Estudantes deslocados e idosos enfrentam a crise da saúde mental no interior, entre longas listas de espera, apoio informal e o peso do estigma.

Na Covilhã, cidade do interior onde a solidão e a pressão académica pesam em muitos estudantes deslocados, a saúde mental continua a ser, muitas vezes, uma questão de espera, de improvisação e de silêncio. Entre longas listas de espera no SNS, serviços sobrelotados e a dificuldade de falar do que se sente, viver (e sobreviver) com problemas de saúde mental no interior é uma realidade feita de dias em que se luta em silêncio.
Esta reportagem parte de casos concretos de estudantes e idosos da Covilhã e usa dados nacionais apenas para contexto, não para generalizar a realidade de toda a cidade.

Beatriz Vieira, aluna do primeiro ano de Ciências Da Comunicação é uma das milhares de estudantes que chegam à Covilhã longe da família, pela primeira vez. A mudança, a pressão académica e a saudade transformam-se rapidamente em ataques de pânico, mas, quando procurou ajuda, encontrou uma barreira: a espera.
“O GAP é o primeiro sítio a que se pensa, mas a lista de espera é longa. Há quem espere imenso tempo pela primeira consulta, e, entretanto, a ansiedade, a tristeza ou o medo só crescem”, conta Beatriz.
Matilde Mendes, 19 anos, estudante da Universidade Da Beira Interior, já vivia com ansiedade e depressão quando entrou na UBI. O acompanhamento com psicóloga e psiquiatra trouxe alguma estabilidade, mas o caminho até lá foi longo.
“Conseguir vaga no privado foi decisivo. No SNS, a espera é de meses, e, para quem está mal, cada dia conta” explica Matilde.
Francisco Mousaco estuda em Coimbra, mas a ligação à Covilhã mantém-se forte. Quando a ansiedade ou a tristeza apertam, a ajuda vem de fora do sistema formal.
“Há dias em que isso não chega, e aí é que se sente a falta de acesso rápido a um profissional”, diz Francisco.

Mas se a pressão académica e a saudade da família marcam a vida de muitos jovens na Covilhã, há outro lado da cidade onde o peso da solidão e do luto se faz sentir de forma diferente: nos bairros mais antigos, nas casas onde vivem muitos idosos, sozinhos, longe dos filhos, com doenças crónicas e com a sensação de que a saúde mental é um assunto para os outros.

Isabel Maria de 76 anos vive sozinha, longe dos filhos, e com a sensação de que a casa ficou demasiado grande. A tristeza é constante, mas a ajuda psicológica continua a ser um tabu.
“Fico sozinha e o dia passa devagar. Às vezes, sinto uma tristeza que não passa, mas não digo nada e não nunca fui a psicólogo. Acho que não é para pessoas da minha idade… e que não quero ser um problema para ninguém”, confessa Isabel.
José Mangana de 81 anos vive sozinho na Covilhã, e sem família. A solidão, as doenças crónicas e o luto marcaram os últimos anos, mas a saúde mental continua a ser um tema à parte.

