Quando o cinema da UBI filma a vida que dói crescer

Há uma idade em que o futuro pesa e a mala de viagem dos amigos parece levar um bocadinho de nós. Foi precisamente esse eco de despedida que ecoou nas paredes do Teatro Municipal da Covilhã, na passada terça-feira, 13 de outubro.

A pretexto do ciclo “Filmes Made in UBI”, uma parceria com a universidade local, cerca de 60 pessoas sentaram-se no escuro da sala para ver o que a nova vaga de realizadores do curso de Cinema da Universidade da Beira Interior tem para dizer. A noite fez-se de várias curtas-metragens. Vimos corpos e dúvidas em “Não sei o que fazer com as mãos”, a delicadeza visual de “A luz das impressões”, a crueza da saúde em “Além do diagnóstico” e o quotidiano rural ou operário em “De sol a sol”. Mas a sala bateu mais forte por um filme em particular: “O tempo e a vontade de ficar”, assinado por Henrique Rangel. A curta conta a história de Pedro Maia, um jovem atolado em inseguranças que vê o seu mundo abanar quando Regina, a amiga que transborda a coragem que a ele lhe falta, decide partir para a cidade grande em busca de trabalho.

Os realizadores à conversa com o público no final da sessão

A premissa tem raízes reais e biográficas. Henrique Rangel inspirou-se num momento do seu próprio ensino médio, quando um amigo próximo ganhou uma bolsa para o Japão. Esse abalo da separação voltou a bater-lhe à porta mais tarde, na pele, quando o próprio realizador escolheu Portugal como casa. Não foi por acaso que este foi o filme mais aplaudido e acarinhado da sessão.
Num auditório composto maioritariamente por estudantes, a história tocou no nervo exposto de quem vive na corda bamba da juventude. Aquelas 60 pessoas não estavam apenas a ver a ficção de Pedro e Regina; estavam a rever-se na proximidade de quem sabe o que é ter de escolher entre a segurança do sítio onde se cresceu e o abismo de partir. O cinema feito na UBI provou, mais uma vez, que sabe filmar as nossas próprias urgências.

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