Era madrugada do dia 28 de janeiro de 2026 quando ventos com mais de 200 quilômetros por hora atravessavam as paredes das caravanas. Era a tempestade Kristin que se aproximava. No local em que o Circo Marisol havia se instalado, a única opção foi abandonar as casas e buscar abrigo nos camiões. Uma noite resumida em angústia e medo. Ao olhar pelas frestas do camião, tudo o que se via eram anos de trabalho transformado em destroços em questão de instantes.
Ao amanhecer, o cenário que Edson Noronha encontra, é devastador. Caravanas tombadas, muitas destruídas. A tempestade não levava só a estrutura, mas também, algo sonhado por gerações.
”Nesse momento, deu vontade de desistir…Vou regar o resto com gasolina, queimar tudo e desaparecer”, pensou Edson.
Durante três meses, o circo fechou as portas. Para famílias que vivem da estrada e do público, parar é muito mais do que cancelar apresentações: é perder o sustento e assistir o silêncio a ocupar o espaço onde antes existiam música, aplausos e tradição.
Nascidos com o “bichinho” do circo
De terra em terra, de escola em escola, Edson Noronha, de 45 anos, teve uma infância saudável. Ainda assim, reconhece que o conforto que hoje consegue oferecer aos seus filhos não foi o mesmo em que cresceu. Edson foi criado pelo avô, João Noronha, figura que define como “um pai” e uma inspiração. A relação entre os dois moldou também o caminho profissional de Edson, hoje empresário e apresentador do seu próprio circo.

Após a morte precoce de um dos filhos, tio de Edson, o avô afastou-se das tendas. O nascimento do neto, porém, reacendeu sua ligação com o circo: passou a adaptar espetáculos para escolas e pavilhões, levando palhaços e magia a diferentes localidades. E foi nesse ambiente em que Edson cresceu e teve os primeiros contatos com a arte circense.

Anos mais tarde, Edson convencia o avô a retomar o circo próprio. Trabalharam lado a lado até que João Noronha começou a sentir o peso da idade. Mas Edson, que já havia sido força e recomeço na tradição da família, decidiu continuar o legado. E foi desse sonho de gerações, que nasceu o Circo Marisol.
Da caravana estacionada em frente a tenda, surge uma mulher maquiada e de passos apressados. Falta pouco para o espetáculo começar. Entre a barraca de comida, as cadeiras do público e os ajustes dos últimos detalhes dos bastidores, ela atravessa o terreno de um lado para o outro. Diferente do ditado que diz que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher, Zulinda Lopes, de 45 anos, sempre foi mulher de estar ao lado do marido. Não nasceu no circo, mas fez do sonho de Edson também o seu.
Ao conhecer o companheiro, Zulinda decidiu seguir a vida itinerante e, como na clássica história da menina que fugiu com o circo, não teve o apoio dos pais no início. Hoje, como empresária e artista do circense, não se imagina longe das arenas. “Trabalhar até o último dia. Trabalhar sempre”, exclama a artista.

Para Zulinda, a palavra que resume o Circo Marisol é “força”.
E é justamente dessa resiliência que nasce a essência primordial dos pequenos circos: o caráter familiar.
Herdeiros das tendas
Por trás da cortina da arena, há uma família que carrega um legado passado por gerações e no Circo Marisol, esse futuro já tem nome — mais especificamente, quatro nomes.
Antes mesmo de nascer, Marisol Noronha já fazia parte da identidade do circo. O nome da primogênita foi também o escolhido para batizar a companhia da família. Criada entre bastidores, aprendeu sozinha a executar números aéreos em tecidos e arco metálico suspenso, onde gira e se equilibra metros acima da plateia.

Mas a artista que hoje encanta o público nem sempre se orgulhou de pertencer a esse universo. Até os 10 anos, evitava falar sobre a profissão da família. Quando chegava a uma nova escola, pedia aos pais que não revelassem que eram artistas de circo. A vergonha não estava na arte, mas do preconceito que encontrava pelo caminho. “Muitas das vezes, não fazíamos amigos, não brincávamos… só pelo simples facto de ser do circo”, recorda.
As marcas do preconceito ultrapassam a infância e continuam a influenciar a forma como os artistas veem o próprio percurso. Quando recebeu um convite para participar do Got Talent Portugal 2026, Marisol hesitou. “Eu sei que as artes circenses não são apoiadas como deviam e tinha medo de ser rejeitada”, afirma. O incentivo da família, porém, foi decisivo para que aceitasse o desafio. “Acabei por ir e correu super bem. Cheguei até à final. Acho que fui a primeira artista de circo a chegar tão longe no programa. Foi muito bom.”
A mesma realidade atravessou a infância do irmão, Andrew Noronha. Desde os dois anos de idade trabalha com o número de palhaçaria e recorda o preconceito que marcou sua vida escolar. “Quando era mais pequeno na escola, gozavam muito e chegavam a me bater”, conta. Apesar das agressões e das provocações, raramente dividia o sofrimento com os pais. “Não, não, realmente aguentava. A gente aguenta tudo.”

