(Inani)amado

No meio de duas árvores, bem mais velhas que eu, de frente para o parque e de costas para a estrada, vejo a mesma vista há anos.

Não me importo.

Aliás! Os outros dizem que sou um sortudo por ter a melhor vista.

As crianças acreditam que sempre estive aqui e os velhos têm quase a mesma perceção. Mas de facto, nem eu me lembro do dia em que me prenderam a este sítio.

Passo os dias a observar.

Tenho alguns “amigos” que, apesar de não comunicarmos, sinto que temos uma boa amizade. Digo isto, porque todas as vezes que vêm ao jardim escolhem-me a mim para se sentarem. O senhor Alberto todas as segundas-feiras de manhã vem-me visitar. Antes vinha sempre com a esposa, esteve um tempo sem vir e eu não percebia o porquê. Hoje, aparece sempre com o seu casaco castanho e a sua bengala. Não diz uma palavra nas duas horas que está comigo, mas também não o forço a tal.

Depois começam a vir os desempregados, os amigos sem ocupações e as crianças a passearem o cão. Sentam-se os idosos a queixarem-se da meteorologia, faça chuva ou faça sol, criticam o governo e todas as suas decisões. Voltam no dia seguinte e repetem o mesmo assunto. Dizem sempre as mesmas coisas como se fosse a primeira vez.

Além de banco de jardim, às vezes funciono como casa. Chega o sem-abrigo, sem roupa nova nem comida, estende a manta que carrega consigo desde o início e deita-se sobre o casaco enrolado.

É nestes momentos que me apetece levantar, ir atrás das manifestações e ter a mesma coragem para enfrentar o governo.

Mais ao final da tarde, chega o casal que há dois anos escreveu as iniciais numa das minhas ripas.

“Amar-te-ei para o resto da minha vida”.

Disse ele no dia em que meteu o joelho à minha frente e o anel na mão direita dela.

Inauguraram-me como o banco deles. E desde o primeiro dia que não falham uma semana sem vir ter comigo.

Há vezes em que me sinto inútil e invisível, as pessoas passam por mim e nem um olhar trocam, passam a correr, atrasadas para compromissos ou ansiosas para chegarem aos destinos…questiono-me se realmente faço falta num jardim rodeado de árvores.

Mas é um sentimento que permanece por pouco tempo, no minuto a seguir vem a criança que sobe em mim para chegar às cavalitas do pai, a senhora que vem das compras a pé e pousa os sacos para descansar as mãos e o atleta que correu quinze quilómetros e precisa de beber água.

São estes momentos que me fazem sentir agradecido por me darem utilidade, nem que seja apenas por cinco segundos. Deixam sempre alguma marca.

O pior dia da minha vida foi uma quarta-feira que parecia banal.

A câmara municipal veio-me buscar. Arrancou-me os anos todos presos neste lugar (mas mesmo assim ainda dava para ver a minha marca). Pensei que nunca mais ia voltar.

Passaram cinco dias e trouxeram-me de volta. Voltei a estar no mesmo sítio com a mesma vista, mas sentia me diferente. As minhas ripas de madeira foram trocadas por um pedaço de metal cinzento. Perdi a minha essência. O que outrora era colorido, com vários detalhes nos lados e com mais personalidade… hoje é apenas um retângulo sem graça.

As pessoas estranharam, mas estávamos todos assim. Dois dias depois já ninguém se lembrava de como era.

De volta à normalidade, o inverno instalou-se. O maior inimigo para um banco de jardim ao ar livre.

As árvores estão nuas, as estradas inundadas e o parque vazio. Torna-se complicado passar os dias apenas a apreciar a mesma vista. Aparece na mesma o atleta, porque é fiel às corridas, e aquele que independentemente do tempo vem dar a sua caminhada matinal. São tempos difíceis, mas que fazem refletir e limpar os pensamentos. Há mais tempo para pensar (sem distrações) e reparar em coisas a que nunca prestei atenção.

Mas, lá no fundo, o raio de sol começa a aparecer e não tarda até à primavera chegar.

As flores reflorescem e os sorrisos tornam-se mais visíveis.

 

Hoje é segunda-feira e o senhor Alberto não apareceu.

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