As motivações por detrás da ida para África
Foram e continuam a ser mulheres esquecidas e invisíveis pela sociedade durante e depois da “missão de soberania do país”. Embora tivessem origens e trajetórias distintas, partilhavam um denominador comum: o motor que as empurrou para o cenário de guerra. Entre as várias razões para partir rumo às colónias, houve uma que se sobrepôs a todas as outras: o amor. Incapazes de suportar o abismo da distância e a tortura da incerteza, muitas escolheram trocar a segurança da metrópole pelo risco do desconhecido. Estar por perto não era um capricho, mas uma necessidade de sobrevivência emocional.
Rosa Redondo, de 79 anos, é uma das dezenas de mulheres que teve a sensação de que tinha encontrado “a pessoa certa”. Conheceu aquele que seria o companheiro de uma vida no ambiente intelectual de um cineclube universitário, quando terminava o penúltimo ano da licenciatura. Era como se estivesse à espera do marido. O namoro, breve, mas “intenso”, durou apenas nove meses até o marido se alistar na Marinha e ter sido destacado para a Guiné. Rosa diz que nessa altura “o pediu em casamento”, porque via que a maioria dos namorados que se separavam pela guerra e os casais em que a mulher ficava em Portugal não funcionavam. O casamento não era um ponto de chegada, mas o passaporte necessário para garantir que o “nós” sobrevivesse ao conflito.
“Temos duas hipóteses: casamos e vou contigo ou quando voltares telefonas-me. Não ir nunca foi opção. Nem para mim, nem para ele”.
Rosa acreditava que se era para estar com o marido, era para o acompanhar no bem e no mal. Até porque pertencia a uma geração que se via obrigada a “ser adulta mais depressa”. A identidade feminina estava ancorada na missão de ser o pilar de apoio do marido, um papel que Rosa assumiu não com passividade, mas determinação. “Curiosamente”, como diz a própria, os pais não colocaram qualquer entrave na sua decisão. Havia a ideia de que as dificuldades tinham de ser ultrapassadas e que faziam parte da vida. Para a família, acompanhar o marido era simplesmente o cumprimento do ciclo natural da vida, por mais adverso que fosse o cenário.

Também Marília Afonso não pensou duas vezes de seguir vida em África, primeiro em Angola, em São Salvador, depois em Moçambique, em Nampula, durante seis “longos” anos. Conheceram-se, de repente, num convívio na Academia Militar. O casamento aconteceu pouco depois, quase com a mesma rapidez com que a guerra lhe bateu à porta. “Decidi ir porque, quando me casei, achei que realmente queria estar com ele e que devia acompanhá-lo no tipo de vida que ele tinha”. A decisão, porém, carregava riscos e responsabilidades acrescidas. Partiu com uma filha de 15 meses nos braços e outra na barriga. Estava conscientemente convicta de que era aquilo que queria: estar o mais próxima possível do marido. A confiança em si própria e na sua capacidade de “resolver os problemas que o destino colocasse no caminho” eram uma força extra.
Para lá do amor, da parentalidade ou do sentido de dever, África surgia também como um horizonte de rutura. Havia ainda as mulheres que vislumbravam em África a possibilidade de emancipação do seio familiar (da mãe, da sogra, da igreja católica), deixando para trás um “país cinzento” e a asfixia da opressão feminina, em busca de uma promessa de aventura e de melhores condições de vida. Se por um lado, a ida para o continente africano era uma aflição, por outro era “uma enorme libertação social”, como refere a investigadora Margarida Calafate Ribeiro. Longe das amarras sociais portuguesas, estas mulheres encontravam no Ultramar um espaço de autonomia onde podiam, finalmente, ser as protagonistas das suas próprias rotinas.
Afinal quem eram as mulheres que acompanhavam os maridos?
