O espetáculo iniciou-se com “Blushing” do coreógrafo Goecke, que explora emoções íntimas como vergonha, timidez e vulnerabilidade através do contrário, movimentos rápidos, lentos e nervosos, respirações ritmadas e muita transparência e crueza. Tem um início muito calado, apenas respirações e os sons dos movimentos dos próprios corpos e evolui para um ambiente mais apressado incorporando áudios que tornam a experiência mais intrigante.
Na segunda parte do espetáculo, foi apresentada “Medea” de Giarratana, que é uma criação em estreia e representa a fragilidade entre pertença e exclusão. Numa entrevista conduzida em inglês, a coreógrafa explica que a ideia para a peça surgiu quando Ricardo Runa a convidou a criar uma nova obra para a companhia.
“Não queria retratar Medeia como na tragédia grega”, esclarece a coreógrafa, pelo que procurou uma nova interpretação da história e após leitura e investigação encontrou um livro da escritora alemã Christa Wolf que a inspirou para o desenvolvimento da peça.
Na versão de Wolf, Medea é apresentada como uma outsider, uma figura marginalizada que após se apaixonar por Jason, é vítima de rumores falsos devido a interesses políticos e relações de poder. A personagem acaba por ser afastada da comunidade que constrói uma imagem negativa sobre ela através de acusações sem fundamento.
Giatarrana afirma que sente que esta abordagem se mantém atual, mostra como alguém pode ser transformado num elemento marginalizado pela sociedade através de rumores que muitas vezes, são transmitidos por pessoas que não se apercebem do processo de exclusão para que estão a contribuir.
Através de uma coreografia que depende muito do trabalho em grupo e da solo performance de Medea, a música e alguns adereços como longos tecidos têm o seu papel na intensificação da experiência.
Segundo a coreógrafa, o grande desafio foi conseguir fazer as mudanças emocionais e psicológicas visíveis sem se tornar numa narrativa demasiado explícita. “Não queria fazer uma história de ballet narrativo” disse Lucia.
Fundada na Covilhã, Kayzer Ballet procura “demonstrar que a qualidade e excelência não são dependentes da geografia”. A companhia “cria oportunidades profissionais para jovens bailarinos e tem como objetivo levar ao interior do país uma programação artística de dimensão nacional e internacional”. Sob a direção artística e coreográfica de Ricardo Runa, colabora com vários coreógrafos internacionais de renome.
