Para muitos idosos, o hospital é o único sítio onde se fala de dores, cansaço e insónia mas raramente de problemas psicológicos que muitas vezes se transformas em complicações físicas como diz Miriam Silva, enfermeira do hospital da Covilhã.
Já Maria João Pessoa, enfermeira especialista em saúde mental do Hospital Pêro da Covilhã , quando questionada sobre a dificuldade dos idosos se abrirem quanto á sua saúde mental responde desta maneira.
Mas se a solidão e a tristeza marcam o dia a dia de muitos idosos na Covilhã, a realidade da saúde mental na cidade não se resume apenas ao silêncio das casas vazias. Na Cidade neve , a saúde mental divide-se entre dois mundos: o universitário, centrado no Gabinete de Apoio Psicológico (GAP) da UBI, e a comunidade em geral, que depende do Serviço de Psiquiatria e Psicologia do Hospital Pêro da Covilhã.
O GAP é um dos principais pontos de apoio para a comunidade académica. Está disponível para estudantes de todos os ciclos, docentes, investigadores e colaboradores, e oferece consultas de apoio psicológico individual, intervenção em crise, terapia de grupo, grupos de apoio, workshops e sessões de relaxamento. Desde 2023, a UBI tem reforçado a promoção da saúde mental com o projeto “Altamente Saudáveis.UBI”, que inclui a Linha de Apoio LãSUBI, uma linha de apoio entre pares, e outras iniciativas de prevenção e promoção do bem-estar.
O acesso ao GAP é feito por marcação prévia, com consultas individuais e acompanhamento marcado no final de cada sessão. Para alunos, as sessões são gratuitas, embora a não comparência sem aviso possa ter um custo simbólico de 5€. As consultas decorrem no Centro de Apoio Médico e Desportivo da UBI, na Quinta do Convento de Sto. António, e também noutras localizações da Faculdade de Ciências da Saúde e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Apesar do reforço de apoio, a procura tem aumentado nos últimos anos, o que pode levar a tempos de espera para a primeira consulta. A UBI tem respondido com mais recursos, como a linha de apoio entre pares e a articulação com outros serviços, mas a realidade de muitos estudantes continua a ser de longas esperas, sobretudo para acompanhamento mais prolongado.
O Serviço de Psiquiatria e Psicologia do Hospital Pêro da Covilhã é o principal ponto de acesso à saúde mental para a comunidade em geral, incluindo jovens, adultos e idosos da Covilhã e da região.

No Hospital Pêro da Covilhã, a realidade é de listas de espera longas para psiquiatria e psicologia. A espera é longa dependendo da gravidade do caso e da disponibilidade de profissionais.
“Temos muitos pedidos . A procura aumentou muito nos últimos anos, especialmente entre jovens”, explica Maria João Pessoa, “Fazemos triagem rigorosa, mas há muita gente que fica em espera e, entretanto, o sofrimento aumenta.” E o que significa este tempo de espera? Maria explica.
Mas se a espera no SNS é uma realidade comum, na cidade há, ainda assim, várias portas de entrada para quem precisa de apoio.

Na Covilhã, há várias portas de entrada para quem precisa de apoio:
Hospital Pêro da Covilhã: serviço de psiquiatria e psicologia para adultos e jovens, com triagem e encaminhamento para casos urgentes. https://www.sns.gov.pt/entidades-de-saude/unidade-local-de-saude-da-cova-da-beira/)
GAP – Gabinete de Apoio Psicológico da UBI: apoio psicológico gratuito para estudantes, docentes e colaboradores da UBI, com consultas individuais, grupos de apoio e workshops. (https://gabap.ubi.pt)
Página de apoio psicológico na UBI: https://www.ubi.pt/entidade/SASUBI_apoio_psicologico
GAPP – Gabinete de Apoio Psicológico e Psicoterapia da Covilhã: serviço de psicologia clínica e psicoterapia, com acesso gratuito ou a baixo custo, dependendo do caso.
Clínicas privadas: vários psicólogos e psiquiatras em consultório privado, com tempos de espera mais curtos, mas com custos mais elevados.
Associações e grupos informais: Encruzilhadamente(
https://wwww.asmcbencruzilhadamente.com/encruzilhadamente/contactos ) capelanias, movimentos juvenis e grupos de apoio entre pares, que oferecem escuta ativa, grupos de reflexão e atividades comunitárias.
Mas, para muitos, o acesso a esses serviços formais não é fácil, rápido ou suficiente. É então que entram em cena as estratégias informais, muitas vezes a primeira e única linha de apoio no dia a dia.
Para Rodrigo a sobrevivência passa por estratégias informais: redes de amigos, apoio familiar, atividades comunitárias, religião, desporto e grupos de apoio entre pares. Para além disso há também um recorrer ao UBImedia, tendo como uma das suas importantes medidas a prevenção da saúde mental dos alunos da Universidade.
“O núcleo de comunicação é, para muitos de nós, uma segunda família. Quando alguém está mal, os colegas estão atentos, ajudam a ligar ao GAP, ou simplesmente ouvem”, diz Francisco Venâncio, presidente do Núcleo de Comunicação da UBI.
Mas estas estratégias têm limites. “A amizade ajuda, mas não substitui um psicólogo. Há situações graves como depressão, ideação suicida, transtornos de ansiedade severa em que é preciso ajuda profissional. O problema é que, muitas vezes, essa ajuda demora a chegar.”
Mas se as redes de amigos, a família e os grupos informais são uma primeira linha de apoio, a verdade é que a dimensão do problema vai muito além do que essas redes conseguem suportar.
Sintomas de saúde mental em Portugal 2025:

Em Portugal, quase metade dos jovens entre 18 e 24 anos apresentou sintomas de saúde mental no último ano. Na Covilhã, estudantes deslocados dizem que a ansiedade e o burnout são constantes, sobretudo no 2.º e 3.º ano.
Os números nacionais mostram que o problema é estrutural. Segundo o Estudo Nacional de Saúde 2025, quase metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos em Portugal apresenta sintomas de ansiedade, burnout, ataques de pânico ou depressão. Na Covilhã, este retrato reflete-se na vida de muitos estudantes que se deslocam da sua terra para a UBI: longe da família, com pressão académica, saudade e, muitas vezes, com pouco apoio emocional.
Mas há um fosso entre sentir necessidade de ajuda e conseguir acesso a cuidados. O mesmo estudo indica que, em Portugal, cerca de metade das pessoas que sentem necessidade de ajuda psicológica ou psiquiátrica não a procuram. Na Covilhã, muitos jovens e idosos sobrevivem com apoio informal de amigos, família e grupos de apoio já que o sistema público está sobrecarregado e o privado é caro. Maria João reage ao ver estes números de ansiedade e burnout a aumentar:
Tempos de espera em psiquiatria em hospitais portugueses 2022

Em hospitais portugueses, doentes muito prioritários podem esperar até seis meses por uma consulta de psiquiatria.
No Hospital Pêro da Covilhã, a realidade é de listas de espera longas para psiquiatria e psicologia, assim como no resto do país onde há a possibilidade de pacientes passarem meses sem serem atendidos.
Mesmo que a procura tenha aumentado muito nos últimos anos, especialmente entre jovens, o número de psiquiatras e psicólogos não acompanhou, o que se traduz em listas de espera longas.
Viver com problemas de saúde mental no interior é, muitas vezes, viver numa espera: pela consulta que não chega, pela vaga que tarda, pela coragem de falar em voz alta sobre o que dói. Na Covilhã, entre quartos de estudantes e casas de idosos, o sofrimento reparte-se entre longas listas de espera, o peso do estigma e um país onde quase metade dos jovens adultos já reportou sintomas de ansiedade, burnout, ataques de pânico ou depressão no último ano, mas muitos continuam sem acesso regular a apoio especializado.
Nesse silêncio, contudo, há resistência. Redes de amigos, família, grupos universitários, paróquias e associações tornam-se linhas informais de emergência, ocupando o espaço onde o Serviço Nacional de Saúde. A saúde mental na Covilhã é, assim, um retrato ampliado de Portugal: um país com elevada prevalência de problemas psicológicos e respostas ainda insuficientes, onde a primeira ajuda continua, muitas vezes, a nascer fora do consultório, numa conversa, numa escuta atenta ou no simples gesto de não deixar ninguém sozinho.
Esta reportagem baseia-se em casos concretos e em dados nacionais, mas não pretende representar toda a realidade da Covilhã nem substituir o diagnóstico ou o acompanhamento clínico.