Acompanhar o marido para um cenário de guerra estava longe de ser uma decisão acessível a todas. A partida dependia de uma teia complexa de fatores: da trajetória familiar ao percurso académico e profissional. Margarida Calafate Ribeiro, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, explica que compunham uma “mancha social” muito específica, cujos registos permanecem dispersos e pouco explorados pela história.
Apesar de ser “mais fácil saber onde chegaram do que de onde vieram”, o perfil é traçado com clareza: a maioria eram mulheres de oficiais e sargentos do quadro permanente. Pertenciam, por regra, a uma classe média-alta urbana, uma elite que se distinguia até no modo de viajar — as mulheres dos oficiais em primeira classe, as de sargentos em segunda, fosse no balanço dos barcos ou, mais tarde, na rapidez do avião. Eram jovens, na casa dos vinte anos, com uma escolaridade acima da média nacional, desde o ensino básico até às licenciaturas. Já no terreno, fosse em Portugal ou em África, muitas não se ficaram pela domesticidade: profissionalizaram-se na docência, na enfermagem, na costura ou no comércio local.
No entanto, o papel doméstico continuava a ser o porto de abrigo para muitas. O casamento era a decisão “certa” para enfrentar a separação forçada, mesmo que isso implicasse um casamento por procuração, um casamento “com uma fotografia”. Por amor e por causa da guerra, interromperam-se estudos e abandonaram-se carreiras, muitas vezes, num braço-de-ferro com os próprios pais. A maternidade era outro desafio geográfico. Houve quem deixasse os filhos em Portugal ao cuidado de uma rede feminina de mães e tias; quem os levasse nos braços para o desconhecido; e quem vivesse a gravidez e o parto em solo africano. Apesar das origens sociais, o pensamento político era variado. Entre elas escondiam-se militantes do PCP na clandestinidade, antissalazaristas e ligadas aos movimentos universitários. Rostos diversos que, perante a crueza do terreno, convergiam numa visão única: a convicção de que aquela era uma guerra “tão desnecessária, quanto inútil”.

Ida e vida no continente africano
À partida, o que esperava dezenas de mulheres era o peso de uma despedida difícil e o desafio de uma adaptação total. Rosa Redondo, determinada a não ficar para trás, contactou o Liceu de Bissau para dar aulas, enquanto o marido partia como Oficial da Marinha. Embarcou em finais de julho “com armas e bagagens”, dois meses mais tarde do que o marido, levando consigo a memória dolorosa de o ter visto partir no cais de Alcântara “cheio de gente”, em Lisboa. Mas, em momento nenhum pensou que não o iria voltar a ver. Pensou sempre que se iriam reencontrar uns meses depois. A Guiné, um dos teatros de guerra mais complexos, seria a sua “primeira casa”, porque foi por lá que começou a vida de casada. Era uma espécie de “lua de mel”.
Embora a decisão de partir não tenha sido vivida como uma rutura radical, a certa altura a consciência de estar a caminho da região guineense trouxe um medo inevitável. O choque inicial foi ultrapassado pelo facto de o marido não ter sido destacado diretamente para o tiroteio, ainda que pudesse ser enviado para quilómetros de distância e correr maior perigo, a qualquer instante. Ao aterrar na Guiné, Rosa encontrou um mundo que nada tinha que ver com a realidade portuguesa. Mas, no Ultramar, a resiliência era a regra: “tinha de se viver com o que houvesse”. Instalou-se numa casa com as “mínimas condições que se podem imaginar”, mas assim viveram. Nos primeiros tempos, recebiam comida da messe da Marinha e a gestão da casa seguia o costume local. Quase todas as famílias contratavam uma lavadeira e um “rapazinho” que tratava dos recados, figuras que acabavam por fazer parte daquela rotina de guerra.
“A vida lá, mesmo com a guerra, não era tão incomum, porque em Bissau se fazia uma vida quase normal. Ia às compras, ao cabeleireiro, um passeio à baixa, ia às aulas. No fim-de-semana tentava sair aos sítios possíveis. A certa altura havia uma normalidade”.
