Flores num dia, silêncio no resto do ano

No dia em que se celebram as mulheres, há flores, mensagens bonitas e discursos cheios de promessas. As redes sociais enchem-se de homenagens, como se, por 24 horas o mundo fosse um lugar mais justo. 

Mas no dia seguinte, tudo volta ao normal. 

Na televisão, passa mais uma notícia breve: “mulher encontrada morta”. Dizem a idade, a cidade, e quase sempre a mesma frase, “o suspeito é o companheiro”. A notícia dura minutos, ou até mesmo segundo, mas não tem flores nem discursos. 

E, no entanto, há histórias inteiras por se contar. 

Há mulheres que vivem anos dentro de casas onde o medo se tornou rotina, onde o silêncio pesa mais do que qualquer grito. Há vizinhos que desconfiam, amigos que notam, mas ninguém sabe bem até onde pode ir. E há também aquelas que tentam sair, que ganham coragem, que fazem queixa, mas que acabam por voltar. 

Voltam porque têm medo, porque dependem, porque acreditam que pode mudar, ou, simplesmente, porque o sistema não as protege como devia. 

E, muitas vezes, nem chega a ser uma questão de desconhecimento, sabe-se quem são. São companheiros, ex-companheiros, nomes que já passaram pelas autoridades, histórias que já foram contadas antes, mas ainda assim continuam livres. Voltam às mesmas casas, às mesmas portas que nunca se deviam voltarem a abrir-se. 

Às vezes, há queixas, há sinais, mas raramente há tempo suficiente entre o aviso e a tragédia. E é nesse intervalo, curto, repetido e ignorado, que a injustiça se instala.  

Depois, quando acontece o pior, fala-se em tragédia, em choque, em surpresa, como se não houvesse sinais antes, como se não pudesse ter sido evitado, como se tudo isto não fosse já uma história conhecida, apenas com nomes diferentes. 

E talvez seja isso que mais inquieta, não é só o silêncio. É o hábito. O não haver justiça para estas vítimas. A forma como estas histórias se repetem, sem que nada mude verdadeiramente, começando a parecer iguais, distantes e quase normais.  

No próximo dia de celebração, as flores vão voltar, as palavras também, mas algures haverá alguém a viver mais uma noite com medo, longe das homenagens e perto de uma realidade que ninguém publicou. 

E talvez o problema não esteja na ausência de datas para recordar, mas sim na falta de ação nos momentos em que, apesar do esforço das associações de apoio, ninguém está a observar. 

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