dezembro”. Eu disse: “Ó senhor doutor, não vale a pena e tal, senhor doutor…”. “Isto não é uma questão de valer a pena ou não, os sindicatos estão a fazer uma birra e a gente vai fazer outra, portanto, só apresentamos a proposta no dia 3 de dezembro”. Ora, a proposta era uma proposta muito boa que já estava praticamente acordada antes de iniciar as negociações. Porque foi na altura em que iam nascer as privadas. E, portanto, nós tínhamos que fazer uma melhoria substancial dos salários porque senão as privadas roubavam-nos os trabalhadores.

O que é que eu fiz para isso? Aí um ano antes de abrirem as privadas, havia profissões que eram específicas da televisão, por exemplo, os operadores de imagem, que não havia noutro lado. Nós tínhamos aquilo que era na altura considerado o melhor centro de formação da Europa, que dependia de mim. E eu comecei a preparar pessoas que lancei no mercado sem serem admitidas na televisão para elas ficarem disponíveis para as televisões privadas. E, pronto, assim foi. Quando chegou a altura da greve, como digo, tinha já acordado praticamente, um aumento de salários com autorização do Conselho de Ministros de 40%. E, portanto, a birra era só se se apresentava a 30 [de novembro] ou se se apresentava a 3 [de dezembro]. E o Proença quis que apresentasse a 3 [de dezembro] e, se calhar, com razão. A greve iniciou-se às dez da manhã, às dez e meia a gente publicou a proposta que tinha apresentado ao sindicato e cinco minutos depois acabou a greve. Portanto tive uma greve de cinco minutos.

Acha que a RTP hoje em dia cumpre com a sua missão de serviço público ou está só a tentar sobreviver?

Não, a televisão cumpre a sua missão de serviço público. E gostaria de referir uma coisa. Quando se pergunta às pessoas qual é a televisão em que mais confiam, a RTP aparece em primeiro lugar, não digo quanto por cento porque não me recordo, mas destacadíssima de todas as outras. E essa é a sua missão: é ter boa audiência, mas sobretudo ser confiável. Ser confiável. É claro que depois há programas que têm muita audiência e etc., mas que no meu entender a RTP não emite e não deve emitir. Tipo Big Brother e coisas desse género, acho que a RTP não deve patrocinar esse tipo de programas. Também não deve meter-se só à cultura, não é? Porque eu dou-lhe um exemplo: em 1975, 76, a RTP fazia muitos programas com base na cultura. E um dia apareceu o diretor de programas, que era um ilustre militante e dirigente do Partido Socialista, que era o Doutor Zénith. E chegou à televisão e disse: “Isto é uma chatice, a gente só tem programas de cultura e de instrução e de não sei quê, nós estamos numa fase… estamos em 1975… pá, as pessoas precisam de se divertir”. E então propôs-nos na reunião de direção que emitíssemos uma telenovela. Então a RTP emitiu a Gabriela Cravo e Canela. À hora da Gabriela, não havia trânsito em Lisboa. Os cinemas ficaram desertos. E nós acabámos por ter que fazer um acordo com as casas de espetáculos para dar espaço para eles continuarem com o negócio. E então a televisão passou a emitir a telenovela meia hora mais cedo e eles passaram a abrir os cinemas, os teatros, etc., meia hora mais tarde.

O serviço público deve mesmo desagradando a algumas pessoas, continuar a cumprir a sua função?

Eu respondo de uma maneira muito simples. Não há nenhum país da Europa que não tenha um serviço público de televisão, mesmo os mais liberais. Penso que isto responde à sua pergunta.

O que é que aconteceria à democracia se não houvesse serviço público?

Não sei o que é que acontecia à democracia, mas há uma coisa de que eu tenho a certeza: não era bom para a democracia. Porque a RTP, quando bem dirigida, é movida por interesse público. E as outras, logicamente, se fossem minhas, eram movidas por meu interesse. As outras são privadas, existem para prestar um serviço, mas existem sobretudo para dar lucro. Enquanto que o objetivo da televisão é o serviço público, o objetivo de uma instituição privada é o lucro. O resto são cantigas. Vão bater-me por eu dizer isto, mas é verdade.

Como é que olha para o seu tempo na RTP?

Olho com muito grado. Tenho muitas saudades, estive lá 22 anos, gostei muito lá de estar e tínhamos uma paz social muito grande, tínhamos uma boa relação com os trabalhadores, tínhamos uma boa relação com os sindicatos. Portanto, não tenho queixa nenhuma, nenhuma, nenhuma. E passados 30 anos de lá sair, algum representante do sindicato ainda me telefona no Natal. Saí feliz, senti-me realizado.

Se descrevesse esse tempo com uma só palavra, qual seria?

Prazer.

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