Quem entrou naquela sala não procurava o mero entretenimento de passatempo; procurava o espelho desconfortável que a arte contemporânea insiste em carregar ao peito.
A viagem começou na quinta-feira à noite com o coletivo SillySeason, que pegou no esqueleto milenar de Antígona e vestiu-o com as roupas amachucadas da juventude de hoje. No palco, Antígona, Polinices e Hémon deixaram de ser apenas mitos gregos para se transformarem em rostos demasiado parecidos com os rapazes e raparigas que vemos nas paragens de autocarro, perdidos entre decretos governamentais e a asfixia de um futuro que lhes foi cortado antes de começar. A pergunta ecoou no teto alto do TMC: o que nos é permitido sonhar? A resposta, pesada, ficou suspensa no ar por 90 minutos.
Na noite seguinte, o festival mudou de tom, mas não de intensidade. Primeiro, ao fim da tarde, as cadeiras do debate encheram-se para tentar decifrar esse bicho-papão a que chamamos “criação contemporânea”. Depois, Tiago Cadete trouxe Souvenir. Foi um murro estético na memória coletiva portuguesa. Ao puxar o fio da história da sua própria família e da vaga de emigração para França nos anos 60, Cadete não fez apenas um documentário coreografado; abriu uma ferida antiga que muitos na região conhecem por experiência própria — a mala de cartão, a partida, o silêncio.
O fecho, no sábado, quebrou as regras do espaço. Lígia Soares e Henrique Furtado Vieira espalharam a sua coleção de performances, Morrer pelos Passarinhos, pelos cantos do teatro. Quem ali esteve viu-se obrigado a mover-se, a habitar o palco de outra forma com Godôs e Bocas, lembrando-nos que o teatro acontece onde o corpo estiver, e não apenas onde a cadeira está aparafusada.
O ContraDANÇA passou pela Covilhã e já partiu. Ficam os ecos de vozes que não quiseram calar-se e a certeza de que, durante três dias, o TMC foi o lugar menos perfeito — e mais vivo — da cidade.



























