O outro lado do 11 de setembro de 1985

Cidade de Mangualde tornou-se o centro do caos após a colisão entre dois comboios em Alcafache

Foi a 11 de setembro de 1985, pelas 18h30 da tarde. E era mais um dia normal na circulação ferroviária na Linha da Beira Alta. Com a ligação entre Porto e Paris, em carruagens repletas de emigrantes que regressavam a França, vinha o Sud Express, que circulava com um atraso considerável. Do outro lado, estava o comboio regional que assegurava a ligação entre as estações da Guarda e Coimbra.

O cruzamento era, por regra, efetuado na Estação de Mangualde. Após algumas comunicações, e tendo em conta o atraso do expresso internacional, o comboio regional obteve luz verde para seguir. Em Nelas, também foi dada a mesma ordem ao Sud Express. Após a comunicação tardia do avanço do comboio regional por parte de Mangualde, o pânico instalou-se e, apesar dos esforços para tentar alertar o comboio regional, sucedeu o pior.

Poucos segundos depois, os dois comboios colidiram, o que provocou um incêndio, fomentado pelo combustível das locomotivas e pela madeira de que parte dos vagões eram construídos.

Poucos momentos depois, o caos era visível. Foto: Agência Lusa

Em Mangualde, o som das sirenes dos bombeiros colocou uma cidade inteira em alerta. Apesar de estar de férias, António Forte foi chamado para auxiliar um colega do Tribunal com os relatórios das autópsias no hospital local. As dificuldades eram visíveis: “Eram os médicos a fazer autópsias, os bombeiros a trazer os mortos, e alguns já não vinham inteiros. Estava tudo um caos”.

Mesmo a viver a sinistralidade do acidente, e com apenas dois médicos para mais de uma centena de autópsias, estes cenários já faziam parte do dia-a-dia de António: “O acidente todos lamentavam, é verdade. Mas a mim não fazia grande diferença, já estava habituado com as autópsias.”

Mas, no momento, também houve pessoas a viver o ambiente, sem percecionar bem o que as rodeava. Lurdes Patrício, na altura com sete anos, estava na Estação de Mangualde, à espera do pai que estaria a chegar com correio para descarregar no Sud Express. O conhecimento do acidente chegou através do ambiente invulgar vivido no local: “Estávamos a aguardar normalmente, até que nos apercebemos do movimento anormal dos colaboradores da estação e rapidamente se falou que tinha ocorrido um acidente”, explica.

Apesar da pouca perceção relativamente ao ocorrido, há uma memória que o tempo dificilmente apagará: “Lembro-me de estar junto à linha, e um veículo amarelo de manutenção da linha parou. A porta abriu-se e trazia vítimas do acidente. Só me recordo de uma mãe com uma rapariga de aproximadamente 5 anos, e vinham descalças e cheias de pó”, acrescenta.

Enquanto uns ainda processavam o que tinha ocorrido, noutros despertou um sentido de curiosidade. Joaquim Pereira residia perto do hospital, e ao ver feridos a serem tratados por pessoas da vizinhança, foi com amigos observar o que tinha acontecido. “Vimos várias ambulâncias a chegar com feridos e mortos, e outras só com membros de corpos humanos. O ambiente era de muita gritaria e choro”, conta Joaquim.

Memorial do acidente dos comboios em Moimenta-Alcafache.

Nos dias seguintes, os destroços permaneciam e a dor junto a eles ficava. Joaquim ainda se recorda de estar no local: “Fui lá com o meu pai, um ou dois dias depois. Só me recordo de ver ainda muito fumo, destroços e pessoas. Um horror”.

Após algum tempo, o julgamento relativo ao acidente teve lugar no Tribunal de Mangualde. Num processo que foi demorado, António ainda se recorda do decorrer do mesmo: “O processo demorou muito tempo em tribunal, e chegou a ser adiado algumas vezes. A única coisa que foi certa é que ninguém foi responsabilizado e nenhum dos chefes de estação foi para a cadeia”, comenta.

Falta de provas documentais, de registos de comunicações e versões contraditórias, ambos os chefes das estações terminaram absolvidos por falta de evidências, não se tendo apurado o culpado do acidente. A revolta da população local era notória e deu lugar a uma dor que muitos ainda hoje vivem.

Hoje, 41 anos depois, os 150 mortos e 170 feridos continuam na memória dos habitantes da região, sendo recordados com missa campal junto do memorial do acidente.

Foto: Agência Lusa

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