A espetacularização da intimidade: cultura ou negócio?

A cultura deixa de emancipar e passa a servir o sistema económico. É a frase inicial que escolho para este artigo. O tema são os reality shows, que tanta atenção roubam dentro do nosso panorama. A questão é se estes programas atuam como uma simples forma de diversão ou passam a ter impacto direto na sociedade. Os valores que são postos em causa e o controlo sobre a audiência. 

Em horário nobre, os reality shows ocupam parte do tempo, fora os espaços de debate sobre o programa e toda a atenção mediática. A propagação nas redes sociais que alimenta conversas e torna o tema num dos mais falados do país no momento. Durante semanas, episódios, conflitos e comportamentos dos concorrentes dominam as tendências. Deste modo, temas de maior relevância social, cultural ou política recebem menos espaço mediático.  

A espetacularização do conflito e da intimidade, num cenário de vigilância permanente pode-se apresentar como uma realidade certas vezes manipulada. Apela-se à competição por estatuto e recompensas monetárias, através da exploração de emoções e do foco em polémicas. Toda a audiência obtida faz com que se valorize o conflito como forma de entretenimento. 

 A televisão é o principal veículo de conteúdos para as pessoas, que consomem a programação dos principais canais. Opta-se por transmitir este tipo de conteúdo num espaço que podia ser utilizado de outra maneira. Insiste-se em encontrar novos métodos para propagar o programa, quando outros temas ficam abafados, seguindo uma lógica comercial. 

 Os meios de comunicação têm capacidade para influenciar determinados hábitos das pessoas, conforme a exposição dos conteúdos, que molda parte da atenção coletiva. Até que ponto uma abordagem mais cultural não enriqueceria melhor tudo o que nos pertence? Não existe demasiado foco no panorama nacional em assuntos de certo modo irrelevantes? 

Embora os reality shows constituam uma forma legítima de entretenimento, levantam-se questões sobre o equilíbrio entre interesses comerciais e enriquecimento cultural. Parte da atenção pública concentra-se neste tipo de conteúdos, reduzindo o espaço disponível para outros programas de entretenimento, capazes de promover conhecimento, reflexão e participação cívica.

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