Para muitos portugueses, o momento mais aguardado do ano é o início da festa da aldeia, no verão. De norte a sul, as celebrações até podem mudar de nome, mas os ingredientes essenciais são os mesmos. A tradição mantém um ritual, que resiste às mudanças do tempo e da sociedade. Talvez por isso tenha tanto valor: continua a juntar pessoas, numa era em que o convívio e a criação de memórias, na sua forma mais pura, estão em extinção. É um ponto de encontro que sobrevive a um mundo cada vez menos genuíno, mais virtual.
Nestes dias, muitos filhos e netos da terra reencontram a infância e a felicidade mais simples, sem pressa. E apesar de tudo estar a mudar à nossa volta, é curioso como estas festas continuam a funcionar quase da mesma forma. Há nelas uma repetição confortável e nostálgica, como se tudo permanecesse no mesmo lugar, independentemente das gerações.
Ora vejam se isto não soa familiar.
Chegamos ao recinto e está instalado um pequeno caos, perfeitamente organizado à moda portuguesa. A comissão de festas vive a típica azáfama, a ultimar todos os pormenores. Luzes coloridas e flores de papel decoram o espaço e o cheiro a sardinhas começa a misturar-se com o das farturas acabadas de fazer.
Há um ponto de passagem obrigatório: a banca das rifas. Um cesto com papelinhos dobrados alimenta a esperança de todas as idades, atraídas pelo cartaz pendurado a dizer “Sai sempre prémio!”. Geralmente, bibelots. Pode ser um porta-chaves, uma caneca ou até um disco da banda filarmónica da aldeia, gravado em 1990. Ou então um peluche que, claramente, já viveu melhores dias. E aqui acontece o verdadeiro milagre da quermesse: ninguém sai realmente desiludido. Mesmo quando o prémio é pouco ou nada útil.
Depois há o homem que não larga o microfone. Pertence à organização e passa uma tarde inteira a testar o som: “Um, dois… Som, som! Um, dois… Está?”
Sim, senhor Acácio, já está. Há duas horas.
Mas a aldeia ouve tudo na mesma, porque faz parte do ritual sofrer ligeiramente com o volume. Aliás, é imperativo que a música se faça escutar nas freguesias vizinhas. Caso contrário, a festa é um fiasco.
No meio disto tudo, acontecem os reencontros efusivos de quem vive longe e regressa à aldeia para a festa. “Há quanto tempo!”, “E o marido como está?”, “É a tua menina? Está tão grande”. Por alguma razão, retomam-se conversas antigas, exatamente de onde ficaram, como se tivesse passado uma semana e não cinco anos.
Espalhadas pelo recinto estão as famosas mesas e cadeiras brancas, de plástico, que se tornam estranhamente confortáveis nas noites de verão. Famílias e amigos ocupam-nas durante horas.
É ali que acontecem as melhores conversas, muitas vezes com uma observação social minuciosa (eufemismo para “má-língua”) dos conterrâneos: “aquele está com um ar acabado…”, “eu até nem sou de intrigas, mas…”, “esta juntou-se com o do café, vão casar”, “olha para aquilo, carro novo e tudo…”, “coitadinho, até era bom moço, depois estragou-se”, “tu sabes quem é, vive ali em cima, é a filha do…”, “aqui entre nós, ouvi dizer que…”.
Já se sabe que nunca fica “entre nós”. Mas essa também é a magia destes convívios, as primeiras redes sociais.
Os mais novos divertem-se a gastar as fichas dos carrinhos de choque e a visitar a rulote que vende gelados e algodão doce. E, nesta altura, dá-se também o regresso dos emigrantes. São recebidos quase como celebridades e passam metade do tempo a dizer “isto mudou muito” ou “lá fora não é assim”.
Mas não há farra sem os famosos “comes e bebes”. Ou, como se diz oficialmente no cartaz, o “esmerado serviço de bar”. As bifanas da festa merecem um estatuto próprio. Ninguém sabe explicar porquê, mas são sempre melhores do que qualquer uma no resto do ano. Há teorias sobre o ar, a música ou a companhia. Nenhuma comprovada.
À noite, começa o tão aguardado concerto! É o momento alto, em que banda convidada toca aquelas músicas que toda a gente sabe de cor. De repente, a praça enche-se de vida e, em frente ao palco, veem-se dezenas de pares a dançar. O ritmo é sempre o mesmo, todos conseguem acompanhar. Claro que há uma canção não pode faltar. Aos primeiros acordes, cria-se, imediatamente, uma fila gigante, a serpentear de um lado para o outro: o tradicional comboio humano.
E há sempre o senhor que dança sozinho. Uma personagem que parece saída do Pátio das Cantigas. Figura essencial. Muito animado, com um copo na mão (ou vários, porque a conta perde-se cedo), percorre a festa como se fosse o anfitrião. Fala com toda a gente, interrompe conversas para contar histórias que ninguém sabe se são verdadeiras (nem ele), ri muito alto, bate nas costas de desconhecidos como se fossem amigos de infância e, de quando em vez, tira a harmónica do bolso para tocar meia dúzia de notas desafinadas. Já ninguém o pode ouvir, mas no dia em que se calar, a sua falta será bem mais barulhenta.
É uma presença cada vez mais rara no nosso mundo. No meio de tanta gente preocupada em parecer, há quem realmente seja. Sem pensar no que “os outros vão dizer”, sem ensaiar poses ou palavras para soar bem… A espontaneidade está em extinção. Em vez de a estranharmos, há que protegê-la.
Talvez seja esse o segredo de um bom baile de verão. A simplicidade e a falta de filtros mostram que podemos ser felizes “como antigamente”. E a verdade é que não precisamos de muito mais para estarmos bem.
Aliás, é curioso como estas celebrações são um retrato daquilo que Amália Rodrigues cantava:
Basta pouco, poucochinho pra alegrar
Uma existência singela
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde verdinho
A fumegar na tigela
É uma festa portuguesa, com certeza! Um lugar onde o tempo ainda não se atreve a passar. Este ano há mais e ainda bem que assim é.






