Não é aos 17 que se ganha gosto pela leitura

Andava eu no secundário e já esta ideia curiosa circulava: a de que os adolescentes não gostam de ler. A solução, dizem algures, é simples: facilitar. Tirar o que é complicado, substituir por algo mais “apelativo”, mais… leve. No fundo, transformar a leitura numa espécie de sobremesa pedagógica: doce e fácil de engolir (mas sem grande valor nutritivo).

É aqui que entra o argumento mais repetido: ninguém ganha gosto pela leitura a ler textos difíceis no secundário. E, no entanto, ninguém parece muito preocupado com o facto de também ninguém ganhar gosto pela matemática a resolver equações, nem pela física a estudar forças invisíveis. Nessas áreas, a dificuldade é aceite como parte do processo. Na literatura, pelos vistos, é um “erro de planeamento”. Dizer que um aluno não deve ler textos exigentes porque isso o afasta da leitura, é partir do princípio de que o objetivo da escola é seduzir e não formar.  Convém esclarecer uma coisa: a escola não existe para nos fazer gostar de tudo. Existe para nos ensinar coisas. Algumas interessantes, outras menos, algumas fáceis, outras francamente irritantes. O gosto, quando aparece, é um efeito secundário. Às vezes vem mais tarde, quando já não somos obrigados a nada, o que é uma ironia simpática.

E depois há o caso específico de José Saramago, que parece ter sido promovido, nos últimos tempos, de “autor fundamental” a “experiência potencialmente traumática”. Saramago, dizem, é difícil. As frases? Longas, conseguia ver quatro TikToks nesse tempo… A pontuação? Estranhíssima, às vezes nem sabemos bem quem está a falar. Tudo isto é verdade, e talvez seja precisamente por isso que importa lê-lo. Porque obriga a abrandar, a reler (talvez com um dicionário ao lado), a prestar atenção. Coisas que, convenhamos, não abundam muito no dia a dia.

Lembro-me, aliás, da primeira vez que tentei ler Saramago. Não foi um amor à primeira leitura. Foi mais um “braço de ferro” para ver quem era mais teimoso, com pausas frequentes e alguma desconfiança. Será que é isto que ele quer dizer? Esta palavra existe mesmo? Isto é um parágrafo ou uma fala? Mas, algures entre uma frase que parecia não acabar e um diálogo sem travessões, tudo começou a fazer sentido. Quer dizer… talvez não tudo, mas o suficiente.

É verdade também que há uma certa desconfiança implícita em relação aos próprios alunos. Assume-se que não são capazes, que vão desistir, que precisam de ser protegidos da complexidade. É uma visão curiosa, sobretudo quando se considera que esses mesmos adolescentes conseguem passar horas a decifrar jogos complicados, séries com múltiplas linhas narrativas ou até letras de músicas que não são propriamente um modelo de clareza. Afinal, talvez o problema não seja a dificuldade em si. Talvez o problema esteja na expectativa de que tudo tem de ser imediatamente compreensível, imediatamente agradável, imediatamente recompensador. A leitura raramente é assim. Exige atenção, paciência e, ocasionalmente, a humildade de não perceber tudo à primeira. Não é um defeito, é uma característica.

E depois há a questão mais ampla: o que é que se perde quando se decide que certos autores são “demasiado difíceis” para serem lidos na escola? Perde-se o contacto com uma linguagem mais rica, com estruturas diferentes, com formas de pensar que não cabem em frases curtas e diretas. O que seria da sociedade se só falássemos em monossílabos? Em frases de três palavras? Conseguiríamos chegar à lua?

No meio disto tudo, talvez valha a pena voltar ao essencial. Aprende-se a ler aos 7 anos, ou por aí. Aos 17, o que se espera já não é aprender a gostar, mas aprender a ler melhor. E isso, felizmente, não se faz a simplificar tudo até caber numa frase curta.

Se for para tirar alguma coisa do Secundário, talvez não seja José Saramago. Talvez seja a ideia de que os jovens não conseguem lidar com complexidade. E de que ler deve ser sempre fácil. Porque gostar de ler pode vir depois. Mas ler, mesmo quando custa, isso aprende-se. E convém não desaprender.

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