Todos os anos, lá para abril ou maio, nos deparamos com o dilema “e este ano quais são os planos para as férias?” E nós, portugueses, dividimo-nos invariavelmente em dois campos: os que já reservaram uma semana num resort com pulseira tudo incluído e os que andam a estudar roteiros de comboio pela Europa Central ou a pesquisar templos no Sudeste Asiático. Eu, confesso, já pertenci aos dois lados da moeda. Por muito que uma semana de praia num hotel bonito ao pé da praia saiba bem, nada, mas mesmo nada, se compara a umas férias culturais a explorar o mundo.
Antes que me acusem de snobismo ou de querer armar-me em intelectual, deixo uma coisa bem clara: eu percebo perfeitamente o apelo de um resort tudo incluído. Percebo e já cedi a ele várias vezes. Há algo de profundamente libertador em chegar a um sítio onde a única decisão difícil do dia é escolher entre a espreguiçadeira junto à piscina ou a que fica mais perto do bar. Onde o pequeno-almoço é um buffet extremamente generoso que começa às sete e acaba às onze, dando-nos toda a margem do mundo para acordar quando o corpo bem entender.
Há uma honestidade nesse tipo de férias que devemos reconhecer. Trabalhamos, estudamos, ou fazemos outro tipo de atividades o ano inteiro, muitas vezes sugando-nos a energia e a paciência, e quando as férias finalmente chegam, o corpo e a mente pedem descanso puro e duro. Não pedem museus. Não pedem caminhadas de dez quilómetros sob um sol abrasador. Pedem uma cerveja gelada, pés na areia, e o som das ondas como banda sonora. E isso é perfeitamente válido. Somos humanos, não máquinas de absorver cultura.
Dito isto, e aqui entra a minha confissão pessoal, as férias de resort nunca me preencheram verdadeiramente. Ao terceiro dia de espreguiçadeira, por muito paradisíaca que seja a praia, começo a sentir uma inquietação difícil de explicar. Uma sensação de que estou a desperdiçar algo. De que o mundo é demasiado vasto e demasiado fascinante para eu passar duas semanas a olhar para a mesma piscina, por muito bonita que ela seja.
A primeira vez que senti isto foi em Praga, há uns anos. Tinha passado o dia inteiro a andar: o castelo, a ponte Carlos, os becos da cidade velha, um cemitério judaico que me deixou com um nó na garganta. Quando cheguei ao hotel, mal conseguia sentir os pés. Estava exausto de uma forma que uma semana de praia nunca me deixaria. E, no entanto, deitei-me nessa noite com uma sensação de realização que ainda hoje me custa descrever. Tinha estado presente num lugar com séculos de história, tinha visto coisas que só existem ali, apesar da barreira linguística, tinha falado com pessoas que vivem de forma completamente diferente da minha.
É isto que as viagens culturais nos dão e que nenhum buffet de pequeno-almoço consegue substituir: a sensação de expansão. De que o mundo é maior do que a nossa rotina. De que há mil formas de viver, de pensar, de construir cidades, de cozinhar, de rezar, de amar. Voltamos para casa cansados, sim às vezes precisamos de férias das férias, mas voltamos também diferentes. Mais ricos, não em dinheiro, mas uma riqueza inigualável que nos preenche a alma.
Lembro-me de caminhar pelo Saara ao amanhecer, quando o sol ainda pouco queimava e os camelos dormiam deitados em dunas que não acabam. Lembro-me de me perder nas ruas de Londres, uma cidade com uma magnitude inigualável, onde cada esquina revelava um mundo novo. Lembro-me de ficar uma hora inteira a olhar para um quadro de Van Gogh em Amesterdão. São memórias que me aquecem a alma de uma forma que aquele resort em Cabo Verde com animação à noite simplesmente não consegue.
E sim, admito que há uma certa dose de masoquismo nisto. As viagens culturais são cansativas. Implicam acordar cedo para evitar multidões e aproveitar os dias, andar quilómetros com uma mochila às costas, fazer fila para entrar em museus, comer em sítios desconhecidos onde às vezes acertamos e às vezes erramos redondamente. Implicam, muitas vezes, sair da nossa zona de conforto de formas que uma pulseira tudo incluído nunca exigiria. Mas talvez seja precisamente esse desconforto que torna a experiência tão marcante. Crescemos quando somos desafiados, não quando estamos deitados numa espreguiçadeira.
Há quem defenda um meio-termo: combinar alguns dias de praia com alguns dias de exploração. E, em teoria, faz todo o sentido. Na prática, pelo menos para mim, nunca funciona lá muito bem. Tive experiências desse tipo, como por exemplo, no México onde a maior parte da semana foi passada no hotel, mas um dos dias foi reservado para visitar algumas partes do país. A minha sensação na altura foi a de que faltava, algo, como se um dia não fosse o suficiente para absorver a cultura daquele magnifico país
A ideia de que férias são sinónimo obrigatório de “não fazer nada”, de que o objetivo é voltar bronzeado e descansado, na minha cabeça não faz sentido. Para mim, férias são também uma oportunidade de crescer, de aprender, de colecionar histórias que vou contar durante anos. E isso só acontece quando nos atiramos ao mundo, quando caminhamos até não aguentar mais, quando nos confrontamos com o desconhecido.
No fundo, o que defendo é simples: por muito tentador que seja o conforto de um resort, a vida é curta demais para a passarmos sempre no mesmo tipo de sítio. O mundo está cheio de maravilhas, cidades com milhares de anos de história, paisagens de cortar a respiração, culturas que nos desafiam e nos enriquecem. Seria um desperdício passar todos os verões na mesma espreguiçadeira.
Portanto, sim, vão à praia, descansem. Comam do buffet até não poderem mais. Mas de vez em quando metam-se num avião para um sítio que vos assuste um bocadinho. Que vos obrigue a andar, a perguntar, a errar, a descobrir. Vão voltar exaustos. Mas vão voltar vivos de uma forma que só quem viaja assim consegue perceber.
E isso, garanto-vos, vale todos os pés doridos do mundo.
















