O sal que une uma família

O branco domina a paisagem. Sob um sol radiante e um calor intenso, uma dezena de homens trabalha de pá na mão, rodeados por talhos, os reservatórios onde a água salgada reflete o céu. Ao redor, pequenas casas de madeira recebem turistas que passeiam entre lojas e cafés.

À primeira vista, ninguém diria que o mar se encontra a mais de 30 quilómetros.

Mas nas Salinas de Rio Maior produz-se sal há mais de 800 anos. Esta atividade teve origem no século XII, quando foi descoberta uma nascente de água salgada alimentada por uma jazida subterrânea de sal-gema.

E para a família Lopes, esta não é apenas uma atividade económica. É uma herança.

Luís Lopes cresceu entre montes de sal.

Enquanto muitas crianças aproveitavam as férias de verão para descansar e brincar, Luís acompanhava o trabalho da família nas Salinas. Hoje, continua ligado ao negócio que atravessa várias gerações.

É um dos rostos da Loja do Sal, espaço que procura conciliar a tradição com a inovação através da venda de produtos feitos a partir do que a salina gera.

À medida que Luís vai explicando o trabalho que ali é desenvolvido e o olhar que ele tem sobre aquele espaço, vão entrando turistas para observar ou comprar uma lembrança.

 

A ligação da família Lopes às salinas atravessa várias gerações.

Fernando Lopes, o pai de Luís e que continua ligado ao trabalho de produção e recolha do sal, recorda que já o avô trabalhava ali. O conhecimento passou depois para o seu pai e, mais tarde, para os filhos.

A própria Loja do Sal ocupa um espaço com história na região.

Segundo Fernando Lopes, antigamente aquele edifício servia simultaneamente como taverna, armazém e local de venda de sal.

Hoje, o espaço transformou-se e com isso tornou-se numa das lojas mais conhecidas das salinas, mas sempre ligado à mesma atividade que une a família e que a tem sustentado durante décadas.

 

Apesar do crescimento do turismo e da modernização de alguns processos, grande parte do trabalho ligado à recolha e tratamento do sal continua a ser feito de forma artesanal e manual.

Apesar do crescimento do turismo e da modernização de alguns processos, grande parte do trabalho ligado à recolha e tratamento do sal continua a ser feito de forma artesanal e manual.

Todos os anos, antes do início da safra, é necessário limpar os talhos de sal, retirar limos e preparar o terreno para a produção.

Mas o mais difícil neste trabalho não se prende com processos manuais ou com a preparação para a época da safra. O maior obstáculo é mesmo a temperatura. A época da safra começa por volta de final de maio, quando a primavera se aproxima do fim e o verão ameaça bater à porta.

É um trabalho exigente e que continua a depender da força física dos trabalhadores.

Com 40 anos de experiência nas salinas, divididos entre produção artesanal e o atendimento aos visitantes na Loja do Sal, Emília Lopes, mãe de Luís Lopes, conhece bem essa realidade e conta que as temperaturas podem atingir valores bastante altos: “Trabalhar aqui com 40 graus não é para todos. É preciso gostar disto e ter muita resistência, porque o sol não perdoa.”

Entre os vários produtos produzidos pela família está um dos mais curiosos: o chamado queijo de sal.

Apesar do nome, não contém leite nem qualquer outro ingrediente parecido.

Segundo Emília Lopes, “é produzido a partir da flor de sal recolhida nos talhos e moldada manualmente numa forma tradicional”. Acrescenta ainda que “depois de secar ao sol, segue para um forno a lenha durante vários horas.” Este produto, no fim, pode servir como prato ou ainda ser raspado sobre os alimentos.

Se a produção do sal parece querer resistir ao tempo, a mesma certeza não se pode ter em relação à mão de obra.

Fernando Lopes recorda uma época em que praticamente todas as famílias da zona trabalhavam nas salinas durante os meses de verão.

Hoje o cenário é diferente.

Muitos jovens saíram da região para estudar ou trabalhar.

Atualmente, a extração está concentrada num pequeno número de trabalhadores, que são garantidos pela cooperativa do sal, em colaboração com a Loja do Sal. Todos os anos, a cooperativa tenta arranjar quem queira fazer este trabalho juntamente com a família Lopes. Mas tem sido cada vez mais difícil e este ano só conseguiram enviar uma dezena de imigrantes.

 

Durante vários anos, as salinas viveram períodos complicados.

Algumas das antigas casas utilizadas pelos salineiros encontravam-se degradadas e a atividade perdia importância económica.

Nos últimos anos, o turismo que se tem verificado na zona alterou esse cenário.

As antigas construções de madeira deram lugar a lojas, restaurantes e espaços dedicados a acolher visitantes de todos os lugares.

Atualmente, chegam turistas portugueses e estrangeiros durante praticamente todo o ano.

Uns aproveitam para fotografar os montes de sal, outros entram nas lojas à procura de produtos típicos ou param nas esplanadas enquanto observam o trabalho dos salineiros.

O futuro das salinas não depende apenas das pessoas.

As alterações climáticas são hoje uma das maiores preocupações para quem acompanha a atividade.

Segundo Cristina Vicente, representante da Câmara Municipal de Rio Maior, a principal incerteza para as próximas décadas está relacionada com os recursos hídricos necessários para manter o funcionamento das salinas.

 

No fim da noite, o movimento abranda.

Os turistas regressam a casa e os talhos ficam novamente entregues ao sossego e ao silêncio.

Mas para a família Lopes, o trabalho não para.

Há mais sal para recolher, mais encomendas para preparar e uma tradição que se quer preservar.

Enquanto houver quem demonstre vontade em aprender o ofício dentro de casa, como Luís aprendeu com os pais e os avós, haverá sempre alguém que mantenha viva a tradição e a história que começou muito antes de qualquer um deles nascer.

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