Hoje, aos 19 anos, Andrew continua em cena. Além da palhaçaria, se apresenta como malabarista e músico, habilidades aprendidas de forma autodidata e transmitidas dentro da própria família.
Já Marisol, reencontra esse mesmo legado. Mesmo depois de anos de prática, ainda sente o nervosismo antes de cada apresentação. “‘Teja pouco, ‘teja muito público, para mim é igual. Eu trabalho igual”, afirma. Mas basta entrar em cena para que o nervosismo dê lugar à concentração. “Entro na minha bolha. Estou a fazer aquilo que eu gosto e a passar para as pessoas o amor que tenho pelo circo.”
Pequenos em altura, grandes em pensamento
O terceiro filho, Aron Noronha, de nove anos, também já encontrou seu lugar no espetáculo. Desde os quatro anos participa das apresentações como palhaço e, inspirado pelo irmão, começou a aprender malabarismo. “Eu pedi ajuda ao meu irmão e depois fui fazendo tudo sozinho”, conta o pequeno. Apesar da rotina itinerante que torna constante as mudanças de escola, Aron diz adaptar-se bem à vida na estrada. Entre os colegas, já é conhecido como o menino do circo, e gosta quando o reconhecem pelos espetáculos.

A mais nova da família é Kyara Noronha, de apenas três anos. Ainda pequena demais para entrar em cena, acompanha de perto os bastidores. Das arquibancadas, assiste aos espetáculos e sabe de cor o roteiro do show, transformando os ensaios em brincadeira e diversão.

Apesar dos desafios da vida itinerante, Zulinda acredita que os filhos foram privilegiados de crescer no circo: “Ah, eles foram crianças muito felizes. Pelo menos eu fiz para eles serem felizes. Eu brincava com eles, fazia com que eles fossem a cascatas e a sítios que eles nunca tinham visto.”
É nessas memórias construídas e a paixão pela arte que a família encontra força.
“Nós gostamos e se nós pararmos é morrer. Então temos que andar para não morrer”, reflete Zulinda.
Depois da tempestade vem o sol
Nenhuma tempestade dura para sempre…
Em meio aos destroços da tempestade Kristin, uma estrutura permaneceu em pé: a da comunidade circense. Em poucos meses, circos familiares de diferentes regiões, junto com a população, mobilizaram campanhas, enviaram ajuda financeira e ofereceram apoio para que o Circo Marisol pudesse se reerguer. Entre eles, estava o Circo Arena, que compartilha o sentimento de pertencer a mais do que uma família de sangue, mas sim, à grande família do circo.
Numa arte considerada milenar, mas que apenas recentemente foi reconhecida como parte da cultura em Portugal, a resiliência revela-se como uma característica de quem vive neste meio. Para além dos artistas por trás do figurino, existem pessoas que se reconhecem na dor do outro.
Durante o período em que os espetáculos ficaram suspensos, o Circo Arena acolheu a família Noronha, emprestando lonas e incluíndo artistas do Marisol em seus espetáculos.
“Nunca pensei que os outros circos, até aqueles com que não temos ligações, estariam dispostos a ajudar. Ninguém ficou indiferente”, afirma Edson Noronha.
O circo da minha infância
Susana Torralvo, de 47 anos, apresentadora e proprietária do Circo Arena, sabe bem o que é ter de começar do zero. Nascidos em famílias circenses, ela e o marido, Márcio Freitas, também de 47 anos, decidiram abrir o próprio circo em 2015. “Não herdamos nada de ninguém. Nós fomos construindo e tudo isto é caro, muito caro. A gente ganhava e investia, ganhava e investia…”, conta a apresentadora.

Mesmo com as incertezas da vida itinerante, Susana lembra da infância com carinho e reconhece a liberdade que teve ao crescer nas caravanas. Entre as viagens, a escola acontecia em contextos pequenos “Quando chegávamos a uma escola pequenina, chamávamos muita atenção. Os miúdos adoravam, fazíamos brincadeiras, coisas assim”, recorda Susana.

