Subida rápida, descida lenta: a ilusão dos preços dos combustíveis

Em Portugal, abastecer o carro sempre foi um exercício de equilíbrio. Mas quando olhamos para os preços nas bombas de combustível e vemos a gasolina comum (95) a ultrapassar os dois euros por litro, percebemos que o problema se tornou uma questão de escala. Já não se trata de uma despesa variável no orçamento familiar; é um imposto traiçoeiro sobre o direito à mobilidade.

A retórica oficial é desgastada e previsível, com as habituais explicações externas: tensões geopolíticas no Médio Oriente, bloqueios de vias navegáveis estratégicas (Estreito de Ormuz) ou a volatilidade do preço do barril de Brent. Ninguém nega a instabilidade do mercado internacional, mas a questão fundamental que nos deveria indignar não é a tempestade global, mas sim o vício fiscal do Estado e a assimetria do mercado nacional.

É difícil aceitar o argumento de que estamos a favor do mercado quando cerca de 50% a 55% do preço que pagamos por litro vai diretamente para o Estado. Além disso, o mercado funciona a duas velocidades: quando o preço do petróleo sobe no exterior, a reação nas bombas de combustível é imediata; quando desce, o alívio chega lentamente, disfarçado com desculpas sobre “alívios no imposto”.  O depósito de gasolina não deveria exigir a mesma consideração financeira que um eletrodoméstico.

Em Portugal, o combustível não é um luxo, é o motor da economia real. Este estrangulamento financeiro é profundamente injusto e desigual e enquanto os decisores políticos elaborarem planos para os transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, irão esquecer-se do resto do país onde há poucas alternativas ao transporte individual.

No interior e fora das grandes cidades, o carro não é um capricho; é a única forma de ir trabalhar, levar os filhos à escola ou chegar a um hospital. Tentar esconder o problema através de descontos em aplicações ou uma procura constante por gasolina low-cost nada mais é do que uma forma de anestesiar a realidade. Enquanto o combustível for tratado como riqueza, a mobilidade continuará a ser uma miragem pesada na carteira de quem produz.

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