Rosa não ficava parada. Na solidão do lar, criou um refúgio feito de sons e letras. Passava os dias junto dos gira-discos, dos livros, dos jornais e das fotografias. Era uma estratégia para se distrair sozinha. No liceu, o ritmo era ditado pelo clima tropical. As aulas de Português e História estendiam-se desde as sete da manhã até às sete da noite. Tinha turmas de primeiro, quarto e quinto ano, mas nunca concordava com a guerra, nem com as matérias lecionadas.
Apesar de ter uma postura que não era exatamente a esperada, por fugir “um pouco às regras”, não tinha remédio senão contar a história de Portugal aos alunos africanos, narrando as glórias de um império a quem, do outro lado da sala, vivia a agonia do mesmo. As salas de aula eram um mosaico da sociedade colonial. Por ali, cruzavam-se alunos de várias etnias guineenses e cabo-verdianas, de famílias radicadas e ligadas a negócios e, de vez em quando, filhos de militares portugueses com idade escolar. Apesar do “silêncio tácito” sobre a guerra, os estudantes encaravam a ida para o liceu como uma promoção social.
À semelhança de Rosa, também Marília Afonso se dedicou ao ensino. Na época, o professorado era muito feminino. Eram as mulheres portuguesas que colmatavam a falta de recursos humanos para a docência no território africano. Este fenómeno coincidiu, nos finais da década 60, com um grande impulso do desenvolvimento das chamadas “províncias ultramarinas” para serem organizadas as estruturas administrativas e criados quadros de ensino.
A partir do nascimento da filha, Marília deixou Luanda para trás em direção ao norte de Angola, uma zona cercada de arame farpado, com um acesso civil apenas por via aérea. “Era uma situação que não deixava de transmitir um certo sentimento de claustrofobia, com o qual nos habituámos a conviver e até esquecer no dia-a-dia”. Nesse isolamento, a polivalência era a regra. Desdobrava-se na História, na Geografia, no Português e no Francês no ciclo preparatório, inicialmente, apenas a homens negros. E a matéria era sempre sobre Portugal. O mesmo acontecia com a língua e a geografia. Apesar de o ambiente da sala de aula ser de quem quer aprender e de quem quer ensinar, os programas eram praticamente semelhantes aos portugueses. “Na época, nem se questionava, nem se punha qualquer outra hipótese que não fosse realmente aquela. Eram aqueles dois programas, aquilo era considerado parte de Portugal, os alunos considerados portugueses e ponto”. Entre livros e avaliações, fora das aulas assumia a maternidade. Sozinha, tentava gerir o melhor dos dois mundos, porque “tinha de ser”. Teve momentos de muita dificuldade e de muita preocupação. Uma preocupação sempre voltada para os outros. Mesmo que fosse uma vontade e uma decisão pessoal, carregava o peso de tudo nos ombros.
“Não tinha apoio nenhum, a minha preocupação era que o meu marido não tivesse preocupação comigo. E também que a família não tivesse preocupação de mim. Foi sempre essa a minha inquietação”.
Apesar da pouca distância que os separava, os encontros com o marido eram sempre muito breves, por ser o tempo de reabastecimento da coluna militar. A coluna chegava, reabastecia, almoçava e ia embora. Mas era o suficiente para ter notícias e saber diretamente como o marido estava e acompanhar o que se passava no mato. Mesmo estando próximo do setor militar, onde se coordenavam todas as operações, ter respostas a todas as dúvidas e ansiedades não era garantido. Quando o via era a única forma de saber que estava realmente bem. Caso não pudesse comparecer, eram os colegas da companhia que levavam as notícias, um recado verbal ou algum aerograma.
O papel doméstico do elemento feminino

Embora algumas mulheres se tivessem dedicado ao ensino, prevalecia o papel típico da dona de casa, especialmente, as que se encontravam no mato.
