Desde muito novos que nos é feita uma promessa silenciosa, como se fosse uma lei implícita: se a seguirmos, tudo vai dar certo. Estuda, dedica-te, esforça-te, termina o curso e terás sucesso, serás alguém. Como se isso nos garantisse uma vida estável e feliz.
Ouvimos isto durante anos. Em familiares que nos sobrecarregam com expectativas de um futuro brilhante, e até nos planos que nos traçam sem termos a oportunidade de opinar. Crescemos a acreditar que vai chegar um momento, um momento específico, em que encontramos o nosso caminho e deixamos de estar perdidos.
Mas depois esse momento chega… e o que encontramos é um vazio.
Terminamos um curso. Fechamos um ciclo de anos. E, de repente, o que era suposto trazer clareza… traz silêncio. Antes sabias a que horas tinhas de acordar, agora acordas sem motivo. Antes sabias para que sala ir, agora acordas sem rumo. Ficas com um espaço em branco no teu dia a dia, onde aquilo que mais se ouve é a pergunta para a qual ninguém nos ensinou a responder: e agora? O que vais fazer?
Não temos uma bomba-relógio nas mãos, mas parece que carregamos um calendário invisível, com prazos não escritos e silenciosos.
Quero um emprego estável (seja lá o que isso for), quero ser um orgulho para a minha família, etc… E, sem darmos por isso, começamos a medir o tempo como se estivéssemos atrasados.
Semanas passam, meses passam e até anos. Já parece demasiado, não? E com o passar do tempo aquela pergunta inocente – “então já estás a trabalhar na tua área?” –começa a deixa de soar a curiosidade, mas mais como um lembrete de que o relógio está a passar.
O mais estranho é que este prazo não vem de um lugar específico, mas sim da nossa própria mente a tentar sabotar-nos.
Mas talvez a pior parte nem seja essa.
Enquanto ainda estás a tentamos perceber o nosso caminho, há sempre alguém que parece já tê-lo encontrado. Alguém que conseguiu, que avançou, que fala com uma certeza que nós ainda não conseguimos fingir.
E, de repente, deixamos de olhar para nós e começamos a olhar para os outros. Para o que conquistaram. Para o que nós ainda não temos. Como se a vida fosse uma corrida estamos a ser ultrapassados.
Sentimos que estamos a ficar para trás, mas a questão é: estamos a ficar para trás em relação a quê exatamente?
Acho que ninguém sabe bem a resposta. Mas, mesmo assim, sentimos o peso dela.
E é aí que a dúvida deixa de ser só dúvida.
Passa a ser sobre o nosso caminho.
Sobre se escolhemos mal. Se devíamos ter feito algo diferente. Se perdemos tempo. Se falhámos antes sequer de começar.
A incerteza deixa de ser superficial e passa a consumir-nos.
E há dias em que isso pesa mais do que devia. Dias em que a comparação, os prazos invisíveis e o silêncio se juntam todos no mesmo lugar e tudo parece ser demasiado para aguentarmos.
Quase ninguém fala sobre isto. Como se admitir fosse fraqueza.
Mas não é.
Porque reconhecer o teu tempo também é força.
Talvez o problema nunca tenha sido esse.
Talvez o erro esteja na ideia de que existe um “tempo certo”. Como se a vida fosse linear, previsível, como se qualquer desvio fosse um atraso.
Mas não é.
Ninguém nos ensina o que vem depois. Ninguém nos ensina a lidar com o vazio, com a dúvida, com o facto de que crescer também é não saber.
E talvez esteja tudo bem nisso.
Porque, no meio de tanta pressa, esquecemo-nos do essencial: nem todos os caminhos são iguais, nem todos os tempos são os mesmos.
E talvez não estejamos atrasados.
Estamos apenas a chegar ao nosso tempo.