Mas a liberdade da estrada também vinha acompanhada de limitações. “No meu tempo, na escola a gente só conseguia fazer até a quarta classe”, explica a apresentadora. Hoje, a realidade das crianças do circo é diferente. A filha mais nova de Susana, Joice Torralvo, consegue manter os estudos através de aulas online e de uma escola matriz responsável por acompanhar sua trajetória acadêmica. Ainda assim, Susana acredita que o convívio continua a ser importante para o desenvolvimento das crianças.
Nascida na era digital, Joice vive um circo diferente daquele da mãe. Através do telemóvel, mantém contato com as amizades feitas durante as viagens pelo país inteiro. No Circo Arena, é a mais nova nos espetáculos, mas sobe ao palco com a segurança de um adulto. Aos 11 anos, já fala do futuro com convicção: “Eu quero fazer isto até o meu máximo. Quando eu começar a ficar velhinha, tenho que deixar.”
A jovem artista também reconhece o privilégio de crescer cercada pela família. “Eu acho mais fixe o facto de eu estar a viver num circo. Eu saio da escola e posso ir para ali, posso estar à volta. Tenho caravana e tenho a minha família quase toda aqui comigo. Irmãos, avó, tudo.” Trocar essa vida por outra? “Nunca.”
Na caravana ao lado, onde Joice costuma passar algumas tardes, vive outra personagem que faz questão de estar próxima da família. Aos 70 anos, Benilda Cardinali já se despediu das arenas, mas continua a acompanhar os dois filhos que são proprietários de circo. Hoje, acompanha o filho mais velho, Márcio Freitas, durante a temporada de apresentações de 2026 no Circo Arena.

Aos cinco anos, Benilda estreava um número pela primeira vez; aos 63, fazia sua despedida dos palcos e do público. Sentada à porta da caravana, fala do circo como quem fala de casa.
Para a artista reformada, o circo ultrapassa a ideia de profissão e se transforma em identidade. Adaptar-se a uma vida fixa nunca foi uma possibilidade.
“Nós somos galinha do campo. Não gostamos de estar presos.”, diz Benilda.
Uma família com várias famílias
O circo, historicamente, sobrevive como uma arte sustentada por famílias que se formam e se cruzam nas estradas. E é nesse movimento contínuo de quem chega e permanece, que o circo se renova em um patrimônio vivo, onde o legado se constitui de pessoas, saberes e experiências.
Herdeiro do espírito itinerante da família do Circo Arena, Flávio Freitas passou parte da infância na África, entre países como Marrocos, Tunísia e Líbia. Nos bastidores, acompanhava de perto os espectáculos junto de outras crianças circenses. Apesar da rotina em constante movimento, guarda sobretudo a leveza desse período: “Passávamos o dia todo a brincar”, recorda.

Filho mais velho de Susana e Márcio, Flávio começou a se apresentar como malabarista aos 15 anos. Hoje, aos 26, dá vida aos palhaços Pingo e Pipo dentro do universo circense, onde construiu também a própria família. Ao lado de Solange Santos, é pai de Cloe Siara, de dois anos. Ainda assim, evita projetar o futuro da filha no circo. “Ela vai ter liberdade total para fazer o que quiser”, afirma Flávio.
Solange também nasceu dentro da tradição circense. Filha, neta e bisneta de artistas, trabalha no Circo Arena há cerca de 10 anos. Nas apresentações, já passou por números de magia, corda vertical, facas e serpentes, além de colaborar na montagem da estrutura e no contato com o público. Como muitos artistas de circo, aprendeu desde cedo a desempenhar diferentes papéis.

Durante a pandemia, Solange precisou recorrer a outros trabalhos, mas foi nesse período que percebeu ainda mais a importância do que considera essencial na profissão: o encontro com o público. “É gratificante ver no final do espetáculo muitos a levantarem-se e aplaudirem. Quer dizer que o nosso esforço foi recompensado”, afirma a artista. Para ela, é essa troca que sustenta a continuidade da vida no circo.
Mesmo sem carregar o sobrenome da família do Circo Arena, Elisa Silva integra a companhia há dois anos, ao lado do marido e dos três filhos. Filha, neta e bisneta de artistas circenses, já trabalhou com números de ginástica, apresentações aéreas, serpentes, ursos e até números cômicos. Hoje, aos 48 anos, participa do número de magia com o marido, mas também ajuda nos bastidores dos espetáculos.
Para Elisa, porém, a realidade do circo ainda é marcada pela falta de reconhecimento.

