Tirar a carta de condução é, para muitos jovens portugueses, um
dos primeiros grandes investimentos da vida adulta. A procura de autonomia pode rapidamente transformar-se numa experiência marcada por custos, pressão e vários mitos que persistem há décadas. Por trás dessa decisão existe um mercado que funciona com regras próprias onde vários fatores podem influenciar toda a experiência do aluno. Em Portugal, existem cerca de 1200 escolas, estando registadas 716 na ANIECA (Associação Nacional das Escolas de Condução Automóvel).
O valor da carta de carro (categoria B) varia de escola para escola, de região para região e até consoante o percurso de cada aluno. A inscrição, o número de aulas práticas necessárias, os exames e eventuais chumbos acabam por definir o custo final. Em caso de chumbo, os valores de repetição podem variar entre 50 e 350 euros no exame teórico e entre 100 e 350 euros no exame prático.
A procura também não é constante ao longo do ano e difere se a escola se situa perto de universidades ou não. Instrutores de terras pequenas referem que existem períodos em que as escolas recebem mais inscrições. Estes estão normalmente ligados às pausas escolares e ao verão, quando muitos jovens têm mais disponibilidade para iniciar ou acelerar o processo. Já em localidades com universidade presente a procura é constante. A Covilhã ilustra bem esta realidade. Com milhares de estudantes da UBI a chegarem todos os anos à cidade, as escolas de condução locais vivem uma procura praticamente constante, alternando entre alunos universitários durante o período letivo e residentes nos meses de verão.
O preço médio da carta em Portugal ronda entre os 450€ e os 950€, um valor considerado quase impossível de cobrir sendo estudante. Desta forma, o custo da carta continua a ser apontado como uma das principais barreiras para muitos jovens. André Mouro, estudante da UBI, admite que, sem ajuda familiar, dificilmente teria conseguido avançar com o processo:
Perante o elevado custo da carta, têm sido apresentadas propostas alternativas de acesso à formação. O setor das escolas de condução em Portugal tem sido alvo de novos debates nos últimos anos. Surgem propostas que procuram associar a obtenção da carta de condução a programas de incentivo ligados às Forças Armadas, no contexto do voluntariado militar jovem, como o programa “Defender Portugal”. Estas medidas têm sido vistas de forma distinta dentro do setor, entre oportunidades de apoio à formação e possíveis impactos na forma tradicional de aprendizagem.
“Acho que a medida que querem implementar é com o objetivo de levar mais jovens para as forças armadas porque estão com muita falta de pessoal. No entanto, antigamente já era assim (…) Não vejo isso como um obstáculo para as escolas. Até porque os jovens de hoje em dia não estão dispostos aos sacrifícios que se faz dentro das forças armadas”, refere Marta Batista, instrutora de condução na cidade de Viseu.
Outra medida que tem sido alvo de debate é a possibilidade de os candidatos praticarem condução acompanhada por um tutor, normalmente um familiar, prevista na Lei n.º 14/2014 . A ideia não é substituir as aulas na escola de condução, já que os alunos continuam obrigados a fazer toda a formação e exames. Funciona mais como um complemento para ganhar prática extra. Mesmo assim, a proposta divide opiniões entre alunos e instrutores. Cristiana Neves, ex-aluna, refere como seria a experiência tendo os pais como tutores de condução: “Se daria situações de stress ter aulas com os meus pais? Talvez um bocado, tendo em conta que entre a minha mãe e o meu pai as conduções são bastante diferentes, logo iam me ensinar de formas diferentes e ia dar conflitos”.
Quem já tirou a carta de condução, ou conhece alguém que o tenha feito, certamente já ouviu algumas das histórias que circulam sobre os exames. Durante décadas, muitos portugueses habituaram-se a chamar “engenheiro” ao examinador de condução, uma vez que antigamente havia o mito de que para ser examinador era necessário o curso de engenharia mecânica.
Entre os mais comuns está também a suspeita de que os examinadores beneficiam financeiramente quando os alunos reprovam. Apesar de reconhecerem que as reprovações representam um custo adicional para os alunos e, consequentemente, uma fonte de lucro para escolas de condução e centros de exame, os profissionais do setor sublinham que o principal objetivo do ensino da condução é formar condutores preparados e seguros. Além disso, a reputação das escolas desempenha um papel importante, uma vez que taxas elevadas de reprovação podem influenciar a escolha do indivíduo. Porém entre os alunos, esta perceção ainda continua presente, com alguns a acreditar em que determinadas reprovações resultam de um interesse económico.
Entre conversas de café, relatos de amigos e experiências pessoais, estas ideias continuam a fazer parte do imaginário de muitos candidatos.
Mas quem são as pessoas responsáveis por formar estes futuros condutores?

O segredo para chegar a instrutor passa por um grau de escolaridade igual ou superior ao 12º ano, carta de condução da categoria B há mais de 3 anos e registo criminal sem impedimentos. Depois, terá de frequentar um curso de formação inicial numa entidade certificada pelo IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes). Apesar de esta ser uma profissão séria e de cariz educacional, há sempre histórias engraçadas para contar. Marta Batista, apesar de estar na profissão há quatro anos, já presenciou várias histórias caricatas.
Apesar dos momentos cómicos, a realidade dos exames continua a ser um dos aspetos que mais preocupa os candidatos.
Os erros mais comuns nos exames de condução vão desde distrações a nervosismo que levam à não colocação de piscas, desrespeito dos sinais de trânsito e à falta de cedências de passagem. Os nervos à flor da pele, segundo os alunos, são causados pelo dinheiro que terão de pagar caso chumbem ou pela pressão colocada pelo próprio examinador na hora do exame. Joana Ferreira, portadora de duas categorias na carta de condução, fala sobre as duas experiências que teve: “O exame da carta de mota foi traumático, o examinador era super super mau, nem sequer me deu bom dia, falava entre dentes a dizer que se não andasse um pouco mais rápido ele ia me chumbar e por causa disso já comecei a ficar com pressão, não parava nos stops e já não tinha tanta atenção. No exame de carro, já foi totalmente diferente, o senhor era super simpático. Ele chegou, deu bom dia e contava piadas para deixar as pessoas à vontade.”
Na Páscoa deste ano, a Brisa Auto Estradas lançou um anúncio de sensibilização à segurança rodoviária para chamar a atenção dos condutores para distrações na estrada. Nesse anúncio é apresentado o Zé, considerado “o português que mais vezes chumbou no exame de condução”. O anúncio do Zé pode parecer cómico ou fictício mas representa a realidade das estradas portuguesas, baseando-se em factos reais segundo o IMT.
A visão dos instrutores de condução é bastante diferente da do público. Claudia Runa, instrutora de condução, não vê o anúncio como uma situação leve mas sim como uma preocupação.
A preocupação dos instrutores vai, por isso, muito além da aprovação no exame. Mais do que garantir que um aluno consegue obter a carta, o objetivo passa por assegurar que está preparado para enfrentar, de forma segura e responsável, as situações que encontrará na estrada.
Entre custos elevados, propostas de mudança, mitos que persistem e a pressão dos exames, tirar a carta de condução continua a ser muito mais do que aprender a conduzir. Por trás da autonomia que muitos procuram existe um setor que envolve formação, responsabilidade e segurança rodoviária.















