Às vezes, é melhor guardares para ti

Há um fenómeno que me incomoda cada vez mais nos nossos dias: a ilusão de que o mundo precisa, desesperadamente, de ouvir tudo o que nos vai na alma. Parece que a sociedade está contagiada pela febre do comentário impulsivo, com uma pressa de gritar sentenças que atropela qualquer hipótese de reflexão ou de sensibilidade. Hoje, a “falta de filtro” é celebrada como virtude. Esquecemo-nos de que as palavras têm peso.

Por um lado, assistimos a uma urgência desmedida em falar do desconhecido. Todos têm de opinar sobre tudo, mesmo quando não fazem a mais pálida ideia do assunto. São os treinadores de bancada da vida moderna: especialistas de ocasião que, em poucos segundos, se tornam peritos em qualquer matéria.

Basta algo ser noticiado no país para surgirem explicações óbvias e soluções infalíveis. Se uma tempestade provoca estragos, aparecem técnicos improvisados em proteção civil e ordenamento do território. Se as rendas sobem, todos sabem exatamente como regular o mercado em três medidas simples. Problemas nos hospitais? De repente, todos são gestores do SNS.

A resposta está sempre na incompetência alheia. Afinal, bastava ter feito isto, bastava ter decidido aquilo, bastava pensar melhor. Qualquer dilema parece ter uma solução simples, rápida e evidente, mas só quando cabe aos outros implementá-la.

E, no meio de tanta convicção, raramente algo está bem. Uma estrada é cortada para obras e a indignação é imediata porque atrapalha quem precisa de passar. Mas se as obras não acontecem, a culpa é da incompetência de quem governa. Um concerto numa arena esgotada é uma vergonha, porque “se fosse para trabalhar ninguém aparecia”. Até o tempo é um alvo: o sol no verão é insuportável, a chuva no inverno é um martírio…

A regra é falar primeiro e pensar depois.

E se na praça pública este impulso gera tanto ruído, nas relações pessoais assume contornos tão ou mais destrutivos. É neste cenário que encontramos aqueles que se autoproclamam “muito frontais”. Sob o rótulo de uma suposta honestidade assertiva e necessária, estas pessoas sentem-se no direito de disparar críticas destrutivas, com a naturalidade e confiança de quem faz um elogio.

É o chamado “sincericídio”, exibido como medalha de mérito. Aquilo a que chamam autenticidade é, muitas vezes, apenas a incapacidade de controlar o próprio ego e uma ausência total de empatia. Invocam a verdade como instrumento para mascarar comportamentos apenas cruéis e sem sensibilidade. O impacto que podem causar no outro nunca é sequer considerado.

Esta tendência é bem ilustrada pelo clássico cenário em que alguém partilha, com entusiasmo, uma escolha pessoal, como um novo corte de cabelo. Muitas vezes, a resposta que vem do outro lado é imediata: “Não gosto! Estavas melhor antes.”

Mas, naquele momento, a pessoa já não pode mudar nada. Mesmo que a opinião tenha sido pedida, não haveria outra forma de a expressar? Não seria mais sensato responder com uma mentira piedosa, ou simplesmente escolher um sorriso em silêncio?

A honestidade é importante, sem dúvida, mas deve ser cuidada. Perde o seu valor quando serve apenas para alimentar a insegurança de alguém. Numa era cheia de filtros, falta aquele mais importante, o que humaniza as nossas palavras.

Fica a última questão: será que tudo o que nos passa pela cabeça é útil e pertinente para ser dito?

O cérebro, por enquanto, ainda não tem limite de armazenamento. Talvez seja melhor aproveitar isso e guardar alguns pensamentos, em vez de os usarmos como arma de arremesso para ferir o outro.

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