Uma vida inteira ao serviço do Estado

Fernanda Tavares entrou no serviço público por acaso. Respondeu a um anúncio do jornal e acabou por dedicar quase 40 anos da sua vida ao Ministério da Justiça. A história desta funcionária pública que começou como estagiária sem salário, terminou como chefe de serviços, é o retrato de várias décadas da função pública portuguesa, atravessando o Estado Novo, o 25 de abril e as profundas transformações administrativas do país.

 

Tudo começou nos anos 50, quando tentou uma vaga de datilógrafa. Não ficou de imediato por não saber escrever à máquina, mas em vez de desistir, optou por ficar a estagiar, sem qualquer remuneração, durante três anos. “Fiquei lá na mesma, a praticar, sem ganhar nada”, recorda. A precariedade era aceite como parte do caminho.

 

 

Em fevereiro de 1957, entrou finalmente na Procuradoria-Geral da República. Trabalhou quatro anos e meio como assalariada fora do quadro. Desempenhava funções permanentes sem os direitos associados à carreira pública. Em 1961, abriu uma vaga no Ministério da Justiça, concorreu, ficou em primeiro lugar e passou finalmente ao quadro. A partir daí, nunca mais saiu do ministério.

Durante o regime de Salazar, a progressão profissional era limitada. Passou 18 anos na mesma carreira, num contexto marcado pela falta de liberdade, pela censura e pela vigilância da PIDE. “Não se podia falar, não se podia nada”, recorda. Tudo mudou após o 25 de abril de 1974. Para além do fim da repressão política — “já não tínhamos a PIDE às costas” — abriu-se um novo ciclo de oportunidades. Os concursos passaram a ser regulares, as habilitações valorizadas e o mérito reconhecido. Funcionários ligados ao antigo regime foram saneados; só num dia, 18 chefes foram afastados do ministério.

Foi assim que a sua carreira ganhou impulso. Passou de terceiro oficial a primeira oficial, depois a principal e, graças a avaliações consecutivas de “muito bom”, foi escolhida para chefe de departamento na contabilidade. Não foi por favor nem por antiguidade automática: foi por desempenho. “Fiz sempre concurso”, sublinha.

Passou por vários serviços: desde o registo de entradas e saídas de expediente até ao cálculo de ajudas de custo, horas extraordinárias e vencimentos. Durante anos, participou no processamento salarial de múltiplos organismos: Procuradoria, Polícia Judiciária, Serviços Prisionais e outros departamentos então dependentes do Ministério da Justiça — tudo feito à mão, num tempo sem computadores.

 

 

A contabilidade tornou-se a sua área de eleição. Durante anos, lidou com orçamentos, dotações, vencimentos e planeamento financeiro. Mais tarde, já perto da aposentação, assumiu a chefia do Aprovisionamento e dos Assuntos Gerais, uma função sensível. Era responsável por todas as compras do ministério, desde material de escritório ao mobiliário, sempre dentro de rigorosas dotações orçamentais. Cada transferência exigia autorização e cada cêntimo não gasto tinha de ser devolvido ao Ministério das Finanças.

Geriu também equipas numerosas, incluindo 38 motoristas e uma frota usada por engenheiros e arquitetos que fiscalizavam obras de tribunais em todo o país. Organizava escalas, distribuía senhas de combustível e lidava com queixas e resistências. “É por escala, é por escala!”, dizia. Ser mulher em cargo de chefia nunca foi, para si, um obstáculo. “Nunca ninguém se meteu comigo, que eu não deixava.”

Mas a vida no ministério não era só trabalho. Havia um forte espírito de camaradagem. Almoços partilhados, conversas, anedotas e apoio mútuo faziam parte do quotidiano. Num edifício onde chegaram a trabalhar centenas de funcionários, criou-se um sentimento de pertença que hoje, na sua visão, se perdeu. “Nós antigamente não éramos assim uns para os outros”, lamenta, apontando o aumento do individualismo e da competição nos tempos mais recentes.

Reformou-se em 1997, com quase 40 anos de serviço. Quando saiu, disse para a colega “Eu vou-me embora e tu vens para o meu lugar”, garantindo a vaga às colegas mais novas.

 

Hoje, olha para trás com alguma nostalgia. Gostou do que fez e orgulha-se do percurso. O trabalho foi mais do que uma obrigação: foi uma casa. “Ali era a minha segunda casa. (…) Apesar de estar [reformada], não gosto de estar em casa. Mas agora tenho que estar, não é? Mas…é muito melhor a gente estar a trabalhar e ter um ambiente bom.” Fernanda despediu-se do trabalho com a atribuição pelo Secretário-Geral do Ministério da Justiça de um louvor público pela sua dedicação e profissionalismo ao longo de uma vida inteira ao serviço do Estado.

 

 

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