Covilhã contra o racismo e a xenofobia

A Praça do Município, na Covilhã, transformou-se esta terça-feira, 2 de junho, num espaço de solidariedade e manifestação, sob o mote “Finca-Pé contra o Racismo e a Xenofobia”.

A manifestação, organizada pela CooLabora em parceria com o Núcleo de Estudantes de Estudos Latino-Americanos da Universidade da Beira Interior (NELA-UBI), levou dezenas de cidadãos a darem as mãos, com o objetivo de sensibilizar a comunidade local para a urgência da inclusão e do respeito pela diversidade.

Rosa Carreira, coordenadora desta manifestação, explica que o principal gatilho partiu dos próprios jovens do Coolaboratorio, vindos de várias nacionalidades. “Eles vão-nos dando conta do crescimento. Sentem nas ruas e nos lugares de atendimento uma certa antipatia das pessoas, uma intolerância ao facto de eles não serem de cá, à pronúncia”.

Segundo a responsável da Coolabora, este é um movimento assustador “que nos mostra que estamos realmente a regredir em termos culturais e societários”.

A hostilidade também se fez sentir no ambiente digital assim que o evento foi anunciado. Joana Lucas, uma das estagiárias da organização, partilhou que a equipa se deparou com vários comentários negativos e até ameaçadores de moradores da Covilhã.

Como resposta construtiva a este ambiente, a organização colocou na praça caixas pintadas e sem texto, convidando o público a deixar testemunhos. O resultado superou as expectativas, diz Joana: “Muita gente escreveu mensagens de amor e abertura para que a campanha fosse bem conseguida.”

Visualmente, a campanha destacou-se por cartazes com flores e botas. Rosa Carreira esclarece o simbolismo, dizendo que as flores têm a ver com o facto de os direitos humanos poderem ser frágeis e termos de cuidar deles. As botas têm a ver com a luta e a resistência.

 Com uma forte comunidade de estudantes internacionais na Universidade da Beira Interior, as dificuldades de integração vão além do preconceito social. Lucas Albertino, estudante redundante brasileiro a residir na Covilhã, considera a vivência com os colegas e com a universidade “recetiva” e “positiva”, mas aponta graves falhas no sistema burocrático do país: “A questão governamental, como a própria AIMA, tem falhado muito. Demorei dois anos para conseguir o meu título de residência”.

No que toca à discriminação direta, Lucas refere que, embora poucas vezes, já presenciou situações em grupos de amizade, através de “piadas mascaradas em que incitavam algo por eu ser brasileiro”.

 Luísa Nunes, participante na iniciativa e antiga integrante do Coolaboratorio, fez questão de marcar presença. “Infelizmente acho que continua a haver muito racismo, muita xenofobia, e acho que faz parte de nós, enquanto cidadãos ativos, também lutarmos por estas causas”.

Luísa nota que a Covilhã tem feito um percurso para se tornar mais inclusiva, mas assume que ainda há um longo caminho pela frente.

O evento encerrou com o sentimento de que a mensagem foi entregue. A organização espera que o impacto desta ação sirva para mostrar que a Beira Interior tem uma voz ativa disposta a “fincar o pé” contra a intolerância, assegurando que a Covilhã continue a ser uma cidade de braços abertos.

Pode ler também