Apesar das dificuldades, a artista vê com naturalidade a continuidade da tradição dentro da família.
O filho mais velho, Alexis Santos, de 23 anos, trapezista do Circo Arena, começou ainda criança nos números de palhaço, trabalhou com os animais e acompanhou o avô nos bastidores. E foi neste meio que nutriu o amor pela arte: “Foi aqui que eu nasci, é o que eu gosto. Nunca pensei em sair para fazer outra coisa qualquer”, afirma. Apesar de gostar de trabalhar no circo familiar, o jovem sonha ainda em trabalhar fora de Portugal. Entre os maiores objetivos da carreira estão o Festival de Monte Carlo e o Cirque du Soleil.
Na arena, Alexis divide um número aéreo com o irmão Dilan Santos, de 21 anos. Desde os 11 anos, já praticava os números de espetáculo e lembra com carinho da infância itinerante. Hoje, não se imagina sem estar na estrada: “Eu já não imagino a minha vida sem estar sempre a viajar de uma terra para outra”.

O circo que acolhe
No circo, nem toda família nasce dos laços de sangue. Algumas são construídas na estrada, entre espetáculos, dificuldades e encontros que transformam destinos. Nos circos familiares, alguns encontram mais do que trabalho: encontram abrigo, afeto e um recomeço.
Pertencente à quinta geração de circo, Fátima Machado desde muito pequena se adaptou a uma rotina de espetáculos que atravessavam fronteiras. Mas por trás das cortinas, a realidade era ainda muito mais dura. “É um bocado complicado, a minha infância no circo. Foi muito difícil. Eu era muito maltratada, batiam e me diziam coisas que não deviam dizer”, recorda a jovem.
Durante anos, Fátima viveu em um ambiente onde acreditava que o esforço poderia transformar essa realidade e que fazer tudo certo seria suficiente para receber o afeto dos pais. Mas o que acontecia era o inverso.
A decisão de sair não foi imediata, mas acabou por se tornar inevitável. Fátima preparou a saída em silêncio, com medo e incerteza. “Comecei a mandar as minhas coisas pelos correios… até que organizei o avião, o hotel e fugi. Tive muito medo do meu pai me encontrar, mas quando cheguei cá senti um alívio por ter deixado aquilo tudo atrás.”
O “aqui” é o Circo Marisol, onde foi recebida por Edson e Zulinda. Com a companhia, diz ter encontrado algo que não tinha antes: uma família de verdade.

No dia a dia, Fátima reconstrói a sua vida no Circo Marisol. Hoje, aos 20 anos, trabalha em números de contorcionismo e integra a produção do circo. Para a jovem, o público que vai aos espetáculos, é o que a motiva cada dia mais: “Ver as pessoas a rir e a bater palmas… é uma coisa que nos enche por dentro.”
Ainda assim, as marcas de um passado ficam. Fátima não se vê a construir uma família dentro do circo. “Não imagino ter filhos…com tudo o que passei, acho que não seria uma boa mãe.” Mas também não projeta outra vida fora dele. “Não. Só o circo. Quem nasce no circo morre no circo.”
Na caravana mais afastada do acampamento vive um homem de expressão séria que, na conversa, se desfaz facilmente num sorriso. João Paulo trabalha há três anos no Circo Arena como mágico cômico e na produção dos espetáculos. Apesar de não pertencer às famílias de sangue da companhia, acabou por se tornar mais um filho que este circo adotou.

Aos 13 anos, apresentou-se nas arenas pela primeira vez. Durante sua juventude, passou por diferentes números: equilibrista, palhaço, faquista e trapézio, onde atuava com a irmã. Hoje, aos 57 anos, acredita que será o último da sua família a seguir esta arte.
“A minha família, os meus filhos já nenhum segue isto. Estudaram e seguiram outros caminhos. Acho que a minha geração vai acabar aqui.”, conta João Paulo.
Mas ao longo da vida na estrada, também aprendeu a virar amigo da solidão. “Eu sou sozinho. Mas melhor sozinho do que mal acompanhado.”
Durante 17 anos esteve afastado do circo. Nesse período, trabalhou como caçador, serralheiro e mecânico. Ainda assim, o regresso acabou por ser inevitável. “O sangue. É o sangue desta arte. Não consegue estar parado”, resume o artista. Para ele, nas arenas tudo ganha sentido. “Ali tu vives para o público e sentes-te bem. É ali o nosso mundo.”
Depois de idas e vindas, João Paulo vê o circo como seu destino certo até o fim.
O espetáculo não pode parar
A rotina no circo segue um ritmo intenso e quase sem pausas. Na segunda-feira, começam as viagens. Na terça, as caravanas chegam a uma nova cidade. Entre quarta e quinta, os artistas se dividem entre a montagem da estrutura e os preparativos para as apresentações. Quando a sexta-feira chega, tudo precisa estar pronto. O público também entra em cena e o espetáculo começa.
No circo, trabalho e vida pessoal não se separam. Os artistas vivem a rotina circense 24 horas por dia. O desgaste físico e emocional faz parte do cotidiano, mas parar nunca é uma opção.

