O café da minha aldeia era uma animação. Ainda me lembro, quando era miúdo, daquele cheiro vivo dos grãos de café a serem moídos pela máquina que fazia o barulho de uma locomotiva. O convívio parecia não ter fim desde a hora de almoço até à hora de jantar. Os mais velhos jogavam às cartas e marcavam convívios para os fins-de-semana, os trabalhadores tinham uma pausa agradável para pôr a conversa em dia com todos. Eram donos do seu tempo.
E nós, os mais novos, fazíamos do parque de estacionamento a nossa pista de atletismo e dos jogos no campo de futebol com o piso feito de cimento fazíamos uma final da Liga dos Campeões. Tínhamos a mão em tudo. As cores eram tão vivas, o tempo era abrasador e solarengo, mesmo quando não o era. Quando se entrava da porta do café para dentro todos eram amigos, todos se ajudavam e os sorrisos eram infinitos.
Mas…ir àquele café perdeu o seu brilho, desde os tempos do COVID. Num mundo em que o digital nos aproximou, no nosso café tudo ficou tão distante. Parece que, agora, dizer “bom dia” a um conterrâneo é um crime, pela forma que nos encaram e ignoram. A frieza é notória: as pessoas já não sabem umas das outras, nem pretendem ajudar ou sequer ser ajudadas. No parque de estacionamento e no campo já nem o vento passa. E cada vez que saio, o ambiente do interior transmite-me que o tempo ainda mais deprimente estará lá fora.
Foto: Associação de Contenças de Baixo






