É o caso de Teresa Gomes. Oriunda de uma família de burguesia intelectual e licenciada em Agronomia, carregava uma formação católica de contestação de uma guerra colonial que era considerada “inaceitável”. Após sete anos e oito meses de serviço militar obrigatório, o marido foi mobilizado para Sá da Bandeira (hoje conhecida como Lubango) e, mais tarde, para o leste de Angola, em Cassamba. No princípio de abril de 1971, recebeu um telefonema a avisar que o marido estava “muito afetado” com a guerra. “Num estado de depressão profunda”.
Sem hesitar, Teresa deixou para trás os últimos anos de vida da mãe e a infância dos filhos. “Doente, em pele e osso”, mal reteve as imagens da viagem. Só acordou quando chegou. Com mais memórias da vida no leste de Angola, “uma zona que não era um deserto, porque corriam rios”, recorda-se das poucas condições onde dormiam, por detrás da cabana de transmissões militares. A sobrevivência dependia do ritmo dos céus. Uma vez por semana, havia um avião, “que era uma espécie de bicicleta com asas”, levava os frescos, como carne, peixe e pouco mais. De três em três semanas passava uma coluna militar que levava os mantimentos secos. Mas havia um dia “sagrado”. À terça-feira, perto da hora do almoço, tudo e todos paravam para “uma cerimónia religiosa”. Era o dia em que chegava o avião com as cartas. Ninguém almoçava sem ler primeiro as notícias de casa. Através dos aerogramas, Teresa mantinha o fio condutor com a família, sobretudo com a mãe que “escrevia sem pontos, nem vírgulas, como o Saramago”. Eram a única prova de que a vida, algures, continuava. Mas sempre muito rigorosos no que escreviam, porque nunca se falava em operações, nem em guerra. Mesmo com algumas vindas a casa, para “matar as saudades” da família e dos filhos, cada regresso ao mato africano era “sempre terrível, chorava uma semana inteira, todos os dias”.
“Vivia a cortar os dias do calendário, como os presos”.
Confinada pela imensidão de uma paisagem quase desértica, ficava pelo meio doméstico. Mas, de alguma forma, tinha de ocupar o tempo. Por isso, seguia uma rotina milimétrica. Levantava-se cedo, tomava banho de água fria, fazia o café, já que a água local “não era de confiança”, fazia as tarefas da casa, lia (e muito), fazia croché, jantava e dava uma volta a pé até ao rio e regressava.

Havia essa rotina de ir até o rio e voltar. A monotonia só era quebrada uma vez por mês com uma viagem ao Luso (atual Luena). A pretexto de visitar o primo e de ir buscar o soldo dos militares, porque o sargento não queria ir, partia para “uma grande festa”. Ficava na messe, passeava, comprava uma mão cheia de livros, ia ao cabeleireiro e jantava num restaurante.
Também Sara Adrega, de 76 anos, viveu a experiência da guerra dentro de portas, ainda que tivesse desde o início vontade de se aventurar para trocar a pacatez de uma pequena vila alentejana pelo desconhecido africano. Contra as crenças católicas da mãe, casou três meses depois de conhecer o marido e com ele partiu, em maio de 1971, para Angola, carregando já a gravidez do primeiro filho. A vida era sempre a mesma, muito semelhante à de Teresa. O dia começava cedo, tomava o pequeno-almoço e lia. À hora do almoço, recebia o marido. Sem oportunidade para trabalhar, não só porque estava grávida, mas também porque não havia onde trabalhar, preenchia o resto do dia com puzzles até que fizesse noite, por volta das cinco da tarde. Entretanto, sozinha, sem redes de apoio, o filho nasceu e conjugou a maternidade com a casa. Também as duas senhoras com quem unicamente se relacionava, uma mulher do comandante e uma do capitão, eram domésticas, cuidando sempre dos filhos, formando um pequeno núcleo de domesticidade sitiado pela guerra.