Acostumado à rotina de desmontar e montar a estrutura do Circo Arena, o artista Dilan Santos reconhece o cansaço provocado pelo trabalho constante. Ainda assim, diz encontrar no público a força para continuar.
“Até quando tou doente ou sem muita força, quando entro na pista parece que ganho uma energia extra. Acho que vem do público. Parece que tudo fica mais fácil lá.”, conta o jovem artista.
Mas há um outro tempo dentro do circo que não acompanha a agenda dos espetáculos: o tempo do luto. A perda de familiares afeta a rotina sem interrompê-la e, muitas vezes, precisa ser silenciada para não transparecer em cena.
Essa é uma lógica ensinada às gerações. No dia da morte da avó, recorda ter entrado na arena, mantendo a exigência de estar em cena como em um dia qualquer. “Todos os artistas que estão na pista têm que estar com um sorriso”, diz. “No dia que a minha avó faleceu eu estava com um sorriso enorme.”, relembra Joice.
A mesma experiência recente marca Andrew Noronha. Muito ligado ao avô, uma das suas principais referências dentro do circo, viveu a perda há cerca de três meses sem se afastar do trabalho. Poucos dias após o funeral, estava novamente na pista como palhaço — o mesmo número que aprendeu com o avô. “É como se faltasse qualquer coisa”, afirma Andrew. Ainda assim, encontra na memória do avô uma forma de permanecer:
“Faço por ele. Como se ele estivesse a ver todos os dias. É isso que me dá força.”

O pai, Edson Noronha, observa esse processo a partir de outra perspectiva. Para ele, a forma como o trabalho retoma poucos dias após uma perda revela uma dimensão pouco visível da profissão: a necessidade de transformar dor em presença.
Para Edson, o riso no circo não nasce apenas da leveza, mas de uma disciplina emocional constante. “O palhaço é um dos números mais difíceis que existem”, resume.

Entre a ausência nos bastidores e a presença exigida na arena, o espetáculo segue — mesmo quando a vida pede pausa.
O circo que fica às margens
“Nos dão espaços e mandam-nos para uma lixeira.” A frase de Benilda Cardinali não é apenas um desabafo — é uma imagem recorrente na vida de muitas famílias circenses em Portugal.
A cada nova cidade, o espetáculo começa muito antes da primeira apresentação. Começa na procura por um terreno, na troca de contatos, nos pedidos de autorização e nos prazos que raramente acompanham o ritmo do circo.
Mesmo quando há espaço, nem sempre há boas condições. “Portugal põe o circo no lado do lixo”, resume Zulinda Lopes. Afastados e degradados, os terrenos cedidos acabam por revelar uma lógica estrutural: a de empurrar a arte circense para as margens.
A desvalorização, dizem os artistas, vem sobretudo das instituições. “Pouco valorizada… somos pouco valorizados pelo Estado”, afirma Benilda Cardinali.
Na prática, o caminho até à instalação é feito por etapas. Primeiro o terreno. Depois a declaração do proprietário. Em seguida, o pedido de licenciamento. “Temos que dar sempre um processo de 15 dias para a câmara analisar.” Mas nem sempre há tempo suficiente. “Às vezes, quando pedimos um mês antes, o espaço já foi ocupado por outro circo.”, relata Susana Torralvo.
Sem garantia de ligação elétrica, a solução é adaptar-se com geradores e equipamentos próprios. Uma alternativa permanente, mas que custa caro. “Um gerador de 60 kW pode custar cerca de mil euros por semana”, explica Edson Noronha.

Ainda assim, há exceções. Alguns municípios garantem apoio total com luz, água e licenças. Mas a incerteza ainda faz parte da vida itinerante. “Nem temos a certeza do próximo lugar onde vamos montar o circo”, diz Marisol Noronha. O público também é incerto: “Muitas das vezes abrimos as portas para o mínimo que temos que ter. Tem vezes que não chega a ter essas 20 pessoas e mesmo assim nós abrimos as portas porque é o pouco que tá, nós temos que trabalhar.”
Mesmo assim, o circuito repete-se. As mesmas terras, os mesmos trajetos, ano após ano. Sustentado por um público fiel e por uma tradição que resiste.
Edson resume: “Não andamos para enriquecer. Andamos para sobreviver”.




















