Estaria Trump a dar um tiro no próprio pé?

Após bombardear embarcações no Caribe e no Pacífico, o Governo Trump agora mira seus canhões para outra barca: a de São Pedro. De um lado do forte está o presidente da maior potência econômica do planeta, com 340 milhões de habitantes. Do outro, um líder de uma das religiões mais antigas do mundo, com 1 bilhão e meio de seguidores.

Vivemos tempos de tamanha polarização política que, quando Robert Francis Prevost surgiu na varanda da Basílica de São Pedro como o novo Papa Leão XIV, a inquietação imediata de muitos não foi espiritual, mas ideológica: “qual é o posicionamento político do papa?” Ao contrário do que parte da opinião pública parecia esperar, seu primeiro mês de pontificado não foi marcado por grandes rupturas, como se a Igreja funcionasse à lógica eleitoral de presidentes e partidos.

Antecessor do Papa Leão XIV, o Papa Francisco também mantinha uma postura firme contra as guerras. Durante o papado, setores do governo americano frequentemente desqualificavam suas declarações sob o argumento de que, por ser latino-americano, Francisco não compreenderia plenamente a lógica de “defesa nacional” do país.

A eleição de Leão XIV, porém, enfraquece essa narrativa. Primeiro papa norte-americano da história, o pontífice defende que a posição da Igreja Católica contra os conflitos armados vai além de nacionalidade ou ideologia. Posicionamento esse, que aumenta a tensão entre o Vaticano e o governo americano.

Já Donald Trump adota um discurso firme e confiante ao declarar, em publicação na rede social X: “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano”. No mesmo texto, em resposta ao apelo de Leão XIV por um cessar-fogo no conflito do Oriente Médio, o presidente classifica o pontífice como “FRACO no combate ao crime e péssimo em política externa”.

Desde o início de seu novo mandato em 2025, Trump tem utilizado as redes sociais não apenas como ferramenta de comunicação, mas como instrumento de construção simbólica de poder. Nos últimos meses, imagens geradas por inteligência artificial e publicadas pelo próprio presidente ganharam repercussão na internet. Entre uma delas, Donald Trump é retratado com uma túnica branca, tal qual Jesus é comumente representado, abençoando um homem doente.

O que, aos olhos de Trump, parecia ser uma boa ideia, acabou se tornando um desgaste político desnecessário. Após inúmeras críticas vindas da comunidade cristã e até mesmo de seus maiores apoiadores católicos, o conteúdo foi removido das redes sociais. Em resposta aos repórteres, Trump afirmou tratar-se de um mal-entendido produzido pela imprensa, “Não era uma representação disso. Eu publiquei, e achei que era eu como médico. Tinha a ver com a Cruz Vermelha, como um trabalhador da Cruz Vermelha, que nós apoiamos”.

O discurso do presidente republicano frequentemente revela contradições. Em declaração à imprensa, afirmou: “Eu não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma”. A frase, porém, parte de um pressuposto não sustentado por qualquer declaração conhecida do Papa Leão XIV, o que reforça a tendência de Trump de mobilizar temas religiosos como instrumento de confronto político.

Dentro do próprio debate católico nos Estados Unidos, há incoerências e divisões de opinião em temas como imigração, aborto e pena de morte. Um exemplo recente envolve a intenção do cardeal de Chicago, Blaise Cupich, de homenagear o senador democrata, Dick Durbin, pelo seu histórico de defesa dos imigrantes. A decisão gerou polêmicas entre bispos norte-americanos devido ao posicionamento do senador a favor do aborto, considerado incompatível com a doutrina da Igreja.

Em resposta, o papa Leão XIV reconheceu a complexidade do tema e afirmou ser necessário considerar diferentes dimensões do ensino da Igreja. Segundo o pontífice, não há coerência em posições que se declaram pró-vida e que ao mesmo tempo defendem a pena de morte ou políticas de tratamento severo a imigrantes.

As palavras do papa geraram reação imediata entre influenciadores e setores da extrema direita norte-americana, que interpretaram a fala como crítica direta aos republicanos. A administração de Donald Trump evitou um confronto institucional, mas a porta-voz Karoline Leavitt defendeu as políticas de deportação em massa como “a forma mais humana possível de fazer cumprir a lei”, mantendo o conflito em torno da atitude moral dessas medidas.

Mas a pergunta que permanece é: Estaria Trump a dar um tiro no próprio pé? Para um presidente que construiu e sustentou o trumpismo desde 2016 como uma força quase inabalável, confrontar uma instituição com mais de dois mil anos de história talvez seja um risco político maior do que parece.

Em 2026, o presidente americano enfrenta um fenômeno inédito: o surgimento de rachaduras dentro da própria base MAGA, núcleo mais radical e fiel do movimento que o levou de volta à Casa Branca. Segundo uma pesquisa realizada entre 20 e 23 de março de 2026 pelas empresas Shaw & Company Research e Beacon Research, a aprovação de Trump entre eleitores católicos caiu para 48%, enquanto 52% passaram a desaprovar sua gestão. Além disso, apenas 23% dos católicos afirmam aprovar fortemente o presidente, enquanto 40% demonstram forte desaprovação. De acordo com pesquisa publicada pela Pew Research Center em 2025, os Estados Unidos têm a quarta maior população católica do mundo, com 53 milhões de fiéis.

Outro sinal que revela essa crise é o rompimento de parte do apoio religioso a Donald Trump, incluindo figuras como o bispo Joseph Strickland. Embora não seja um progressista nem um opositor histórico do presidente, Strickland foi, pelo contrário, um de seus mais fiéis defensores após o resultado das eleições de 2020. Ainda assim, diante dos ataques direcionados ao Vaticano, passou a adotar uma postura crítica ao governo.

Ao afirmar que “não buscamos um líder nacional” e que “o poder supremo pertence a Cristo, e não a qualquer homem”, Strickland expõe uma contradição perigosa do próprio trumpismo: o momento em que a devoção política começa a disputar espaço com a fé que muitos de seus apoiadores dizem defender.

Confrontar adversários políticos sempre foi parte da estratégia de Donald Trump. Mas comprar uma guerra simbólica contra uma instituição milenar pode ser um conflito que nem mesmo o trumpismo consiga vencer.

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