A frase ecoou no auditório do Teatro Municipal da Covilhã na última terça-feira com o peso sereno de quem traz nos ombros quase um século de vida e arte. Mas a noite guardava um carinho ainda maior do que as palavras sugerem. No palco do TMC, onde Ruy de Carvalho apresentou o monólogo Ruy, a História Devida, o tempo pareceu suspender-se para alinhar uma daquelas coincidências poéticas que só o destino consegue entregar. Há noventa anos, com apenas nove anos de idade, o pequeno Ruy apresentava-se nesse mesmo palco, sem imaginar os inúmeros papéis que viria a viver em cima dos palcos pelo País e pelo mundo. O ator mais experiente em atividade no mundo já foi Rei Lear, de Shakespeare, Fígaro e o Avô João em Inspector Max, impactando várias gerações de portugueses. Junto dele no palco esteve o amigo e colega de cena Luís Pacheco, que teve a oportunidade de dividir o palco com a personificação da história do teatro português.
“O Ruy é uma lenda do teatro português. Vai fazer cem anos no dia 1 de março. Eu tenho esta honra, já desde 2020, de trabalhar com o Ruy em palco, primeiro com A Ratoeira, uma peça policial da Agatha Christie, um texto intenso, muito bom; e depois mais tarde quando fui convidado para fazer esta parceria com ele. Não é bem uma peça de teatro, é uma conversa que nós temos: não temos personagem, nem eu faço de nenhuma personagem especial, faço de Luís Pacheco e o Ruy faz de Ruy de Carvalho. Portanto, fazemos de nós próprios e é uma conversa muito interessante. É uma honra estar ao lado deste homem no palco, no alto dos seus noventa e nove anos, e ver que continua com vontade e energia para trabalhar para o público. É fantástico.”
Mas há um desafio por trás dessa obra: é a primeira vez que Ruy e Luís não vestem personagens, e interpretarem-se a si mesmos é algo novo até para quem já viveu noventa anos nos palcos. “Eu e o Ruy às vezes falamos sobre isso e é, talvez, o papel mais difícil: fazer de nós próprios, porque estamos completamente despidos da personagem. Ou
seja, somos nós que estamos ali e às vezes pode haver algum receio em
estarmos demasiado expostos, digamos assim. Mas neste caso em específico, sendo o Ruy e sendo uma peça baseada na história dele, uma espécie de conversa de dois amigos, o processo é muito saudável”, explicou Luís Pacheco.
O público da Covilhã não decepcionou na recepção a um dos filhos de coração mais ilustres da terra. Mesmo tendo nascido em Lisboa, Ruy cresceu na cidade e levou o espírito da Beira Baixa para dentro das obras que realizou. Na plateia, o sentimento de orgulho era partilhado por várias gerações. Para a covilhanense Rafaela Marrocano, o percurso do ator confunde-se com a própria história da cultura nacional: “Nós, desde pequeninos, estamos sempre a ouvir falar do Ruy de Carvalho, vemos na televisão, no teatro, em todo o lado. Por isso é história mesmo. Acho que é um orgulho termos esta chave entregue a ele. Representa bem a Covilhã e o espírito da Covilhã. É a lenda viva que
agora temos”.

Já Jorge Brígida, estudante na UBI e oriundo de Carnaxide — onde o auditório municipal tem precisamente o nome do ator —, destacou a vitalidade impressionante do quase centenário Ruy em cena:
“Representa a história do teatro nacional, todo o repertório que ele tem é incrível. É chegar aqui aos noventa e nove anos e lembrar-se dos primeiros passos no teatro da Covilhã, das peças de que falou, dos poemas, e dizer tudo com toda a força do diafragma. É uma energia incrível.”
No final do espetáculo, uma sonora salva de palmas de mais de três minutos homenageou o ator, que ficou visivelmente emocionado. Junto a ele ficaram os filhos e o colega de palco para a solene homenagem da Câmara Municipal da Covilhã, que entregou a honraria mais importante — a Chave da Cidade — a um dos filhos adotivos da terra.
Para o Presidente da Câmara Municipal, Hélio Fazendeiro, o momento
encerrou com chave de ouro as celebrações do concelho: “É uma grande emoção e um grande privilégio. Não imagino uma forma melhor, mais honrosa, mais orgulhosa e mais emocionante de encerrar a celebração do dia da cidade do que entregar a mais alta distinção e homenagem do nosso município a um covilhanense de adoção. O Ruy de Carvalho adotou a Covilhã como uma terra sua e foi naturalmente adotado pelos covilhanenses. Se pudesse resumir tudo o que ele fez numa só palavra, seria amor. É a mensagem mais poderosa e que salvará sempre a humanidade”.
Foi assim, entre sorrisos, memórias resgatadas e muitas palmas, que a cidade retribuiu todo o afeto de um dos filhos mais ilustres desta terra. Com o fechar da cortina, Ruy de Carvalho e a Beira Baixa imortalizaram um amor gravado nos palcos do Teatro Municipal da Covilhã desde 1936.

























