O preço a pagar pelas medalhas

Sem Autor

Muito, e cada vez mais, se ouve falar sobre a saúde mental e o impacto que tem no nosso dia a dia e na forma como construímos relações com os outros. Mas, e se falarmos no caso específico de atletas, será que para além do corpo também tratam da mente? A pressão, metas a cumprir, tempos limitados, um corpo para manter tudo isto conjugado com a vida pessoal, não é um desafio fácil.

Sem dúvida que a parte fácil é quando as medalhas já estão ao peito, e o sucesso espalhado por capas de jornais e entrevistas, mas fica por ver todo o trabalho que está por detrás disso. Os treinos menos bons, os maus resultados, as relações mais agridoces entre treinador e atleta, tudo isto conta, na hora de entregar aquilo para o qual os atletas treinaram, e é o reflexo do invisível.

É uma interpretação até em parte histórica, olhar para os atletas de alta competição e vê-los quase como se fossem deuses mitológicos, feitos de ferro e imunes à dor. Mas por detrás de cada treino, competição e medalha está uma pessoa exatamente como nós, que lida diariamente com toda a pressão de entregar resultados dentro do seu desporto e ainda desenvolver uma vida pessoal.

A estes atletas é lhes exigido tudo, consistência, resiliência e uma capacidade incrível de muitas vezes engolir a frustração. E infelizmente é uma cultura desportiva que começa cada vez mais cedo. No meio do caos semanal entre treinos e aulas, a chegada do fim de semana muitas vezes não significa descanso, aliás é quando muitas vezes acontecem as competições mais importantes. É exigido que sejam “fortes” e que aguentem, o quase sinónimo de estar “calado” e de engolir a dor quer seja física ou psicológica, porque isso simbolizava fraqueza.

Felizmente temos cada vez mais exemplos de atletas a nível mundial que mostram que serem vulneráveis e mostrarem as suas dificuldades não é vergonha, mas sim um ato de coragem. Quando Simone Biles abdicou de finais olímpicas para proteger a sua integridade mental, ou quando Naomi Osaka preferiu a saúde às conferências de imprensa obrigatórias, o mundo do desporto sofreu um abalo sísmico. Abalo gigante, mas também muito necessário, pois foi a partir daqui que as questões de saúde mental no desporto começaram a ser levadas de forma mais séria.

Mais do que diagnosticar a ansiedade ou a depressão, a saúde mental reflete o esforço diário de milhares de atletas e uma realidade que o público, muitas vezes, só valoriza através do sucesso. Falo ainda daquele que pode ser o maior “fantasma” dos atletas, as lesões que modificam a rotina e os impossibilitam de fazerem aquilo de que mais gostam. É urgente ter apoio nestas fases tão críticas na vida dos atletas, pois para além de cuidarem do corpo têm também de cuidar da mente.

Um atleta não é definido pela quantidade de prémios que ganha, mas sim pelos verdadeiros ensinamentos do desporto que leva para o resto da sua vida, a resiliência e a perseverança transversais para todos os contextos de vida. As medalhas e troféus ficam nas gavetas, o mais importante é não perder a essência durante este longo percurso.

Pode ler também