Às vezes, na faculdade, ouço a expressão “os melhores anos são os de estudante” e tenho vontade de me rir.
Para os trabalhadores-estudantes, essa ideia romântica de jantares de curso, tardes na biblioteca e noites de festa é um filme que vemos de fora.
Para muitos, como eu, a história muda.
A vida académica é um exercício de equilíbrio e autossuperação que, a qualquer momento, pode deixar cair tudo ao chão.
Ser trabalhador-estudante é viver em contrarrelógio. É escolher um domingo a trabalhar, porque no final do mês faz diferença, em vez de um domingo a descansar ou na esplanada a “beber copos”. É sair muitas vezes de um turno, a correr enquanto o meu almoço é um pacote de bolachas, para chegar à aula e tentar que o cérebro entenda o que já perdi.
Entre as obrigações do emprego e a matéria que o professor está a despejar no quadro. Estou sentada na sala a pensar em como vou organizar a minha próxima semana e a olhar para o e-mail para ver o que ficou por responder e que trabalhos ficaram por fazer.
Enquanto os olhos pesam, o café parece ser o único que me mantém direita.
O mais difícil não é o cansaço físico. Esse, com o tempo habituamo-nos.
O pior é a sensação de que estamos sempre a falhar. Falhamos com os amigos porque nunca podemos ir aos convívios, falhamos com o estudo porque o corpo pede cama em vez de livros e sobretudo, falhamos connosco mesmos porque sentimos que não estamos a aproveitar o curso como devíamos.
E depois há a falta de sensibilidade. Há quem ache que o estatuto de trabalhador-estudante é uma espécie de “passe livre” para facilitismos.
Não é.
Pelo contrário, é uma luta constante para provar que somos capazes, mesmo quando o sistema não está feito para nós. Os horários, os mil trabalhos e frequências e a falta de compreensão de que existe quem precisa mesmo de trabalhar.
É preciso dar voz a quem faz o curso enquanto trabalha e tem de escolher constantemente entre a cama e a vida social, enquanto tenta equilibrar tudo, para não ir abaixo.
Estudar é um direito, mas para muitos de nós, é uma conquista diária arrancada ao cansaço. No final, o diploma terá o mesmo que o dos outros, mas para nós, ele terá um peso que não se mede em notas, mas sim em horas de sono, cansaço acumulado, e acima de tudo alívio por finalmente ter acabado.




