Urbi et Orbi: Ao longo do seu percurso, passou pela escola, como professor, pela Igreja, como padre, e pelo jornalismo, área em que concluiu um mestrado e dirigiu o Notícias da Covilhã. Como começou este caminho?
Luis Miguel Freire: Desde miúdo que achava que Deus me chamava a ser padre, mas foi durante o curso na UBI que tomei a decisão de o ser. Mais tarde, o bispo da Guarda pediu-me para estudar Jornalismo e assumir a direção do Notícias da Covilhã, onde vivi três anos de luta para o manter vivo.
U@O: É responsável pela Pastoral Universitária, professor de Moral, participa no CEFAS [Centro de Espiritualidade Francisco Álvares] e acompanha jovens e casais, nomeadamente através das equipas de casais e do Curso de Preparação para o Matrimónio. De que forma estes contactos têm influenciado a sua missão como padre e professor?
LMF: Realizo-me como padre, mas preciso do mundo juvenil e da escola para a minha sanidade mental. A conversa de sacristia é cansativa. Por isso, encontro um contraponto no mundo juvenil, transmitindo a mensagem de Jesus às gerações mais novas. Hoje, isso é cada vez mais urgente, porque os jovens precisam de referências que já não encontram. Acho que Jesus é a resposta para as ansiedades que muita gente vai sentindo.
U@O: Estas experiências colocaram-no em contacto com realidades muito diferentes. O que lhe ensinaram sobre o ser humano e sobre a forma como nos relacionamos com os outros?LMF: O Papa Francisco, na Jornada Mundial da Juventude de 2023, em Lisboa, disse: “Deus ama-nos tal como somos, não como gostaríamos de ser ou como a sociedade gostaria que fôssemos.” Ama-te sem maquilhagens.
A grande missão é mostrar que as pessoas são amadas por Deus tal como são, apresentando um Deus próximo, e não castigador. Quando me sinto mais próximo de Deus, isso torna-me mais humano. É algo que aprendi com as pessoas com quem trabalho e contacto diariamente.
U@O: Quem acompanha as suas missas e homilias reconhece-lhe uma forma muito própria e próxima de comunicar. Alguma vez enfrentou resistência, críticas ou até censura por se afastar de um estilo mais tradicional?
LMF: Sim, muitas vezes. Uma vez, insurgi-me contra algumas ideias de partidos mais extremistas, sobretudo relacionadas com a imigração ou a sexualidade. Um senhor veio ter comigo dizer-me que a homilia não podia servir para fins políticos.
A minha resposta foi precisamente aquilo em que acredito: não estou a usar a política, estou a usar o Evangelho.
Temos de ir atualizando a forma de comunicar para que a mensagem continue a ser atual.
Quando começo a gaguejar, sou eu a falar. Quando falo bem, é Deus que está a falar por mim.
Num mundo cada vez mais digital e acelerado, qual deve ser o papel da Igreja?
A Igreja tem de colocar sempre a pessoa no centro de tudo.

U@O: O Papa Leão XIV alertou para os riscos que a inteligência artificial pode representar para a dignidade humana. Como interpreta essa preocupação?
LMF: Passámos a fazer parte de um algoritmo que não tem em conta as nossas emoções, os nossos sentimentos ou as nossas circunstâncias, como se nos quisesse transformar em robôs automatizados. Um robô pode satisfazer as nossas necessidades urgentes, mas o abraço de um robô não existe. E nós não podemos viver sem abraços. A Igreja tem de continuar a falar disto.
U@O: Como viveu a pandemia, enquanto padre e professor, habituado ao contacto com as pessoas? Considera que esse período alterou a forma como vivemos a fé e nos relacionamos com os outros?
LMF: A pandemia levou-me a dedicar-me mais à oração pessoal e a criar uma página no Facebook para contactar com as pessoas e dar a conhecer o que a paróquia fazia. O episódio do papel higiénico mostrou o individualismo das pessoas. Depois da pandemia, ficámos mais individualistas e isolados, e a indiferença tomou conta das relações.
Quando a humanidade já não chora pelo mal dos outros, é tão grave que temos de pensar para onde estamos a caminhar.
U@O: Que importância tem o CEFAS na sua vida? O que tem aprendido com essa experiência?
LMF: Aprendo todos os dias, sobretudo a estar atento às necessidades dos jovens, que precisam muito de uma referência. Todas as quartas-feiras, tens o teu espaço, o teu lugar. Podes vir jantar, rezar e conversar. Costumo sair desses encontros a pensar: “Que bom que isto aconteceu”.
U@O: Que mensagem gostaria de deixar aos jovens, tanto aos que vivem a sua fé como aos que estão mais afastados?
LMF: Gostei da expressão do senhor bispo na bênção aos finalistas: “Não reduzam Deus a uma equação que não conseguem resolver”. Como não consegues sentir ou perceber Deus, limitas-te logo a negá-lo…
Miguel Torga escreveu: “Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer”.
U@O: Que marca gostaria de deixar nos fiéis?
LMF: Quando morrer, gostaria que dissessem: “Olha, este esforçou-se para fazer com que a mensagem de Jesus Cristo chegasse às pessoas”. E que me recordassem como alguém que tentou ser uma boa pessoa.
U@O: Quem é o Luís Miguel, para além de todos os papéis que assume no dia a dia?
LMF: É um ser insatisfeito, que anda à procura de Deus. Ri facilmente, chora sozinho e em silêncio e luta contra a injustiça. Gosta de viajar, ler e ir a concertos. Tem pouca apetência para a inércia e sofre de alguma hiperatividade.
U@O: É feliz?
LMF: Sou!
U@O: Tem a certeza?
LMF: Todas!
























