A cidade neve recebe turistas, famílias e expositores.
À entrada da Praça do Município, o cheiro a filhós fritas mistura‑se com o frio da serra e com a música de Natal que sai das colunas. As luzes atravessam a praça de um lado ao outro e, entre barracas de madeira, há crianças a correr com copos de chocolate quente na mão enquanto os pais comparam preços de queijos e licores para a mesa da consoada.
É neste cenário que se instala, durante dezembro e os primeiros dias de janeiro, o Mercadinho de Natal da Covilhã, integrado no programa “Natal com Arte”, que enche o centro histórico de animação, artesanato e gastronomia típica.

No centro do mercado está Ana Rodrigues, artesã covilhanense que, apesar de ter participado durante vários anos consecutivos, este ano decidiu não montar banca no mercadinho. Enquanto observa cachecóis numa barraca, confessa que dezembro é o mês em que mais sente a cidade “acordada”. “Aqui encontro pessoas que não vejo o resto do ano, muitos emigrantes e turistas que se apaixonam pelas peças porque sentem que levam um bocadinho da Covilhã com eles”, conta.
A presença de Ana no mercadinho tornou-se, ao longo dos anos, parte do calendário da família. “Não é só vendas. É conversa, partilha de histórias, ouvir quem vem de fora dizer que nunca tinha visto uma cidade assim, com neve lá em cima e luzes cá em baixo.” afirma a artesã.
Entre os visitantes, há cada vez mais turistas que aproveitam o mercadinho como ponto de partida para conhecer a região. Marta Simões veio de Lisboa com o namorado para “uns dias de descanso e frio a sério”. De mochila às costas e gorro de lã, conta que descobriu o evento nas redes sociais. “Gostámos da ideia de poder subir à serra de manhã e, ao fim da tarde, vir beber um vinho quente e provar queijos e doces aqui no centro”, explica, enquanto segura um saco com produtos regionais.
Marta diz que o mercadinho “ajuda a perceber melhor o que é o interior”. “Fala‑se muito da serra por causa da neve, mas aqui, nas barracas, é que vemos o que as pessoas fazem durante o ano todo. Dá vontade de levar metade das coisas para casa”, acrescenta, antes de seguir para outra banca de licores artesanais.
Ao final da tarde, a praça enche‑se de famílias que aproveitam a pausa do trabalho para dar uma volta pelo centro. Há pais a tirar fotografias com a árvore de Natal iluminada, crianças a escolher figuras para o presépio e estudantes da UBI que descem da universidade para comprar lembranças à última hora.
Com a neve a acumular‑se na serra, o movimento na baixa também muda. Vários expositores garantem que os fins de semana com mais frio são aqueles em que se vendem mais bebidas quentes, doces típicos e produtos regionais para levar em cabazes de Natal.
Ana Rodrigues nota a diferença: “Quando há neve, vêm mais carros, mais autocarros e mais gente. Nota‑se logo nas vendas. Há dias em que quem está a vender nas barracas não tem descanso”, admite. Já alguns comerciantes de gastronomia referem que, mesmo com as dificuldades económicas, “as pessoas não deixam de comprar pelo menos um doce, um queijo ou um licor para a mesa da consoada”, porque querem manter a tradição.
No fim de cada noite, quando as luzes começam a apagar‑se e as barracas se fecham, ficam na praça os restos de conversas, gargalhadas e sacos vazios que antes guardavam presentes. Para quem vive na Covilhã, o Mercadinho de Natal é mais do que um conjunto de barracas: é o lugar onde se cruzam vizinhos que não se viam há meses, emigrantes que regressam só nesta altura e turistas que descobrem a “cidade neve” pela primeira vez.
Entre artesanato, sabores da serra e um frio que obriga a enfiar as mãos nos bolsos, o Natal na Covilhã faz‑se na rua. E, no coração da cidade, é no Mercadinho de Natal que essas histórias se encontram.










