Museu dos Lanifícios celebra Jornadas Europeias do Património

Nesta edição das Jornadas Europeias do Património, o Museu dos Lanifícios realizou, no dia 26 de setembro, uma visita guiada que terminou com a recriação da antiga técnica do “Pisoar a Lã”. O percurso, que contou com cerca de 30 participantes, permitiu conhecer a história dos lanifícios e a sua importância para a cidade da Covilhã.

No passado sábado, dia 26 de setembro, o Museu dos Lanifícios abriu as portas para uma visita guiada diferente. As instalações receberam mais uma edição das Jornadas Europeias do Património, este ano com o tema “Reviver, Resistir, Reinventar”. A visita foi conduzida por Ana Farias e contou ainda com uma oficina técnica, intitulada “Pisoar a Lã”, orientada por Andreia Félix. Cerca de 30 participantes marcaram presença, a maioria dos quais se foi juntando ao grupo à medida que passavam pela Universidade da Beira Interior (UBI).

Rita Salvado, professora da Faculdade de Engenharia da UBI e diretora do Museu dos Lanifícios, explicou que a temática deste ano “assenta e descreve muito bem o património têxtil da Covilhã e do Museu dos Lanifícios, pela sua história longa, mas que é de um património dos dias de hoje que se reinventa”.

A visita teve início no exterior da Real Fábrica de Panos, fundada em 1764,  por iniciativa do rei D. José e por intervenção do Marquês de Pombal, explicou Ana Farias, funcionária do museu. Já no interior da antiga fábrica, a guia levou os participantes numa viagem no tempo pela evolução da produção de lanifícios na Covilhã.

Ana abordou a finalidade dos largos poços cilíndricos, utilizados para o tingimento de “longos metros de tecido” e, com uma linguagem simples, para que a percebessem também os mais novos, contou ainda a origem “do vermelho e do azul da UBI”. O vermelho-carmim era obtido através do “ácido carmínico”, proveniente de um inseto, a cochonilha, enquanto o azul-índigo era obtido através do anil, de origem vegetal.

Os “pisões mecânicos” foram igualmente destacados pela guia, que contou ao grupo como estas máquinas “substituíram o trabalho do Homem no pisoar da lã”, uma experiência que, mais tarde, todos tiveram a oportunidade de vivenciar. “O pisoeiro passou de pisoar a lã com os pés em socas de madeira, para ter o trabalho de fazer funcionar o pisão, mas também lavava e cardava a lã”, explicou, enquanto caminhava com os participantes pelas instalações de um edifício que, um dia, foi uma fábrica e hoje dá lugar a uma universidade.

Todos puderam observar os materiais e equipamentos utilizados naquela época, na sua maioria originais, sendo muito poucas as réplicas no museu.

A visita prosseguiu para a Real Fábrica de Veiga, fundada por José Mendes Veiga, em 1784. No caminho entre as duas fábricas, foi possível observar a “simbiose entre o património natural e o património industrial, que também é património universitário”. Com exceção da Faculdade de Ciências da Saúde, “todos os centros, departamentos, faculdades e até mesmo residências dos estudantes da UBI são antigas fábricas de lanifícios”, contou Ana Farias.

A guia explicou que este “núcleo museológico” foi sendo ampliado à medida que José Mendes Veiga aumentava os seus recursos. Os vários processos de produção encontravam-se distribuídos pelos três pisos: “no piso de baixo temos a cardação e a ultimação de tecidos e em cima temos a fiação, a preparação da tecelagem e a própria tecelagem”.

Ao contrário da Real Fábrica de Panos, a coleção vista na Real Fábrica de Veiga “não pertence ao século 18”.  O edifício “ardeu por completo”, perdendo-se o material que originalmente se encontrava no espaço. “O que estamos aqui a conhecer é um grande trabalho de conservação ativa do património industrial que o Museu dos Lanifícios tem à sua guarda”, explica Ana, acrescentando que as máquinas atualmente expostas foram para lá “levadas e montadas peça a peça”.

Foi também nesta fábrica que os visitantes ficaram a conhecer a feltragem da lã, que resulta da ação da pressão e do calor. “A lã tem uma característica que a permite ser fácil de feltrar”, explicou a guia, referindo que as fibras se unem e tornam o tecido mais compacto. Os participantes puderam experimentar esta propriedade logo a seguir.

Após o lanche partilhado, o grupo partiu para o exterior, onde já se encontrava preparada a lã. Os participantes descalçaram-se e, apesar de não utilizarem as tradicionais socas de madeira, começaram a pisoar a lã sob a orientação de Andreia Félix e ao som das tunas Encantatuna e Orquestra Académica Já b’UBI & Tokuskopos. O momento foi marcado por várias danças em conjunto e pela vivência desta memória ligada à tradição dos lanifícios.

 

A diretora do museu destacou a importância do contacto direto com esta técnica para a valorização da lã. “É uma matéria-prima única que tem esse ecossistema que liga a indústria à natureza que nos mobiliza a todos”, diz. Rita Salvado deixou ainda uma mensagem, pedindo a todos “que venham conhecer as propriedades singulares e muito especiais da lã, para a valorizar e para, assim, a escolherem e usarem cada vez mais.”

Na celebração estiveram também presentes o vice-reitor da UBI, Pedro Costa, e Ana Carvalho, em representação da Associação Académica.

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