O tempo que gastávamos a esperar

Há uns dias estava a arrumar a casa dos meus avós e enquanto organizava uma gaveta cheia de “velhices” que todas as casas têm, encontrei um mapa de estradas. Estava rasgado numa das dobras e gasto pelo uso durante as viagens antigas, de quando o destino não era uma voz de GPS a dizer “vire à direita”, mas sim uma discussão sobre se já se tinha passado certo cruzamento. Ao olhar para aquele papel, senti o peso do tempo humano – aquele que costumávamos gastar com as coisas antes de tudo se tornar imediato.

A vaguear pelas arrumações encontrei também um telefone de disco, um aparelho pesado que exigia paciência. Ligar para alguém cujo número contivesse muitos noves ou zeros era uma tarefa de minutos: enfiava-se o dedo, girava a roda e esperávamos que a roda dos números voltasse ao início. Se falhássemos o último dígito, não havia maneira de apagar; era preciso desligar e recomeçar tudo de novo. Conversar por telefone exigia uma coreografia física e temporal que hoje parece impensável.

Com tanto objeto antigo e perdido no tempo, lembrei-me das fitas VHS. A conversar com os meus avós descobri que, antigamente, havia um ritual de ir ao clube de vídeo à sexta-feira e, no fim, havia a lei “sagrada” de rebobinar a fita antes de a devolver. Passavam minutos a ouvir o motor do videogravador a ranger enquanto a fita magnética andava para trás, devolvendo o tempo ao seu início. Havia um espaço físico e cronológico bem definido entre o querer ver um filme e o conseguir efetivamente fazê-lo.

O que mudou quando estes objetos desapareceram não foi apenas a tecnologia, foi a nossa tolerância à espera. Passámos do tempo analógico, onde o intervalo entre o querer e o ter era habitado pelo esforço, para a ditadura do instante. Ganhámos eficácia com o streaming e as mensagens instantâneas, mas, ironicamente, usámos os minutos economizados para acumular mais pressa. Hoje, ficamos furiosos se uma página de internet demora três segundos a carregar ou se alguém visualiza uma mensagem e não responde no mesmo segundo.

No final, acabei por guardar o mapa de papel num sítio isolado, junto com o telefone de disco. Sei que nunca o irei usar para viajar, mas serve-me de lembrete de que o tempo não deve ser apenas otimizado. Ao eliminarmos o “tempo morto” das coisas, eliminámos também o espaço onde o pensamento divagava e onde morava a beleza da expectativa. Às vezes, a verdadeira viagem está apenas no processo de esperar que a fita rebobine.

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