“Brancos ali, negros acolá”: o choque da realidade colonial
A vida era solitária. A convivência, tanto com os maridos, como com as “pouquíssimas” mulheres de militares (se por lá estivessem) era limitada por horários e deveres. Com a comunidade local, o contacto nem sequer existia. Como recorda Sara Adrega, o círculo de amigos de todas as mulheres era “muito restrito a um espaço pequeno e reservado, por não haver outra hipótese”. O único amparo que encontrava era “curiosamente” nos soldados. Desafiando os estereótipos de classe da época, criou-se uma cumplicidade “natural”. Homens e mulheres partilhavam as mesmas circunstâncias de desenraizamento, encontrando um apoio comum, quer na forma de comunicar, quer de estar. Também Teresa Gomes via que os soldados as consideravam uma “figura maternal”, por serem o mais próximo que tinham naquele cenário de guerra.
Mas, a convivência com os locais africanos era “impossível”. “Por um lado, achávamos que estavam a ser vítimas e estávamos do lado deles, por outro, nós erámos o inimigo”. A língua era também uma barreira. Os únicos que falavam português eram uns “miúdos empregados” dos soldados, por volta dos treze anos, que faziam recados. Descascavam as batatas do dia, lavavam o chão da casa com criolina, para evitar a entrada de insetos rastejantes, e, noutros casos, iam com os soldados até ao rio com a escova dos dentes e a toalha.
Já as lavadeiras, as mulheres africanas que deixavam a roupa “branquinha”, não dominavam o idioma. Neste vazio comunicacional, o único apoio que Teresa tinha era com um comerciante cabo-verdiano e com a esposa crioula. Tornaram-se o seu refúgio sempre que o ambiente militar se tornava demasiado opressivo. Aos domingos, celebravam a amizade, com um pequeno-almoço que sabia a casa: bacalhau cozido e couve. Era um momento que a salvava da solidão do mato.
Para Rosa Redondo, não havia qualquer ligação entre portugueses e africanos. A única convivência que existia era entre os que tinham vindo de Portugal. O círculo limitava-se a um casal e pouco mais. Esta segregação não era fruto do acaso, mas de uma recusa consciente em integrar as dinâmicas da ocupação.
“Não se convivia, nem se tentava. Havia uma barreira. Fugia-se de entrar nessa vida social, senão era contemporizar esse conflito que não queríamos”.
Para Marília Afonso, o quotidiano desenrolava-se dentro de uma bolha militar onde, apesar da escassez de presença feminina, imperava um ambiente de camaradagem e respeito. “Era um meio onde me sentia bem, onde a vida decorria com naturalidade, com cada um focado nas suas funções e preocupações”. Era uma harmonia que contrastava com a realidade social que observava do lado de fora. O choque mais profundo de Marília não veio da guerra em si, mas do contraste com a estrutura colonial: o tipo de relação entre os brancos e os locais. Foi um “confronto duro” perceber que havia diferenças “abismais” entre brancos e negros. “Havia uma sociedade com camadas completamente estabelecidas, os brancos ali e os negros acolá”.
Ao evitar os círculos sociais de Bissau, as mulheres mantinham uma espécie de integridade moral. Isolarem-se era a única forma de não se tornarem cúmplices de uma realidade colonial que lhes era estranha e de uma guerra que consideravam injusta.
