Numa altura em que os Estados Unidos voltam a enfrentar fortes tensões em torno das questões raciais, alimentando debates e expetativas sobre o futuro das relações entre as diferentes comunidades, os casos de racismo continuam a ganhar visibilidade. Ao invés de se julgar uma pessoa pelas suas ações ou atitudes, continua-se a julgar pela cor de pele.
No futebol, a realidade não é diferente e assistimos a um aumento de episódios de discriminação racial, muitos dos quais acabam por ganhar uma grande repercussão mundial. Temos o exemplo do jogador brasileiro Taison que, ao serviço do Shakhtar Donetsk, foi alvo de insultos racistas durante uma partida por parte dos adeptos e acabou mesmo por reagir, levantando o dedo do meio para as bancadas. O “Caso Marega”, em Portugal, num jogo entre Vitória Sport Clube e Futebol Clube do Porto, onde os adeptos vimaranenses trataram de forma desumana o jogador portista, que acabou por abandonar legitimamente a partida. E, por último, aquele que atualmente tem maior destaque: os constantes casos de discriminação contra Vinícius Júnior, do Real Madrid.
Contudo, é importante analisar estas situações sob duas perspetivas bastante diferentes. Na minha visão, enquanto adepto do desporto, podemos separar estes três casos em dois polos distintos.
De um lado, ficam os casos de Taison e Marega. Aqui, estamos perante comentários e atitudes racistas, dirigidos a profissionais que, em momento algum, provocaram as bancadas ou os adversários, tendo sido claras vítimas do preconceito. Do outro lado, ficam os episódios que envolvem Vinícius Júnior. Neste polo, é frequentemente a postura do jogador dentro de campo – provoca os adeptos, “pica” os adversários, incendia o ambiente – que serve de estímulo para os comentários que recebe de volta.
Só fazer uma ressalva: nada, absolutamente nada, justifica o racismo. O insulto baseado na cor da pele é injustificável e repugnante. Mas o ponto fulcral que distingue estes 2 polos não é a gravidade do ato, mas sim a forma como o racismo é instrumentalizado.
O que realmente separa Marega e Taison de Vinícius Júnior é o facto de o jogador do Real Madrid utilizar o racismo não apenas como uma causa a combater, mas como um escudo e uma arma de arremesso quando as suas próprias atitudes são colocadas em xeque. Como já referi, Vinícius incendia o ambiente e quando esse se torna insustentável, usa a discriminação para se vitimizar e desviar o foco do seu comportamento antidesportivo.
Esta estratégia de defesa tem levado, inclusive, à distorção da verdade. Ficou famoso o caso no estádio do Valência, em Espanha, onde o jogador do Real Madrid acusou grande parte dos adeptos valencianos de racismo generalizado, algo que as investigações provaram mais tarde ser uma narrativa exagerada. Mais recentemente, assistimos a um episódio idêntico num confronto com Gianluca Prestianni, jogador do Benfica. Vinícius Júnior, após ter marcado um (belo) golo contra o Benfica, decidiu fazer o quê? Ir festejar para junto da bandeirola de canto, com cara de gozo para os adeptos do Benfica, a dançar à frente dos mesmos, isto tudo de forma provocatória. Prestianni insurgiu-se contra aquela atitude do jogador do Real Madrid e foi pedir satisfações. Aqui, Vinícius apressou-se a sugerir ter sido alvo de racismo
por alegadamente ter ouvido a palavra “mono” (macaco), quando na realidade, após análise da UEFA, foi concluído que Prestianni proferiu a palavra “maricon” durante a discussão – um insulto homofóbico e grave, mas que expõe a pressa de Vinícius em acionar o “alarme do racismo” como autodefesa.
Com isto, quero realçar que com a banalização de acusações desta gravidade em benefício próprio, Vinícius Júnior presta um mau serviço a uma causa que ele afirma defender. Enquanto Marega e Taison sofreram racismo na sua forma mais cruel e insensível, tendo os dois abandonado o campo, Vinícius parece necessitar do ruído do preconceito para justificar o seu comportamento injustificado.
O racismo no futebol é um problema estrutural que exige tolerância zero e que deve ser combatido. No entanto, para haver eficácia no combate a este preconceito, não podemos permitir que uma luta tão legítima e dolorosa seja transformada numa estratégia de jogo ou em escudo para proteger comportamentos.
















