Entramos pela porta e observamos um balcão, uma máquina de tabaco ao canto, o barulho do café a ser moído e um copo de cerveja a encher-se através de uma torneira. Fino, imperial, o que seja, a receita é a mesma. Os nomes variam de região para região.
Uma vez no Porto peço um pneu e servem-me uma água das pedras com açúcar e uma rodela de limão. Mas o que é isto? Lá onde vivo davam-me cerveja com sumo de laranja.
Estou a servir uns copos e do nada pedem-me uma bica. Olho com ar estranho e pergunto ao rapaz se é daqui da Beira Interior, mas não, ele lá vem da capital.
Pouco importa, são diferentes nomes que querem dizer o mesmo. Estão uns sentados nas mesas, outros numas cadeiras com pernas altas e encosto, e uns ficam de pé com o braço apoiado no balcão, enquanto outros só estão levantados sem nem ter onde pôr o braço. O que fazem estas pessoas todas juntas?
Trabalhadores da câmara, um carpinteiro, eletricistas, o do talho, da peixaria, da construção civil, da frutaria, canalizador, o primo que veio da França. É um espaço comum onde as pessoas aproveitam para tirar um pouco do seu dia e conversarem. De quem está atrás do balcão para quem está à frente. As pessoas contam vivências, debatem os temas da atualidade e livram-se da pressão que a vida pode trazer.
Passa o jornal na televisão e comenta-se: “Olha para isto, ainda agora fui pôr gasolina, vou começar é a andar a cavalo”, “Estes malucos andam às turras uns com os outros, mas pelo menos aqui não cai nenhuma bomba que não querem saber disto.”. Fala-se de tudo e mais alguma coisa e o que dá brilho a estas conversas é o tom descontraído e engraçado que as pessoas usam.
Expressões que nem aparecem no dicionário, mas lá fazem sentido, enquanto estão aqueles a fazer umas apostas e acaba sempre: “Olha esta, já tinha batido tudo e estes gajos vão logo perder quando eu aposto.” E a música? Às vezes passa uma e as pessoas animam-se. Traz memórias, e quando se dá conta o pé já mexe para lá e para cá.
É o retrato da vida social, a qual é essencial para a nossa boa disposição. Por vezes está um exaltado e outro com copos a mais, mas faz parte, nem tudo é como devia ser. Lá se entendem, as coisas resolvem-se e já passou. Valoriza-se as boas conversas, interações, assim sem pão nem nada até já sabes coisas do arco da velha.
Mete-te à vontade, bebe mais um copinho e põe a conversa em dia com o que te lembrares que a malta tem muito para dizer. É um sítio pequenito, mas sabe-se da missa à metade.



