“Os anjos caídos do céu”
Além das mulheres que seguiram com os maridos para África, havia uma outra figura feminina que se encontrava no epicentro do conflito. Giselda Pessoa, tal como a irmã, foi voluntariamente enfermeira-paraquedista. Entre 1970 e as vésperas do 25 de abril, serviu na Guiné, o lugar predileto das enfermeiras por serem “realmente muito úteis”. Entraram no mundo puramente masculino das Forças Armadas, vestiram a farda dos homens para salvar vidas de civis, militares e doentes. A ideia tinha partido de Isabel Bandeira de Mello, a primeira paraquedista portuguesa, que contou com o apoio estratégico de figuras como Kaúlza de Arriaga para convencer o regime de Salazar. Rapidamente abriram candidaturas para mulheres que tivessem idades entre os 18 e 30 anos, com uma “boa formação moral, profissional e religiosa”. Foi assim que Giselda, com um curso de enfermagem e, depois de paraquedismo, fez provas físicas em Tancos e os testes psicotécnicos em Lisboa, mesmo que “houvesse alguma coisa que queria que fosse e não fosse”, sem autorização do hospital e sem conhecimento dos pais, porque só souberam quando estava por África. “Se dissesse à minha mãe, ela pedia-me para eu não ir. E assim, não disse nada e teve de aceitar.”

Como “já tinha a porta aberta”, pelo pioneirismo das suas antecessoras, não sofreu qualquer preconceito, quer na faculdade, quer no Ultramar. Até porque na guerra, as enfermeiras eram “qualquer pessoa, qualquer militar”, preparadas para cumprir a missão que a unidade lhes confiasse. No mato, com coragem e destreza, não faziam conversa e apenas se focavam em salvar vidas. Mas mais do que a assistência médica, representavam o conforto e a presença segura, sobretudo, em momentos que se sabia que era “morte certa”. O trabalho não ficava pelo terreno. Giselda apoiava também no serviço de saúde e visitava os doentes no Hospital Militar. Quando possível, fazia a triagem nas zonas de combate e abandonava rapidamente o local, pelo facto de as enfermeiras serem um chamariz de ataque inimigo.
“Os homens diziam que nós éramos mães e irmãs. Chamavam pela mãe e estávamos nós. A nossa mão era a da mãe que estava a ajudá-los”.
Tinham uma preparação técnica que se fundia com um apoio psicológico que mais ninguém estava habilitado a dar. Mas quem as amparava? O ambiente de guerra impunha um desgaste invisível e o único escape físico e mental era o regresso mensal à metrópole. Durante três dias, aproveitando o primeiro transporte aéreo disponível, as enfermeiras paraquedistas procuravam o silêncio de casa. Era a forma de aguentar os “horrores” da guerra, com muita calma, deixando-os para trás.
Giselda é clara: nunca foi pela pátria, sempre foi pela humanidade. Tinha o compromisso com os homens militares e com a proteção dos feridos. Integrada num grupo de sete, vivia em alojamentos próximos da messe e do serviço de saúde. Fazia a vida normal, a partir do som do alerta. Dependendo da zona, não tinha horário de serviço, como na Guiné, onde estavam sobre alerta 24 horas por dia. Apenas durante três meses é que, devido a condições climáticas, não faziam evacuações noturnas. “Chegávamos a estar um mês e meio que nos víamos de manhã, a ir para a base às seis da manhã, e só nos víamos à noite quando vínhamos para casa. Porque havia sempre operações”. O helicóptero era já a primeira casa. Além do piloto, estava o mecânico e, claro, a militar camuflada de boina verde. No meio do caos do combate, havia quem não percebesse que se tratava de uma enfermeira.
Apesar de a consciência da importância das enfermeiras-paraquedistas no terreno ter sido gradual, carregam consigo um fardo silencioso. Foram testemunhas, em primeira mão, de atrocidades, vendo a vida de jovens combatentes e de colegas parar nos braços. Operavam num anonimato protetor e nunca sabiam o nome de ninguém, mas davam sempre o seu melhor num esforço contra a morte. Por vezes, adormeciam pelo cansaço de uma vida em alerta, sendo uma forma de evitar que o pensamento fosse colonizado por visões e pesadelos que as perseguiram para o resto da vida. Numa guerra feita de desconhecidos, Giselda nunca se esquece da história do único soldado, cujo nome chegou a conhecer.
“Ninguém tinha noção do que passávamos, porque os que vinham da guerra não falavam da guerra. Era um tema muito silenciado. Depois do 25 de Abril também foi, mas antes é que não se falava mesmo”.
Regresso, impacto da guerra e consciencialização política
Como refere a investigadora Margarida Calafate Ribeiro, as mulheres que acompanharam os maridos desempenharam um papel local “crucial, muitas vezes, subestimado”. Se para umas a vida ficasse pela casa, para muitas mais o continente africano tinha sido o catalisador de uma transformação “profunda”. Ao ocuparem postos de trabalhos, que até então eram destinados aos homens, conquistaram independência e autonomia. Como em qualquer processo histórico de rutura, a liberdade não voltou para trás. No pós-guerra, continuaram a ser profissões lideradas por mulheres. É esse papel local que lhes confere consciência política ao viverem de perto os horrores da guerra. Assistiram ao racismo, às diferenças sociais “brutais”, às condições onde viviam os locais e os brancos, ao desaparecimento da comunidade africana à medida que os graus de ensino avançavam, no segundo, terceiro, quarto e quinto anos e na universidade já quase não existiam. “Começaram-se a questionar se estavam exatamente no lugar e hora certa”. A perceber que a guerra terminava quando os homens quisessem.
Ao mesmo tempo que era um momento de libertação feminino, era também de reflexão e aflição. Muitas trouxeram na bagagem as cicatrizes invisíveis de um conflito que não terminou no 25 de abril. Foram vários os casos de violência física e/ou psicológica, decorrentes do transtorno deixado pela guerra aos maridos, fragmentando famílias e resultando em separações.
Embora o Estado Novo nunca tenha oficializado uma política de incentivo à emigração feminina para o Ultramar, o regime facilitava estrategicamente essa travessia. Ao pagar as viagens, abonos de família e ao facilitar no alojamento, o regime permitia que dezenas de mulheres e filhos se juntassem aos maridos, criando uma normalidade “num cenário que não era normal”. De repente, tratam dos afazeres da casa, algumas trabalham, levam os filhos à escola e vão ao mercado.
O regresso à metrópole nunca significou um retorno ao que fora “normal”. Na verdade, as mulheres recomeçaram e reconstruíram a vida que levavam de África em Portugal. As que trabalhavam, continuaram com a atividade profissional, sobretudo, no ensino. Algumas terminaram os estudos que tinham sido interrompidos. E houve ainda quem preferisse cuidar dos filhos. Apesar de ter sido “uma alegria enorme e um alívio” voltar às raízes, como recorda Marília Afonso, prevalecia uma certa saudade da cultura e da vida no Ultramar. A forma de ser, estar e de olhar o mundo tinham mudado. Foram anos de isolamento e de confronto que as transformaram. Dos poucos testemunhos que ainda se podem ouvir, tanto Rosa, Marília, Teresa, Sara e Giselda voltaram “mais velhas, mais amadurecidas, com cara de adultas”, como se tivessem pertencido a uma outra geração. Hoje, olham para trás com a serenidade de quem não se arrepende de nada. Apesar da juventude e da imaturidade da tenra idade com que partiram, todas garantem que voltariam a fazer tudo de novo. Porque foi na guerra, entre o medo e a poeira, que descobriram quem realmente eram.
“Não é possível ficar indiferente. E elas não ficaram”.
São vidas e histórias distintas de mulheres que cruzaram continentes por amor, trocando a segurança do conhecido pela incerteza do conflito. São memórias de uma vida em África, marcadas pelo medo, pela solidão e pelas fragilidades de casamentos postos à prova, mas também de uma força invisível. Meio século depois, são mulheres que deixaram de ser apenas “esposas” ou “anjos” para se tornarem as guardiãs de uma memória que a história teima em silenciar: a de que a guerra também se fez e sobreviveu no feminino.
























